Do avanço na Amazônia nas décadas de 1970 e 1980 à pressão por sustentabilidade, o rei do gado virou referência em escala, eficiência e na defesa de controle individual do rebanho
O rei do gado ficou conhecido por uma marca difícil de ignorar: ultrapassar 200 mil cabeças e erguer um império pecuário no meio da Amazônia, num período em que a região era isolada, com infraestrutura precária e pouca presença do Estado.
A pergunta que atravessa a história é direta: como está o rei do gado hoje e por que ele voltou ao centro do debate ao defender rastreabilidade total, com identificação eletrônica e foco em eficiência nas áreas já abertas?
A aposta no desconhecido no sul do Pará
Para entender o rei do gado no presente, é preciso voltar ao começo. Roque Quagliato tinha 33 anos quando decidiu deixar Ourinhos, no interior de São Paulo, onde a família atuava no setor sucroalcooleiro, e apostar no sul do Pará.
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O destino foi a região de Sapucaia, próxima a Xinguara, a cerca de 600 km de Belém. Era o tipo de decisão que muita gente chamava de loucura, mas o preço da terra no Pará era descrito como bem mais baixo do que em estados como Goiás, Minas Gerais e Mato Grosso, o que pesava para quem queria crescer em escala.
Terra barata, área grande e um projeto para décadas
O rei do gado entrou num contexto em que a formação de pastagens e a ocupação produtiva da Amazônia eram estimuladas.
Ele chegou a relatar que subiu o rio Araguaia de barco para conhecer terras à venda, e depois comprou áreas extensas para iniciar a transformação da propriedade.
Ao longo de cerca de três décadas, Roque e os irmãos Fernando, Francisco e Luiz estruturaram o grupo da família. O rebanho ultrapassou 200 mil cabeças, com cerca de 150 mil concentradas em fazendas no sul do Pará, e as propriedades na região amazônica somavam em torno de 85 mil hectares.
A escala não veio só de “ter terra”, veio de sustentar uma operação grande por muitos anos, num ambiente em que quase tudo precisava ser criado do zero.
Uma fazenda que funcionava como cidade
O tamanho do projeto exigiu infraestrutura interna. Nas fazendas, foram construídos alojamentos, ambulatórios, consultórios odontológicos, oficinas, marcenaria e até escola de ensino fundamental para filhos de funcionários.
Esse detalhe ajuda a entender por que o rei do gado virou símbolo de uma era: não era apenas boi no pasto, era uma estrutura completa para manter gente, serviços e rotina de produção dentro da propriedade.
Eficiência, genética e números que chamaram atenção
Além da escala, o rei do gado investiu em melhoramento genético e manejo. A história cita adesão a programas de seleção de touros, uso de inseminação artificial e controle rigoroso de dados zootécnicos.
Nesse modelo, aparecem marcas de desempenho que reforçaram a fama do grupo: índice de natalidade do rebanho próximo de 90%, acima de uma média tradicional mencionada em torno de 60%.
Também há comparação sobre precocidade de abate: enquanto em muitas fazendas o boi era abatido com 4 anos e cerca de 16 arrobas, no sistema do grupo o animal chegava próximo de 19 arrobas com cerca de 3 anos.
Eficiência aqui significa produzir mais com o mesmo tempo e com melhor controle, algo que se conecta diretamente ao discurso mais recente sobre tecnologia e rastreabilidade.
Amazônia, críticas e a mudança no tom
Com o crescimento e a visibilidade, o rei do gado também passou a ser citado em discussões sobre desmatamento histórico, num momento em que a pressão internacional sobre a Amazônia aumentou.
Em entrevistas mais recentes, ele defendeu que o contexto anterior era diferente, com incentivo governamental e legislação ambiental de outra época, e afirmou que hoje a realidade mudou, com responsabilização de quem desmata ilegalmente.
O ponto central dessa virada é reconhecer que as regras do jogo mudaram, e que mercado e reputação passaram a pesar tanto quanto produção.
Rastreabilidade total: o boi com chip e a nova lógica
A fase mais recente da história se concentra no que o rei do gado passou a defender: rastreabilidade total do rebanho. Ele aparece como um dos primeiros grandes pecuaristas do Pará a implantar identificação eletrônica individual, com chip por animal, permitindo acompanhar origem, movimentação e histórico sanitário.
A ideia atende exigências de mercados que cobram comprovação de origem e pressão por carne associada a cadeias mais transparentes.
Aqui entra uma mudança de foco que o próprio texto enfatiza: em vez de expandir abrindo novas áreas, o caminho é intensificar a produção nas áreas já abertas, elevando eficiência com manejo, correção de solo e tecnologia.
A referência citada é que, em pastagens de baixa produtividade, seria possível multiplicar por quatro a quantidade de cabeças por hectare com manejo adequado.
A família segue no jogo e a marca continua forte
Mesmo com idade avançada, o rei do gado é descrito como ativo em decisões estratégicas, discreto no estilo e muito dedicado ao trabalho, acompanhando de perto a gestão das propriedades.
Enquanto isso, a nova geração também aparece ampliando negócios. O texto menciona Kiko Gualato, ligado à marca 20@, com compras grandes em leilões, e um grupo com sete fazendas no norte de Goiás, somando áreas próprias e arrendadas, além de um rebanho em torno de 40 mil cabeças em sistema de recria e engorda, combinando pasto e confinamento.
O recado é claro: o sobrenome segue relevante na pecuária, ainda que o setor hoje tenha mais grupos empresariais e estruturas corporativas.
O que significa ser rei do gado hoje
Quando a pergunta volta, “ele ainda é o maior pecuarista do Brasil?”, a resposta fica menos simples do que no passado. O setor se profissionalizou, surgiram holdings e investidores com volumes expressivos, e comparar tamanho puro virou um exercício mais difícil.
Ainda assim, o rei do gado permanece como referência quando o assunto é trajetória individual, pioneirismo no sul do Pará e impacto histórico na pecuária brasileira.
Ele atravessa fases muito diferentes do agro, da ocupação incentivada da Amazônia à era da rastreabilidade digital e da pressão internacional por sustentabilidade.
E para você: o rei do gado se reinventa mesmo com rastreabilidade total e chip, ou essa fase já mudou o jogo a ponto de ninguém mandar sozinho?

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