Mudança silenciosa virou ruptura: o fim da “manifestação de interesse” e a virada na política migratória portuguesa
Durante anos, Portugal foi visto como o destino europeu mais acessível para brasileiros que buscavam recomeçar a vida fora do país. Entretanto, nos últimos meses, esse cenário mudou de forma abrupta. O que antes era sinônimo de acolhimento, oportunidades e facilidade documental passou a ser associado a medo, incerteza, burocracia e custo de vida elevado. Como resultado, um movimento inesperado começou a ganhar força: brasileiros estão deixando Portugal e, em muitos casos, retornando ao Brasil ou migrando para outros países europeus.
A informação foi divulgada por veículos como BBC Brasil, CNN Portugal e relatórios oficiais do governo português, que passaram a registrar um volume crescente de notificações de abandono voluntário e processos de expulsão. Essa virada não aconteceu por acaso. Ela é consequência direta de uma decisão tomada em 2024, quando o novo governo português decidiu encerrar um dos pilares da imigração no país: a chamada manifestação de interesse.
Esse mecanismo permitia que qualquer pessoa que chegasse a Portugal, começasse a trabalhar e comprovasse vínculo laboral solicitasse residência após determinado período. Por muitos anos, foi essa porta aberta que transformou o país em um dos regimes migratórios mais flexíveis da Europa. Como efeito direto, o número de estrangeiros residentes triplicou em uma década, atraindo pessoas não apenas do Brasil, mas também da Ásia e da África.
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O ministro António Leitão Amaro descreveu esse fenômeno como “a maior mudança demográfica da história democrática de Portugal”. Segundo dados oficiais, cerca de 1,5 milhão de estrangeiros vivem hoje no país, o equivalente a 14% da população total. Desse contingente, mais de 500 mil são brasileiros, consolidando o Brasil como a principal nacionalidade estrangeira em território português.
Contudo, ao mesmo tempo em que a imigração cresceu, aumentaram também as pressões sobre serviços públicos, como escolas, hospitais e o mercado imobiliário. O próprio governo passou a afirmar que o sistema gerava desorganização, lentidão e funcionava como uma “política de portas escancaradas”. Conforme declarou um ministro, “quadruplicou o número de imigrantes estrangeiros em Portugal, assim como o número de alunos estrangeiros nas escolas públicas, a procura por cuidados de saúde primária e os contribuintes estrangeiros para a segurança social”.
Foi nesse contexto que, em 3 de junho de 2024, a manifestação de interesse foi oficialmente encerrada. O novo governo, liderado por Luís Montenegro, estabeleceu uma regra simples e decisiva: só pode imigrar quem já tiver um contrato de trabalho antes de chegar ao país. A consequência foi imediata e profunda.
Uma força-tarefa revisou processos antigos que estavam parados. Como resultado, 34 mil pedidos de residência foram negados, sendo 5.386 de brasileiros. Essas pessoas passaram a receber notificações oficiais concedendo 20 dias para saída voluntária de Portugal.
Expulsões, polícia migratória e medo: brasileiros vivem nova fase de fiscalização e insegurança
Segundo relatório da Aima – Agência para a Integração, Migrações e Asilo, divulgado em 2023, 52,4% das Notificações de Abandono Voluntário emitidas em Portugal têm como destino brasileiros. Além disso, há um programa específico de Retorno Voluntário, financiado pela União Europeia, que cobre passagens e oferece apoio inicial no Brasil. De acordo com dados oficiais, mais de 80% dos beneficiários desse programa são brasileiros.
Caso a saída voluntária não ocorra, o Estado pode recorrer à retirada coercitiva, utilizando forças de segurança. Para reforçar esse controle, o governo criou, em julho de 2025, a UNEF – Unidade Nacional de Estrangeiros e Fronteiras. Trata-se de uma nova polícia, ligada à Polícia de Segurança Pública, que começou suas operações com 1.200 agentes e poder legal para deter pessoas em situação migratória irregular.
Diante desse novo cenário, o próprio Consulado do Brasil em Lisboa publicou alertas oficiais. A recomendação é clara: brasileiros devem portar sempre documentos válidos e comprovar vínculo com o país, como contrato de trabalho, comprovante de residência ou contribuições à segurança social, para evitar problemas durante fiscalizações.
Entre os defensores da nova lei está o ex-parlamentar português Miguel Helvas, que afirmou à CNN Portugal: “Esta não é uma lei anti-imigração, mas uma lei que permite controlar e condicionar. Os governos anteriores permitiram uma política de bar aberto, e agora precisamos de uma política de controle”.
Entretanto, enquanto o discurso oficial fala em organização, milhares de famílias brasileiras vivem sob tensão constante. Há relatos de mães notificadas para deixar o país enquanto o marido, com autorização de residência, pode permanecer. O advogado Diego Bove, que atua em Lisboa, relatou à imprensa casos de casais vivendo sob medo permanente. Segundo ele, “são pessoas com a vida estabelecida, ganhando pouco, e ser mandado embora neste momento pode pesar na balança da vida”.
Associações de apoio a imigrantes acusam o governo de espalhar medo. Timóteo Macedo, presidente da ONG Solidariedade Imigrante, chegou a definir o país como “uma prisão a céu aberto”. Paralelamente, relatos de xenofobia se multiplicam, com brasileiros denunciando agressões verbais e discriminação no ambiente de trabalho.
Ainda assim, o fenômeno não se limita às expulsões. Mesmo brasileiros em situação legal estão optando por sair espontaneamente. E o motivo principal vai além das regras migratórias.
Custo de vida explode, salários não acompanham e até portugueses estão deixando o país

Portugal continua bonito, mas viver no país nunca foi tão caro. Em 2025, o custo de vida atingiu níveis inesperados até para os próprios portugueses. O aluguel médio chegou a 16,8 euros por metro quadrado, e em cidades como Lisboa e Porto, há imóveis que consomem entre 40% e 60% da renda familiar mensal.
O salário mínimo nacional, fixado em 870 euros, não acompanha a escalada de preços de alimentos, energia e habitação. A tradutora brasileira Lara Sheffer, de 30 anos, sentiu esse impacto diretamente. Em entrevista à BBC, ela contou que o aluguel do apartamento em Oeiras subiu de 935 para 1.250 euros em apenas dois anos. Com inflação de 2,8% e alimentos acumulando alta de 4%, o orçamento simplesmente deixou de fechar.
No início de 2025, a situação se agravou quando o euro caiu para US$ 1,01, atingindo paridade com o dólar e reduzindo o poder de compra dos europeus. Em setembro, a moeda voltou a se valorizar, chegando a US$ 1,18, enquanto o dólar caiu frente ao real, passando de R$ 6,18 em janeiro para cerca de R$ 5,40. Ainda assim, especialistas destacam que isso não representa fortalecimento do real, mas sim enfraquecimento do dólar.
Paralelamente, desde 2022, o turismo explodiu em Portugal. Milhares de imóveis residenciais foram convertidos em alojamentos de curto prazo, como Airbnbs. A entrada de fundos imobiliários estrangeiros e a criação de vistos para nômades digitais intensificaram ainda mais a disputa por moradia. Profissionais com salários elevados passaram a competir diretamente com brasileiros empregados em setores de baixa renda, como serviços, construção civil e comércio.
O professor João Alfredo Lopes Nyegray, da PUC-PR, define esse cenário como um “duplo estrangulamento”: mais procura e menos oferta. Segundo ele, “ainda que a permanência legal esteja assegurada, a permanência material e social torna-se inviável para parte relevante dessa comunidade”.
O bibliotecário Lucas Carrera, após sete anos em Lisboa, mudou-se para Barcelona. Ele relatou que seus gastos semanais com alimentação saltaram de 20 para 50 euros, enquanto a conta de luz variava entre 15 e 75 euros. Hoje, paga 630 euros por um estúdio no centro de Barcelona, um valor que considera “impossível” em Lisboa.
Casos semelhantes se repetem. Glauco Brandão, moderador de conteúdo, ganhava com o marido 1.600 euros e pagava 700 euros de aluguel. Sempre faltava dinheiro no fim do mês. O casal se mudou para Gent, na Bélgica, onde passou a ter mais renda e conforto.
O impacto também atinge os próprios portugueses. Em 2023, cerca de 70 mil cidadãos emigraram, o equivalente a 0,66% da população, uma taxa dez vezes maior do que a de brasileiros que deixaram Portugal no mesmo período. Segundo o Eurostat, os preços das casas mais que duplicaram em 15 anos, chegando a altas de até 300%, enquanto 20% da população deixou os centros históricos entre 2011 e 2021.
O geógrafo Luís Filipe Gonçalves Mendes, da Universidade de Lisboa, chama esse processo de “turbo-gentrificação”, que transforma cidades em vitrines turísticas e expulsa moradores. Como ele afirma, “uma cidade sem imigrantes já não é uma cidade”.
Portugal segue encantador, mas para muitos, o encanto já não compensa o preço.
Fonte: Elementar
Teria que dar a reciprocidade, se tivéssemos um governo que se preze.
Teríamos que tratar os portugueses que aqui desembarcaram para matar a fome, com a mesma discriminação que sempre nos trataram.
Lá, só nos tratam bem quando chegamos «com as burras cheias de dólares » 😡. E isso vem de berço, haja a vista o que crianças acabaram de fazer, decepando os dedos de um aluno brasileiro.