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COP30 em Belém expõe divisões globais: países ricos, emergentes e dependentes de petróleo travam disputa por poder climático

Escrito por Rannyson Moura
Publicado em 13/11/2025 às 08:11
Na COP30, realizada em Belém, o debate sobre a transição energética revela o abismo entre países ricos, emergentes e os dependentes de petróleo. Blocos buscam força em alianças estratégicas enquanto as promessas de financiamento climático seguem emperradas.
Na COP30, realizada em Belém, o debate sobre a transição energética revela o abismo entre países ricos, emergentes e os dependentes de petróleo. Blocos buscam força em alianças estratégicas enquanto as promessas de financiamento climático seguem emperradas.
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Na COP30, realizada em Belém, o debate sobre a transição energética revela o abismo entre países ricos, emergentes e os dependentes de petróleo. Blocos buscam força em alianças estratégicas enquanto as promessas de financiamento climático seguem emperradas.

Durante a COP30, o Brasil tem tentado imprimir um tom colaborativo às negociações climáticas. O chefe de negociação do Itamaraty, Túlio Andrade, destacou que o país busca um “espírito de mutirão” entre as nações, conceito que vem sendo repetido nos bastidores da conferência.

“Observamos que o espírito do mutirão não apenas foi mencionado várias vezes por todas as delegações, mas também foi colocado em prática por todas elas. Houve um entendimento comum de que estamos finalmente fazendo a transição da fase de negociação para a de implementação”, afirmou Andrade.

Na prática, as discussões têm sido mais abertas, mas as diferenças entre os blocos de países continuam profundas — especialmente quando o tema é petróleo, energia e financiamento climático.

Blocos de poder na COP30: alianças e disputas pelo futuro energético

Embora o discurso oficial pregue unidade, os bastidores da COP30 mostram uma intensa articulação entre grupos com interesses econômicos e ambientais opostos. Segundo o UNFCCC, há 16 blocos reconhecidos nas negociações, com sobreposições e estratégias próprias.

Esses grupos têm se organizado para ganhar relevância em torno de quatro pontos-chave da agenda climática: financiamento, metas de emissões (NDCs), transição energética e transparência nos relatórios de progresso.

União Europeia: liderança climática com resistência financeira

O bloco europeu se apresenta como referência ambiental, mas enfrenta críticas pela resistência em ampliar os repasses financeiros prometidos. Na COP anterior, em Baku, a União Europeia havia se comprometido a transferir US$ 300 bilhões anuais aos países em desenvolvimento.

Entretanto, o total necessário para garantir uma adaptação climática efetiva está estimado em US$ 1,3 trilhão — e os europeus não pretendem aumentar a contribuição.

Além disso, as tarifas ambientais impostas pela UE têm gerado tensão. Países exportadores reclamam de barreiras comerciais ligadas à emissão de carbono e à devastação florestal, o que limita o acesso ao mercado europeu. Ainda assim, os europeus demonstram abertura para negociar metas e mecanismos de transparência.

Emergentes e dependentes de petróleo: a força da economia fóssil

Liderados por China e Índia, os países emergentes que dependem fortemente do petróleo se unem para evitar pressões sobre a eliminação dos combustíveis fósseis.

Nações como Arábia Saudita e outros produtores de petróleo enxergam o combustível como pilar econômico, e não pretendem abandoná-lo no curto prazo.

Como estratégia, esses países insistem na cobrança do fundo climático de US$ 1,3 trilhão, defendendo que sem esse apoio financeiro, a transição energética seria inviável. Ao mesmo tempo, buscam esvaziar debates sobre metas de redução de emissões (NDCs), consideradas politicamente sensíveis.

Grupo Sul: Mercosul tenta se equilibrar entre economia e meio ambiente

O Grupo Sul, que reúne países do Mercosul — incluindo o Brasil —, procura construir uma imagem de liderança ambiental. O bloco apoia os emergentes nas cobranças por financiamento, mas busca diferenciar-se ao propor reduções mais robustas de emissões.

Para o governo brasileiro, a estratégia é mostrar ao mundo que é possível crescer economicamente sem abrir mão da sustentabilidade. Ainda assim, internamente, o país enfrenta críticas por manter investimentos em exploração de petróleo, o que gera contradições no discurso ambientalista.

Pequenos Estados Insulares: o apelo ético dos que podem desaparecer

Formado por nações-ilha altamente vulneráveis, o grupo dos Pequenos Estados Insulares tem sido um dos mais enfáticos nas plenárias. Com o aumento do nível dos oceanos, esses países correm o risco de desaparecer fisicamente do mapa.

Embora tenham pouco peso econômico, utilizam a força moral de sua situação para constranger as grandes potências. Seus discursos, carregados de emoção, são um lembrete constante de que o tempo está se esgotando para quem já vive os efeitos extremos da crise climática.

Países menos desenvolvidos: entre a urgência climática e a dependência financeira

O bloco dos Países Menos Desenvolvidos (PMD) representa a porção mais frágil do planeta. Com economias frágeis e infraestrutura precária, dependem quase integralmente de financiamento externo para lidar com secas, enchentes e outros eventos extremos.

Assim como os insulares, os PMDs apelam para o lado ético do debate, ressaltando que são as maiores vítimas de um problema que não criaram. O grupo exige mais responsabilidade dos países ricos e maior transparência nos mecanismos de repasse financeiro.

Latino-americanos e caribenhos: metas mais ambiciosas e busca por protagonismo

Sob liderança da Colômbia, o bloco latino-americano e caribenho tenta se destacar nas negociações ao propor metas mais ousadas de redução de emissões. A região defende uma transição energética justa, com menos dependência do petróleo, mas ressalta que precisa de apoio tecnológico e financeiro para alcançar esse objetivo.

África e a aliança com potências emergentes

Os países africanos, por sua vez, vivem um dilema semelhante: sofrem com os impactos climáticos e dependem de ajuda externa, mas também estão se aproximando de Índia e China em questões estratégicas.

Essa aliança geopolítica tem dado maior peso às demandas africanas, mas também desperta críticas por priorizar acordos econômicos em detrimento das metas climáticas globais.

Vale lembrar que a COP30 reforça que, mesmo diante da urgência climática, o petróleo segue como divisor de águas. De um lado, países ricos pressionam por metas mais rígidas. De outro, emergentes e produtores de combustíveis fósseis defendem que a transição deve respeitar o ritmo de cada economia.

Enquanto o Brasil tenta manter o diálogo aberto, o desafio de conciliar desenvolvimento, soberania energética e sustentabilidade permanece o maior obstáculo para um consenso global.

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Rannyson Moura

Graduado em Publicidade e Propaganda pela UERN; mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Atua como redator freelancer desde 2019, com textos publicados em sites como Baixaki, MinhaSérie e Letras.mus.br. Academicamente, tem trabalhos publicados em livros e apresentados em eventos da área. Entre os temas de pesquisa, destaca-se o interesse pelo mercado editorial a partir de um olhar que considera diferentes marcadores sociais.

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