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Crise demográfica na China: taxa de natalidade em queda e efeitos da política do filho único

Escrito por Sara Aquino
Publicado el 24/02/2026 a las 10:30
Actualizado el 24/02/2026 a las 10:32
Com taxa de natalidade recorde de baixa, China enfrenta crise demográfica, envelhecimento populacional e impactos da política do filho único.
Foto: IA
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Com taxa de natalidade recorde de baixa, China enfrenta crise demográfica, envelhecimento populacional e impactos da política do filho único.

A China enfrenta uma crise demográfica sem precedentes, marcada pela queda histórica da taxa de natalidade, aumento do envelhecimento populacional e impactos duradouros da política do filho único.

Os dados foram divulgados em janeiro pelo Escritório Nacional de Estatísticas e acenderam um alerta em Pequim.

O fenômeno ocorre em todo o território chinês e reflete mudanças sociais, econômicas e culturais acumuladas nas últimas décadas. 

Em 2025, o país registrou apenas 7,92 milhões de nascimentos.

A taxa caiu para 5,63 nascimentos por mil habitantes, o nível mais baixo desde 1949.

Além disso, as mortes superaram os nascimentos pelo quarto ano consecutivo, reduzindo a população em cerca de 3,4 milhões de pessoas no último ano. 

Especialistas das Nações Unidas projetam que a população chinesa poderá encolher pela metade até o fim do século.

O cenário contrasta com previsões feitas há duas décadas, quando se estimava crescimento contínuo até 2033. 

Taxa de natalidade em queda e o erro nas projeções 

Durante anos, planejadores chineses acreditaram que a baixa taxa de natalidade seria temporária.

A expectativa era que, após o relaxamento das restrições, as famílias voltassem a ter mais filhos. 

Um relatório estratégico publicado em 2007 defendia que a natalidade tinha forte “potencial de recuperação”.

Por isso, recomendava cautela na flexibilização das regras, mesmo diante da redução dos nascimentos. 

No entanto, a realidade foi diferente.

A liberação para dois filhos, em 2016, e depois para três, em 2021, não provocou o esperado “baby boom”. Pelo contrário, a crise demográfica se aprofundou. 

Política do filho único e seus efeitos duradouros 

Criada em 1979, durante o governo de Deng Xiaoping, a política do filho único tinha como objetivo conter o crescimento populacional e impulsionar o desenvolvimento econômico.

A medida oferecia incentivos para quem obedecesse às regras e punições para quem descumprisse. 

Segundo estimativas oficiais, cerca de 400 milhões de nascimentos teriam sido evitados.

Embora o número seja contestado, é inegável que a política alterou profundamente a estrutura etária do país. 

Com o passar do tempo, surgiu outro desafio: o envelhecimento populacional.

Menos jovens passaram a sustentar uma população idosa crescente, pressionando o sistema previdenciário e o mercado de trabalho. 

“Declínio constante”: mudança social além da política do filho único 

Para o professor Kerry Brown, diretor do Instituto Lau China do King’s College de Londres, o declínio começou antes mesmo da política restritiva. 

«A taxa de fertilidade da China vinha caindo por razões naturais desde o início dos anos 1970», declarou ele à BBC. «O pico do crescimento populacional, em termos de filhos por família, ocorreu nos anos 1950 e 1960.» 

Segundo Brown, fatores econômicos pesaram mais que as regras governamentais.

«Acho que o partido pode não ter realmente entendido as dificuldades econômicas enfrentadas pelas famílias para criar seus filhos e como é prioritário para elas decidir se conseguirão fazer isso bem ou se não terão filhos.» 

Ele acrescenta: «Temos observado essas mudanças em todo o mundo, mas, na China, aconteceu com muita rapidez.» 

Desequilíbrio de gênero e a “crise de solteiros” 

Outro legado marcante da política do filho único foi o desequilíbrio de gênero.

Durante décadas, muitas famílias priorizaram filhos homens, o que distorceu a proporção entre homens e mulheres. 

O resultado foi uma chamada “crise de solteiros”, com milhões de homens enfrentando dificuldades para encontrar parceiras. Brown descreve o fenômeno: «Isso gerou um fenômeno chamado de ‘homens dos galhos vazios’, uma metáfora para designar homens incapazes de encontrar parceiras.» 

Ele explica que a expressão remete à ideia de galhos que não dão frutos — ou seja, não geram filhos.

Ao mesmo tempo, mulheres com ensino superior passaram a adiar ou evitar o casamento. 

A imprensa estatal chegou a usar o termo pejorativo shèngnǚ, que significa “solteirona”. «É uma expressão muito pejorativa, uma referência a mulheres discriminadas devido à sua idade, que não se casaram porque deram mais importância à carreira do que ao casamento e sua estabilização», afirma o professor. 

Em 2023, 43% das chinesas entre 25 e 29 anos estavam solteiras, o que também contribui para a queda da taxa de natalidade

Incentivos financeiros não freiam a crise demográfica 

Diante da crise demográfica, o governo lançou incentivos financeiros.

Um deles oferece 3,6 mil yuans por ano para cada criança com menos de três anos. 

Ainda assim, muitos jovens afirmam que o custo de vida é alto demais.

Creches caras, moradia elevada e pressão profissional dificultam a decisão de ter mais filhos. 

Millie, controladora de tráfego aéreo em Pequim, relatou à BBC: «Definitivamente, não terei outro filho. Não é bom para o meu corpo, será difícil conseguir creche e ninguém irá me ajudar.» 

Já Li Hongfei, empresário em Chongqing, resume o dilema financeiro: «Meu trabalho vem diminuindo, mas o custo de manutenção da empresa permanece o mesmo. As mensalidades da minha filha estão subindo e minhas economias estão acabando.» 

Envelhecimento populacional e impactos globais 

Com cerca de um filho por mulher, a China está muito abaixo da taxa de reposição populacional de 2,1.

Isso acelera o envelhecimento populacional e reduz a força de trabalho. 

A consequência vai além das fronteiras chinesas.

A diminuição da população pode afetar cadeias produtivas globais e pressionar preços internacionais. 

«Em quase toda a região, a população está caindo e envelhecendo», explica Brown.

«O fenômeno é mais crítico em locais como o Japão e Taiwan, mas a escala da mudança na China certamente é a maior.» 

Ele alerta ainda: «Em relação à assistência social e outras formas de enfrentar o envelhecimento populacional e oferecer assistência aos idosos, a China ainda não atingiu os níveis de riqueza necessários.» 

Apesar do cenário desafiador, Brown demonstra cautela. «Eles provavelmente tentarão usar a tecnologia e detêm todo tipo de alavancas políticas para enfrentar estas questões», afirma.

«Acho que as pessoas costumam ter ideias pessimistas sobre a capacidade da China de fazer as coisas. Mas, no fim, eles acabam encontrando uma solução.» 

Assim, a crise demográfica chinesa não é apenas um problema estatístico.

Trata-se de uma transformação estrutural que redefine o futuro do país — e pode redesenhar o equilíbrio econômico global nas próximas décadas. 

Veja mais em: China: o ‘baby boom’ que nunca veio e a contínua queda da natalidade no país – BBC News Brasil

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Sara Aquino

Farmacêutica e Redatora. Escrevo sobre Empregos, Geopolítica, Economia, Ciência, Tecnologia e Energia.

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