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Uma comunidade de 229 moradores protege sua única fonte de renda, uma lagosta vendida por até R$ 215 a cauda, criando proteção em 687 mil km² no Atlântico Sul e chama atenção de autoridades do Reino Unido

Escrito por Flavia Marinho
Publicado el 24/01/2026 a las 13:11
Uma comunidade de 229 moradores realizou a criação de uma área marinha protegida de 687 mil km² para sustentar a pesca de lagosta, provocando redução do tráfego marítimo e chamando atenção de autoridades do Reino Unido e de organizações de monitoramento.
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Uma comunidade de 229 moradores realizou a criação de uma área marinha protegida de 687 mil km² para sustentar a pesca de lagosta, provocando redução do tráfego marítimo e chamando atenção de autoridades do Reino Unido e de organizações de monitoramento.

O dia começa antes do sol nascer, com o som metálico de um martelo batendo em um antigo cilindro de oxigênio. Em Tristão da Cunha, no sul do Oceano Atlântico, esse gongo tem um significado direto: é dia de pesca.

E aqui, pesca não é só tradição, é sobrevivência. Com pouco mais de 200 pessoas vivendo no lugar habitado mais remoto da Terra, praticamente tudo depende do oceano, principalmente da principal fonte de renda local: a lagosta de são paulo.

O detalhe que mais chama atenção é o contraste. Mesmo cercada por milhões de quilômetros quadrados de mar aberto e distante 2.414 km de Santa Helena, a ilha tentou fazer algo que países maiores ainda travam para colocar em prática: proteger quase todo o seu mar e, ao mesmo tempo, manter a economia funcionando.

Só que as ameaças não param. Mudanças climáticas, espécies invasoras e até navios que desligam sistemas de rastreamento aumentam a pressão sobre um ecossistema considerado entre os mais intocados do planeta.

O que sustenta a ilha é uma lagosta rara, vendida no exterior por até US$ 39 a cauda, equivalente a R$ 215

A grande estrela da economia de Tristão da Cunha é a lagosta de são paulo (Jasus paulensis), um crustáceo encontrado apenas perto de ilhas remotas nos oceanos mais ao sul do planeta.

A carne é descrita como doce e delicada, e o valor impressiona: uma única cauda pode chegar a US$ 39 no mercado norte americano, cerca de R$ 207. O produto também segue para o Japão e para o Reino Unido.

Nas águas frias e temperadas do arquipélago, essas lagostas vivem perto da costa, em profundidades de até 200 metros. E não são apenas um item de exportação. Elas ajudam a manter o próprio equilíbrio do ambiente marinho, porque participam da cadeia alimentar, reciclam nutrientes e servem de alimento para predadores como polvos.

Uma temporada curta e um ritual às 5h da manhã mostram o peso de cada dia de pesca

Em Tristão da Cunha, os pescadores têm uma janela apertada de trabalho. São apenas 18 a 72 dias de pesca por temporada, o que faz cada oportunidade virar prioridade.

Os barcos saem do porto Callshot, conhecido como a Praia, enquanto cães latem e botas de borracha batem no chão. O ritmo é rápido, porque não há margem para desperdício de tempo.

Em janeiro de 2024, por exemplo, uma equipe saiu no Island Pride, um barco laranja de 8 metros, seguindo para um ponto de pesca no lado sul da ilha. A localização não depende de tecnologia sofisticada, mas de triangulação com referências do terreno e leitura da profundidade do mar.

O trabalho é pesado. Armadilhas grandes são lançadas em águas profundas e ficam horas no fundo, tempo suficiente para a isca atrair as lagostas. Em áreas mais rasas, redes cilíndricas são usadas nas florestas de algas submarinas e são puxadas para bordo uma vez por hora.

A ilha quase perdeu tudo com pesca excessiva, e as regras só ficaram firmes depois de 1997

Hoje, a comunidade defende a ideia de tirar do oceano apenas o necessário. Mas nem sempre foi assim.

Décadas atrás, a pesca excessiva reduziu significativamente o número de crustáceos. No início, a atividade tinha pouca regulamentação. Lagostas pequenas e fêmeas com ovos eram retiradas antes de se reproduzir, o que fragilizava o estoque.

As primeiras medidas mais claras apareceram em 1983, quando o Conselho da Ilha criou limites de tamanho. As cotas vieram em 1991. Só que, segundo o Departamento de Pesca local, essas regras passaram a ser realmente aplicadas a partir de 1997.

A memória dos mais antigos mostra como a abundância era grande e como tudo mudou. Um morador de 82 anos relata que, quando começou a pescar aos 15, ele e um parceiro chegaram a pegar 1.360 kg em um único dia usando apenas 10 redes.

Uma empresa com licença exclusiva captura a maior parte da produção, com fiscalização diária e envio para a Cidade do Cabo

A base operacional da pesca comercial passa por uma empresa sul africana chamada Ovenstone Agencies, que detinha a concessão de uma grande cota de lagosta de são paulo, cerca de 800 mil por ano, além de 110 toneladas de peixe medusa antártico (Hyperoglyphe antarctica).

Esse contrato tem impacto direto no cotidiano. A empresa oferece empregos, eletricidade e transporte marítimo de passageiros, incluindo evacuações médicas para a Cidade do Cabo, na África do Sul.

Entre agosto de 2023 e abril de 2024, o principal navio de pesca da empresa, o MFV Edinburgh, pescou ao redor das ilhas Nightingale, Inacessível e Gough e levou cerca de 316 toneladas para terra. Esse volume representa a maior parte da produção anual da ilha, que chegou a 441 toneladas.

O restante da cota, de até 125 toneladas, ficou com pescadores locais em barcos menores, sempre com regras rígidas. Há limite de redes e armadilhas, uso constante de bastões de medição e observadores do Departamento de Pesca acompanhando as viagens, medindo centenas de lagostas todos os dias.

A produção é processada, embalada e congelada a bordo antes de seguir para a Cidade do Cabo. Ao longo do ano, o Departamento de Pesca também marca lagostas, acompanha movimentos, usa câmeras submarinas e faz amostras aleatórias e dados de biomassa para avaliar a saúde do estoque.

A área marinha protegida fechou 91% do mar, reduziu o tráfego em mais de 20% e virou um teste real de fiscalização remota

A resposta mais ousada para proteger a principal fonte de renda foi criar uma das maiores áreas marinhas protegidas do planeta.

A área marinha protegida de Tristão da Cunha cobre 687 mil km². Em 91% das águas territoriais, a pesca comercial é proibida. Nos 9% restantes, o que existe é controle com cotas rigorosas, limites de tamanho e monitoramento a bordo.

O plano também criou Áreas a Serem Evitadas para navegação, tentando reduzir o risco de acidentes perto de habitats sensíveis. A lógica é direta: não basta controlar a pesca, porque muitos dos grandes danos vieram de navios em trânsito.

Os números mais recentes mostram que a mudança teve efeito. Em 2019, antes da criação da área protegida, 14% dos navios que transitavam pelas águas locais chegaram a até 46,3 km de uma das ilhas. Em 2023, esse percentual caiu para 2%. E o tráfego geral dentro da área protegida foi reduzido em mais de 20% desde 2020.

A fiscalização depende de tecnologia, porque a ilha não tem aeroporto e não possui navio próprio para patrulhar todo o território. O monitoramento por satélite e dados do AIS, o Sistema de Identificação Automática, viraram o olho da ilha no meio do oceano.

A Organização de Gestão Marítima do Reino Unido auxilia a área protegida interpretando dados e identificando comportamentos suspeitos, como redução de velocidade, deriva em zona proibida ou desligamento do AIS.

Mudanças climáticas, espécies invasoras e encalhes antigos mostram que o risco não vem só da pesca

Mesmo com o mar considerado saudável, a pressão ambiental não desapareceu. E há sinais de que as mudanças climáticas podem mexer diretamente com a base do sistema.

Ainda não existem evidências conclusivas, em grande parte pelo pequeno número de estudos. Mas há indícios de que o aumento da temperatura do mar já prejudica o crescimento das algas no verão, um habitat fundamental para as lagostas. O aquecimento também pode empurrar as lagostas mais para o sul, fora do alcance dos moradores.

E existe um fator que marcou a história local: incidentes com embarcações em trânsito.

Em junho de 2006, uma enorme plataforma de petróleo chamada PXXI encalhou em Trypot Point, após se separar do rebocador quando era levada do Brasil para Singapura. Não houve vazamento de óleo, mas o impacto veio de outra forma: 62 espécies invasoras foram introduzidas.

Entre elas está o marimbá (Diplodus argenteus), peixe de recife onívoro nativo da América do Sul. Ele se espalhou por três ilhas do arquipélago, e apenas a ilha de Gough permanece livre. Uma lagosta jovem já foi encontrada no estômago de um marimbá, o que acendeu alertas para a pesca. Esse avanço virou tema de estudo da Universidade de Exeter, com um estudante previsto para passar quatro meses na ilha analisando a expansão e as interações com as lagostas.

Outro caso aconteceu em março de 2011, quando o navio MS Oliva encalhou na ilha Nightingale e derramou combustível e 65 mil toneladas de soja. Milhares de pinguins de penacho amarelo do norte e outras aves marinhas morreram, e a pesca em Nightingale e Inacessível foi temporariamente suspensa.

Mesmo assim, expedições científicas encontraram abundante vida marinha. Entre elas, a expedição Pristine Seas da National Geographic, liderada por Paul Rose em 2017, fez a primeira pesquisa detalhada com mergulhadores, câmeras submarinas e marcação por satélite. O levantamento reforçou que os mares locais estão entre os mais intocados da Terra, com colônias importantes de aves marinhas, berçários de tubarões e vastas florestas de algas.

A grande pergunta agora é por quanto tempo isso se mantém.

Uma ilha sem guarda costeira usa satélite, mas admite limite prático e sonha com navio próprio

O cenário parece positivo no papel, mas a execução tem um ponto sensível: patrulhar uma área gigantesca sem ter estrutura para interceptar fisicamente invasores.

Tristão da Cunha tem um único barco de patrulhamento, o Wave Dancer, com alcance de 483 km. Não há guarda costeira. Se acontecer falha mecânica, não existe resgate local imediato.

O custo anual de um navio totalmente equipado ficaria na casa dos milhões, fora do alcance da ilha. Ainda assim, o desejo de ter um navio próprio aparece como necessidade estratégica.

Por enquanto, a avaliação oficial é de alto respeito às regras, sem casos confirmados de pesca ilegal. Mas relatórios mais recentes de julho de 2025 indicam que as águas permanecem sob pressão constante.

Dois navios aparentemente entraram em áreas a serem evitadas. Um deles desligou o AIS a menos de 370 km de distância da área protegida. E uma frota de cinco navios de pesca de atum rabilho operou a 46 km dos limites. Desligar o AIS não significa necessariamente pesca ilegal, porque pode ser falha técnica ou limitação de cobertura via satélite, mas o comportamento desperta suspeitas, ainda mais perto de áreas ricas em pesca.

O que parecia impossível virou rotina em uma comunidade pequena. Mas a tensão continua: proteger um oceano gigantesco com ferramentas limitadas e, ao mesmo tempo, manter viva a única atividade que sustenta a ilha.

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Valdemir Fonseca da Silva
Valdemir Fonseca da Silva
26/01/2026 09:59

Cadê a foto da lagosta?

zFPWdwPk
zFPWdwPk
24/01/2026 20:41

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Fuente
Flavia Marinho

Flavia Marinho é Engenheira pós-graduada, com vasta experiência na indústria de construção naval onshore e offshore. Nos últimos anos, tem se dedicado a escrever artigos para sites de notícias nas áreas militar, segurança, indústria, petróleo e gás, energia, construção naval, geopolítica, empregos e cursos. Entre em contato com flaviacamil@gmail.com ou WhatsApp +55 21 973996379 para correções, sugestão de pauta, divulgação de vagas de emprego ou proposta de publicidade em nosso portal.

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