Com fábricas fechadas nos EUA, Tyson e JBS enfrentam rebanho no menor nível em 75 anos, seca, tarifa de 50 por cento de Trump sobre carne do Brasil, bloqueio ao gado mexicano e espaço crescente para exportadores brasileiros e argentinos, com hambúrguer mais caro e consumidor pressionado em cadeia inteira.
A crise histórica de boi nos EUA já fechou fábricas da Tyson e da JBS, encareceu a carne moída e deixou o hambúrguer mais caro em um mercado que consome cerca de 80 por cento dessa proteína em sanduíches. Com rebanho bovino no menor nível em 75 anos, frigoríficos e consumidores enfrentam um aperto inédito na principal economia do mundo.
Na sexta feira, 12, a JBS Foods, filial da brasileira JBS nos EUA, anunciou o fechamento definitivo de uma unidade perto de Los Angeles, enquanto a Tyson já havia encerrado uma planta em Nebraska. A crise se agravou desde 2019, quando o rebanho de corte começou a encolher, passou por 2021, ano em que os EUA tinham 92,6 milhões de cabeças, e inclui decisões como a suspensão das importações de gado mexicano em maio e o fim, no final de novembro, da tarifa adicional de 50 por cento sobre a carne brasileira.
Fábricas fechadas expõem a crise de boi nos EUA
O movimento mais visível dessa crise nos EUA é o fechamento de unidades industriais. Primeiro, a Tyson Foods, gigante americana de processamento de carne, anunciou o encerramento de uma fábrica em Nebraska.
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Depois, na sexta feira, 12, foi a vez da JBS Foods confirmar o fechamento permanente de uma unidade na região de Los Angeles.
No caso da JBS, não se trata de um frigorífico de abate, e sim de uma planta voltada à produção de itens alimentícios prontos para o varejo, com múltiplas proteínas.
A empresa justifica a decisão como parte de uma estratégia para otimizar negócios de maior valor agregado e simplificar operações em toda a rede nos EUA, num ambiente de custos mais altos e oferta menor de animais.
Esses fechamentos, embora pontuais, simbolizam como a crise de boi nos EUA está forçando grandes grupos globais a ajustar seu footprint industrial, cortando unidades menos estratégicas e se concentrando em plantas mais eficientes.
Rebanho dos EUA encolhe e produção cai até 2026
A indústria de carne dos EUA atravessa uma contração do ciclo pecuário, marcada pela redução agressiva do rebanho e da oferta de animais em confinamentos.
O rebanho bovino americano está no menor nível em 75 anos, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA.
A produção de carne bovina deve cair 4 por cento em 2025 e mais 2 por cento em 2026. Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte recuou para 27,9 milhões, uma queda de 13 por cento, enquanto o inventário total de bovinos está no menor patamar desde 1952.
A retração se intensificou nos últimos anos: em 2021, os EUA tinham 92,6 milhões de cabeças e, hoje, são 86,6 milhões.
Especialistas lembram que esse ajuste não se resolve rapidamente. Como destaca o analista Fernando Iglesias, da Safras & Mercado, é preciso de dois a três anos para levar um bezerro até o abate, o que prolonga a fase de oferta apertada e mantém o mercado dos EUA sob pressão por mais tempo.
Preços da carne disparam e hambúrguer fica mais caro nos EUA
O efeito imediato dessa combinação de oferta restrita e custos altos é o encarecimento da proteína.
A carne moída, principal insumo para hambúrgueres, acumula alta de 14 por cento no ano, de acordo com o Bureau of Labor Statistics.
Cerca de 80 por cento da carne moída consumida no país vai diretamente para a produção de hambúrgueres.
Com menos boi disponível e custos crescentes, a indústria de fast food e redes de supermercados dos EUA sente o impacto na margem e repassa parte da conta ao consumidor.
O hambúrguer, ícone da alimentação americana, ficou mais caro, reduzindo promoções agressivas e elevando o tíquete médio de lanchonetes e restaurantes.
Para o consumidor dos EUA, a crise de boi aparece na gôndola e no drive thru.
Preços mais altos de carne moída, porções menores e cardápios reajustados são alguns dos sintomas dessa pressão que começa na fazenda e termina no caixa.
Seca, tarifa de Trump e bloqueio ao gado mexicano agravam o cenário
A crise de boi nos EUA não se explica apenas pela dinâmica de ciclo do rebanho. A seca no oeste do país elevou o custo da ração, reduziu pastagens e obrigou muitos pecuaristas a encolher seus rebanhos mais rápido do que gostariam.
Menos pasto e comida significam menos animais sendo mantidos até a terminação.
Além disso, a tarifa de 50 por cento imposta por Donald Trump sobre produtos brasileiros, incluindo carne bovina, encareceu as importações e elevou ainda mais o preço interno nos EUA, que compravam proteína do Brasil.
Ao mesmo tempo, os Estados Unidos suspenderam, em maio, as importações de gado do México para conter a disseminação da doença New World Screwworm, conhecida como bicheira do Novo Mundo, uma praga cujas larvas podem matar os animais e, em casos raros, atingir aves e seres humanos.
Esse gado mexicano era tradicionalmente enviado aos EUA para engorda em confinamentos e posterior abate em frigoríficos americanos, um fluxo que agora está interrompido.
Com menos boi vindo de fora e menos boi sendo produzido dentro dos EUA, a disputa pelo animal pronto para abate fica ainda mais acirrada, pressionando frigoríficos e elevando a conta da carne para o consumidor final.
Janela para Brasil e Argentina ampliar espaço no mercado dos EUA
Mesmo em meio à crise, os EUA seguem como mercado estratégico para exportadores de carne bovina.
Entre janeiro e novembro, as exportações de proteína bovina brasileira para os EUA somaram 244,5 mil toneladas, alta de 109 por cento em relação ao mesmo período de 2024, segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Carne.
Na tentativa de conter os preços internos, Trump anunciou, no final de novembro, o fim da sobretaxa sobre a carne brasileira.
A expectativa da Abiec é que os embarques acelerem em dezembro e se aproximem de 35 mil toneladas, reforçando o papel do Brasil como fornecedor relevante num momento em que o rebanho americano encolhe.
Do lado da indústria, cerca de 50 frigoríficos brasileiros habilitados para o mercado americano já voltaram a receber pedidos e retomaram a produção de cortes específicos para os EUA.
Em paralelo, Trump elevou de 80 mil para 200 mil toneladas o volume de carne bovina importada da Argentina, abrindo mais espaço para outro grande competidor do Brasil no mercado de proteína.
Para os exportadores brasileiros e argentinos, a combinação de crise de boi nos EUA, fim da tarifa extra sobre a carne do Brasil e aumento da cota para a Argentina representa uma janela de oportunidade.
Para os consumidores americanos, porém, o alívio nos preços deve ser gradual, já que a recomposição do rebanho e o equilíbrio da oferta levarão anos.
E você, acha que os EUA vão usar essa crise para mudar o jeito de produzir e consumir carne bovina ou tudo volta ao normal assim que o rebanho se recompor?
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