Brasil detém segunda maior reserva de terras raras, tem só uma mina em operação e projetos australianos avançando, enquanto Estados Unidos e China disputam acesso às jazidas e especialistas cobram estratégia urgente para decidir entre vender minério cru ou investir pesado em refino nacional competitivo e tecnologia de longo prazo.
Em janeiro de 2024, a Mineração Serra Verde iniciou a operação comercial em Minaçu (GO), marcando a estreia do Brasil na produção em escala de óxidos de terras raras, insumo crucial para ímãs permanentes usados em carros elétricos e turbinas eólicas. Em meados de 2025, o interesse declarado dos Estados Unidos nas reservas brasileiras elevou o tema à condição de pauta estratégica em Brasília e no setor mineral.
Desde então, a corrida global pelos 17 elementos químicos que compõem as terras raras ganhou força no País: o Brasil, dono da segunda maior reserva do mundo, passou a ser disputado por Estados Unidos, China e outras potências que tentam reduzir a dependência do refino chinês, responsável por cerca de 70% da produção global e 85% da capacidade mundial de processamento.
Brasil tem só uma mina operando e fila de projetos em análise
Apesar do potencial, o mapa atual da produção ainda é tímido. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o País conta hoje com 12 lavras de terras raras autorizadas e 186 em análise pelas autoridades.
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Além disso, há 1.790 pesquisas minerais autorizadas que podem revelar novas jazidas e 348 pedidos de pesquisa em análise, sinalizando um pipeline volumoso, mas ainda sem tradução em produção efetiva.
Na prática, apenas a Serra Verde Mineração, em Minaçu (GO), opera comercialmente com terras raras no Brasil, em fase de ramp-up, com meta de alcançar 5 mil toneladas anuais de óxidos destinados principalmente à indústria de ímãs de alta eficiência.
Todo o restante do portfólio nacional ainda está entre etapas de pesquisa, licenciamento e estruturação financeira.
Projetos australianos em Minas Gerais aceleram a disputa
Enquanto a produção nacional engatinha, dois empreendimentos com capital australiano em Minas Gerais avançam e ajudam a colocar o Brasil no radar da corrida global.
Em Poços de Caldas (MG), o Projeto Caldeira, da Meteoric, inaugurou neste mês uma planta-piloto voltada a testar o processo industrial, gerar dados operacionais e produzir amostras.
Com capacidade para processar 25 quilos de argila iônica por hora, a planta concentra todas as etapas para transformar o minério em carbonato misto de terras raras: lixiviação, remoção de impurezas, precipitação e filtração.
O investimento é de 1,5 milhão de dólares australianos (cerca de R$ 5,5 milhões), com meta de produzir 455 quilos de carbonato por ano, volume modesto, mas estratégico para validar o modelo.
Na mesma região, a Viridis Mining & Minerals toca o Projeto Colossus e já se habilitou a receber recursos do BNDES e da Finep, em uma linha que dispõe de até R$ 5 bilhões.
A companhia também obteve carta de interesse de até US$ 100 milhões de uma agência de crédito à exportação do Canadá para apoiar a fase de execução, mostrando como o capital internacional enxerga as terras raras brasileiras como ativo de longo prazo.
Exportar minério bruto ou criar cadeia de refino bilionária
O avanço desses projetos reacende um dilema conhecido da política mineral brasileira: repetir o papel histórico de exportador de matéria-prima bruta ou investir pesado para processar o minério internamente e vender produtos com maior valor agregado.
Para parte dos especialistas, o País está novamente diante dessa encruzilhada, agora com as terras raras no centro.
Outra ala defende que a escolha precisa ser menos ideológica e mais pragmática. A tecnologia de refino de terras raras é hoje dominada pela China, o que encarece e alonga qualquer plano de construir uma cadeia completa de processamento no Brasil.
Como o ciclo típico de um grande empreendimento mineral leva de 10 a 15 anos e enfrenta licenciamento ambiental complexo, há quem argumente que a prioridade inicial deve ser viabilizar extração competitiva, enquanto se decide até onde o País quer avançar no refino.
Pressão geopolítica de Estados Unidos e China sobre as reservas brasileiras
As sondagens recentes dos americanos sobre o “tesouro” enterrado em território brasileiro têm um pano de fundo claro: garantir acesso estável a terras raras para sustentar avanços tecnológicos, a transição energética e aplicações militares e de defesa.
Antes de voltar os olhos para o Brasil, os Estados Unidos buscaram entendimentos com a própria China, que domina a cadeia de produção e processamento.
Hoje, a China responde por 70% da produção global e 85% da capacidade de refino de terras raras, o que lhe garante enorme influência sobre indústrias de alta tecnologia, energia limpa, carros elétricos e sistemas de defesa.
Nesse contexto, a União Europeia, o Japão e a Austrália também procuram diversificar fornecedores. É nesse tabuleiro geopolítico que o Brasil, dono de grandes jazidas ainda subaproveitadas, entra no jogo.
Segunda maior reserva do mundo, pouca oferta ao mercado
O Brasil detém a segunda maior reserva de terras raras do planeta, com depósitos relevantes em Minas Gerais, Goiás e na Amazônia, entre outras regiões.
Mesmo assim, a produção nacional é considerada incipiente, limitada por falta de tecnologia própria de refino, gargalos logísticos e incertezas regulatórias que afastam parte dos investidores.
O processamento de terras raras exige uma cadeia sofisticada, que vai do beneficiamento físico à purificação química em múltiplas etapas, muitas vezes com uso intensivo de ácidos, até chegar aos óxidos de terras raras comercializados no mercado internacional.
Hoje, a China domina todos os elos dessa cadeia, desde a mineração até a fabricação de componentes de alto valor agregado, como ímãs permanentes e ligas especiais.
Tecnologia, urgência e o relógio da transição energética
Para Patrícia Muricy, sócia-líder da Indústria de Mineração da Deloitte, não basta ao Brasil investir capital, é preciso dominar a tecnologia de refino.
Ela destaca que os movimentos feitos agora só vão se materializar em escala daqui a cerca de 15 anos, justamente quando a transição energética deve estar ainda mais avançada.
Sem decisões firmes no presente, o País corre o risco de chegar atrasado a esse mercado.
Patrícia também chama atenção para um problema de base: “não temos nem as reservas totalmente identificadas ainda”, o que exige forte investimento em exploração geológica, uma atividade cara e incerta.
Sem esse conhecimento, fica mais difícil desenhar uma política industrial consistente para terras raras, seja para exportação de concentrados, seja para instalação de plantas químicas de maior complexidade.
“Ninguém vai dar tecnologia de graça ao País”
O entusiasmo com a ideia de desenvolver uma cadeia completa de terras raras no Brasil enfrenta obstáculos adicionais.
Mateus Figueiredo, sócio da KPMG, lembra que, embora a tecnologia de transformação das terras raras em insumos eletroeletrônicos não seja nova, o Brasil nunca foi produtor relevante e ainda não domina os processos críticos.
A avaliação dele é direta: “Ninguém vai dar tecnologia de graça ao País.”
Por isso, Figueiredo defende que, enquanto se debate uma estratégia de longo prazo, o Brasil deveria priorizar a arrancada da extração, aproveitando estruturas já existentes para gerar caixa e reduzir riscos, sem abandonar a ambição de subir na cadeia de valor à medida que a base tecnológica amadurecer.
Ibram pede equilíbrio e lembra lição do minério de ferro
O Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), que representa as grandes mineradoras, adota uma posição intermediária. Segundo Julio Nery, diretor de Sustentabilidade e Assuntos Regulatórios, o ideal é avançar na cadeia de valor das terras raras sem perder oportunidades imediatas de exportação.
Ele ressalta que é preciso estudar caso a caso onde é possível agregar valor sem comprometer a rentabilidade dos projetos.
Nery cita como exemplo o minério de ferro: se o Brasil tentasse processar todo o volume produzido, poderia perder cerca de 30% do saldo da balança comercial, dado o impacto sobre custos e competitividade.
No caso das terras raras, o desafio é ainda maior, porque o baixo custo chinês funciona como barreira de entrada, somado à carência de investimentos em infraestrutura e ao quadro fiscal apertado, que limita a capacidade de o Estado financiar grandes projetos industriais.
Investimentos previstos em terras raras até 2029
Mesmo com as incertezas, as terras raras já começam a aparecer nos planos de investimento do setor mineral.
De acordo com o Ibram, o segmento responde por 3,2% dos investimentos previstos para a mineração no Brasil entre 2025 e 2029, o equivalente a US$ 2,2 bilhões destinados a projetos em diferentes etapas, da exploração à implantação de plantas industriais.
Esses recursos, somados às iniciativas privadas e à disputa geopolítica, indicam que o Brasil dificilmente ficará fora do mapa global das terras raras.
Na sua opinião, o Brasil deve focar em exportar rapidamente o minério de terras raras ou assumir o risco de investir pesado em uma cadeia completa de refino e tecnologia dentro do País?
tem que ir exportando, mas buscar agregar valor aqui dentro.Temos universiades e tecnico para alavancar isso
é só investir na pesquisa, pode-se pedir uma ajuda tecnologica a china em troca de um pouco do mineral
O potencial das reservas de terras raras, lítio e nióbio, conforme recentes volumes de requerimentos de pesquisa na ANM, principalmente nos Estados de MG e Bahia, começa a despertar o que representa em termos econômicos e desenvolvimento regional, pois ainda não enxergamos como a extração ou refino irão impactar as regiões exploradas.
O Brasil tem que investir em Tecnologia Tem que desenvolver pessoas e qualifica-las para isto Tem que investir na formação de quadros com excelência. Selecione os potenciais superiores e invistam neles, paguem para fazer curso e estágio em lugares com Tecnologia avançada, É preciso começar buscando know how onde já existe .Vão aprender lá. É preciso ambição e querer! Já não dá para aceitar que falta dinheiro.