Projetada na era soviética, interrompida por guerra civil e retomada como missão nacional, a barragem mais alta do mundo concentra a esperança de um país sem mar, sem petróleo e com inverno severo, que tenta transformar rios, altitude e sacrifício interno em eletricidade, estabilidade econômica e peso geopolítico duradouro regional.
A barragem mais alta do mundo se transformou, para o Tajiquistão, em muito mais do que uma obra de infraestrutura. Em um país pequeno, montanhoso, sem saída para o mar e sem reservas relevantes de petróleo e gás, ela passou a representar uma tentativa concreta de enfrentar cortes severos de energia, reduzir a dependência econômica externa e reorganizar o próprio destino a partir daquilo que o território oferece em abundância: rios e desnível natural.
Ao mesmo tempo, a grandiosidade do projeto explica por que ele desperta tanta expectativa e tanta apreensão. O que está em jogo não é apenas uma barragem de 335 metros, planejada para gerar 3.600 MW, mas a possibilidade de converter uma fragilidade histórica em vantagem estratégica. Se funcionar como o país espera, Rogun pode alterar a posição do Tajiquistão na Ásia Central; se falhar, pode aprofundar riscos financeiros, políticos e regionais que já acompanham a obra há décadas.
Um país cercado por montanhas e pressionado pela falta de energia

Para entender por que o Tajiquistão decidiu apostar na barragem mais alta do mundo, é preciso começar pelo próprio país. Trata-se de uma nação marcada por um relevo extremo, com mais de 90% do território coberto por montanhas, sem acesso ao mar e sem uma base energética fóssil comparável à de outros vizinhos. Em vez de petróleo ou gás em grande escala, o que existe ali são rios caudalosos, vales estreitos e uma geografia que favorece a geração hidrelétrica.
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Esse quadro natural se cruza com uma vulnerabilidade econômica persistente. Em alguns anos, as remessas enviadas por trabalhadores emigrados na Rússia representaram mais de 30% do PIB nacional, um sinal claro de dependência externa. No inverno, quando a demanda sobe e a oferta se torna insuficiente, os cortes de energia podem chegar a 12 horas por dia. Não se trata apenas de desconforto doméstico, mas de uma limitação estrutural que afeta hospitais, aquecimento, rotina produtiva e estabilidade social. Nesse contexto, construir uma grande usina deixou de ser apenas um plano técnico e passou a ser visto como necessidade nacional.
ainda está em construção e não foi finalizada. O corpo principal da barragem está previsto para atingir sua altura final (335 metros) por volta de 2029, com o enchimento total do reservatório planejado para ocorrer com horizonte até 2036. O projeto começou a fornecer energia em 2018.
A origem soviética de uma obra pensada para desafiar limites
A barragem de Rogun não nasceu como uma resposta recente à crise energética. Sua origem remonta à era soviética, quando a União Soviética buscava consolidar poder por meio de megaempreendimentos capazes de demonstrar domínio sobre a natureza e capacidade industrial. Nos anos 1960, engenheiros identificaram o rio Vakhsh como um dos pontos mais promissores do mundo para geração hidrelétrica, graças ao vale estreito, às paredes rochosas elevadas e à forte queda de altitude.
Em 1976, o projeto foi oficialmente lançado com uma meta ambiciosa: erguer a estrutura que superaria todas as demais em altura. A meta de 335 metros colocava Rogun acima de qualquer barragem já construída, inclusive acima de Nurek, também no Tajiquistão, que alcança 300 metros. As obras começaram com escavações de túneis, mobilização de trabalhadores e transformação do vale em um imenso canteiro de obras. Mas a dissolução da União Soviética, em 1991, interrompeu esse avanço de forma abrupta. O Tajiquistão tornou-se independente, mergulhou em uma guerra civil que durou até 1997 e deixou mais de 50 mil mortos, enquanto a obra foi abandonada por décadas. A promessa de grandeza ficou paralisada justamente quando o país mais precisava de capacidade para concluir algo dessa escala.
Da rivalidade pela água ao financiamento transformado em causa nacional
Quando o Tajiquistão decidiu retomar o projeto nos anos 2000, a resistência não veio apenas da limitação financeira. Veio também da geopolítica da água. O rio Vakhsh deságua no Amu Dária, eixo vital para a agricultura do Uzbequistão, país que depende fortemente desse sistema hídrico. A perspectiva de um reservatório com capacidade de 13 quilômetros cúbicos acendeu o temor de que o controle do fluxo do rio pudesse afetar irrigação, produção de alimentos e segurança de populações inteiras a jusante.
Esse impasse elevou o projeto a um patamar regional sensível. Em 2012, o então presidente uzbeque Islam Karimov afirmou que disputas por água na Ásia Central poderiam levar à guerra. A frase sintetizava um medo antigo, agravado pela memória da degradação do mar de Aral, devastado por décadas de gestão hídrica desastrosa. Durante anos, o Uzbequistão pressionou organismos multilaterais, dificultou financiamentos e reforçou o isolamento da obra. O Banco Mundial só aceitou se envolver após exigir estudos independentes de impacto ambiental e regional, num processo demorado e caro.
Sem acesso fácil ao capital externo, o governo tajique recorreu a uma solução politicamente delicada. Em 2010, o presidente Emomali Rahmon lançou uma campanha nacional para a compra de ações de Rogun. Funcionários públicos, professores, médicos e militares foram pressionados a contribuir, e em muitos casos isso foi tratado como obrigação. Houve críticas de organizações de direitos humanos, que apontaram caráter coercitivo na medida. Ainda assim, a mobilização mostrou o lugar simbólico que a barragem mais alta do mundo passou a ocupar no discurso oficial: não como uma simples obra, mas como um projeto de sobrevivência econômica e afirmação nacional.
Esse cenário começou a mudar após 2016, com a morte de Karimov e a chegada de Shavkat Mirziyoyev ao poder no Uzbequistão. A nova postura abriu espaço para negociações mais pragmáticas sobre água e eletricidade, reduzindo parte da tensão regional. Com isso, instituições como o Banco Europeu para Reconstrução e Desenvolvimento, o Banco Asiático de Desenvolvimento e investidores privados passaram a observar Rogun sob outra perspectiva. As obras ganharam novo ritmo e, em 2018, as duas primeiras turbinas foram ativadas. Ainda longe da conclusão, a barragem deixou de ser apenas promessa e passou a produzir eletricidade de fato.
Por que Rogun é uma das obras mais complexas já tentadas

A dimensão simbólica de Rogun é inseparável da sua dificuldade técnica. A barragem mais alta do mundo não foi concebida como uma parede de concreto convencional, mas como uma barragem de enrocamento com núcleo de argila. Isso significa que o corpo principal da estrutura é formado por enormes volumes de rocha e cascalho compactados em camadas, enquanto um núcleo central de argila impermeável atua como vedação contra a passagem de água.
Antes mesmo de levantar a barragem, foi necessário desviar o curso do rio Vakhsh. Para isso, quatro túneis foram escavados pelas montanhas, dois deles ainda herdados da fase soviética e depois reabilitados. Cada um tem mais de um quilômetro de comprimento, com diâmetros que chegam a dezenas de metros. Esses túneis permitem que o rio siga seu curso ao lado da área de construção, tornando possível o avanço gradual da estrutura principal. Depois disso, a obra passa a ser erguida camada por camada, com monitoramento constante de deformação, pressão d’água e temperatura. É uma engenharia que não admite improviso, porque qualquer anomalia precisa ser detectada antes de se transformar em ameaça real.
A escala energética projetada ajuda a explicar por que tanto esforço foi concentrado ali. O reservatório deverá armazenar 13 quilômetros cúbicos de água, e o enchimento total está previsto apenas para cerca de 2036. A usina foi planejada para operar com seis turbinas, cada uma de 600 MW, totalizando 3.600 MW. Em tese, isso seria suficiente para dobrar a produção elétrica atual de todo o Tajiquistão. Em outras palavras, Rogun não foi desenhada para aliviar pontualmente a escassez; ela foi pensada para reestruturar por completo o sistema energético do país.
O risco sísmico e o peso de uma escolha sem margem confortável
Se a ambição técnica já é gigantesca, a geologia torna tudo ainda mais delicado. O vale do Vakhsh fica em uma região sismicamente ativa, no sistema montanhoso do Pamir, uma das áreas geologicamente mais complexas da Ásia. Terremotos fazem parte da realidade local, e essa condição impõe um tipo de exigência que não pode ser tratado como detalhe secundário.
A engenharia de Rogun precisou partir do princípio de que a estrutura deveria resistir em um ambiente onde o risco zero simplesmente não existe.
Há ainda a preocupação histórica com a presença de falhas geológicas na área do projeto, incluindo a falha de Mukri, mencionada nos estudos soviéticos. Segundo essas avaliações, a estrutura poderia resistir com o desenho adequado, mas isso nunca eliminou a gravidade do cenário.
Uma ruptura catastrófica em uma barragem dessa dimensão liberaria uma onda de água e lama devastadora ao longo do vale, com consequências potencialmente severas por centenas de quilômetros. Por isso, Rogun é ao mesmo tempo um símbolo de solução e um lembrete permanente do custo de construir no limite do possível.
Esse dilema ajuda a explicar por que o projeto é tratado quase como uma escolha forçada. Para um país com frio intenso, cortes crônicos de energia e poucas alternativas de transformação econômica em larga escala, recuar também tem preço.
Permanecer dependente de remessas externas, continuar exposto a escassez elétrica sazonal e abrir mão de uma fonte própria de poder regional significaria aceitar uma fragilidade estrutural prolongada. A aposta em Rogun, nesse sentido, não nasce apenas de ambição, mas também de falta de rotas equivalentes.
A crise climática pode acelerar a oportunidade e encurtar o horizonte
A barragem de Rogun também está cercada por uma ironia difícil de ignorar. A crise climática aumenta a urgência por fontes limpas de energia e, ao mesmo tempo, introduz incertezas sobre a durabilidade do próprio sistema hídrico que sustenta o projeto.
O rio Vakhsh é alimentado pelas geleiras do Pamir, e o derretimento acelerado dessas massas de gelo altera o comportamento do fluxo de água em escalas que não são triviais para uma obra dessa magnitude.
No curto prazo, o aumento do degelo pode ampliar a disponibilidade de água e favorecer a geração elétrica. Mas no horizonte mais longo, a redução crítica das geleiras pode comprometer a estabilidade do regime hídrico e diminuir o fluxo que hoje sustenta a expectativa de operação por décadas.
Somam-se a isso chuvas mais irregulares, secas prolongadas e cheias mais intensas, elementos que tornam o gerenciamento de um reservatório tão grande ainda mais complexo. Em outras palavras, o mesmo clima que reforça a necessidade de energia limpa também pode reescrever as condições em que essa energia será produzida.
Apesar desse risco, o potencial geopolítico da obra continua sendo enorme. Caso a produção excedente se confirme, o Tajiquistão poderá exportar eletricidade para mercados como Afeganistão e Paquistão, inserindo-se de forma mais decisiva em corredores energéticos regionais discutidos há anos.
Nesse cenário, a barragem mais alta do mundo deixaria de ser apenas uma resposta doméstica à escassez e passaria a funcionar como ferramenta de influência. Um país pequeno, sem petróleo e sem mar, poderia conquistar relevância por meio da energia que gera nas montanhas.
Entre sobrevivência econômica e ambição estratégica, o que Rogun realmente representa
Rogun concentra várias camadas de significado ao mesmo tempo. É uma resposta à pobreza energética, uma herança da engenharia soviética, uma disputa regional pela água, uma obra cercada por incerteza sísmica e uma tentativa de transformar recursos naturais em capacidade política. Poucos projetos no mundo reúnem, de forma tão intensa, questões de infraestrutura, soberania, segurança e clima dentro da mesma estrutura física.
É por isso que a barragem ultrapassa o debate puramente técnico. Quando um país com cerca de 10 milhões de habitantes decide apostar bilhões de dólares numa única obra, ele está fazendo mais do que construir concreto, rocha e túneis. Está tentando reorganizar sua posição histórica.
Se a barragem mais alta do mundo entregar eletricidade estável, ampliar a autossuficiência e abrir caminho para exportações, o Tajiquistão pode alterar sua trajetória. Se a conta política, financeira, climática ou geológica pesar demais, a obra poderá entrar para a história como uma das apostas mais arriscadas já feitas por uma nação inteira.
No fim, Rogun resume uma pergunta que vai muito além da Ásia Central: até onde um país pequeno pode ir quando decide transformar vulnerabilidade em estratégia? Quero saber sua opinião nos comentários: você vê essa barragem como uma saída racional para a crise energética do Tajiquistão ou como um risco grande demais para ser sustentado por tanto tempo?
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