Entre compra, pressão política, acordos estratégicos e um cenário extremo, o caminho para controlar a Groenlândia esbarra em autodeterminação, Dinamarca e consequências globais.
Para controlar a Groenlândia, Donald Trump não depende de uma única cartada. Existe um leque de caminhos possíveis, alguns formais e negociados, outros indiretos e de longo prazo, e um cenário extremo que poucos consideram provável, mas que mudaria toda a relação entre EUA, Dinamarca e OTAN.
A Groenlândia é em grande parte autônoma, mas sua política externa e de segurança é conduzida a partir de Copenhague. É também descrita como rica em minerais e estrategicamente relevante, o que explica por que o tema volta à mesa, mesmo com resistência pública local e limites jurídicos claros.
A opção 1: comprar a ilha e transformar negociação em manchete
A ideia de “comprar a Groenlândia” não é nova. Os Estados Unidos já cogitaram fazer oferta em 1867, reconsideraram em 1910 e, em 1917, compraram da Dinamarca o que hoje são as Ilhas Virgens Americanas por US$ 25 milhões.
-
Trump anuncia bombardeio de alvos militares dos EUA na ilha iraniana, responsável por cerca de 90% das exportações de petróleo do Irã, e alerta que poderá atacar ainda mais caso haja ameaça à navegação no estratégico Estreito de Ormuz
-
Com menos de 40 km de largura, Estreito de Ormuz concentra 20% do petróleo mundial e vira epicentro de crise global após operação militar contra o Irã paralisar petroleiros e disparar preços da energia
-
Israel, armas nucleares e o plano chamado “Opção Sansão”: o que aconteceria se o país decidisse usar até 90 ogivas em uma guerra no Oriente Médio
-
“Não há onde se esconder em um navio.” Marinheiros presos perto do Irã relatam ataques, medo e falta de água e comida em uma crise que pressiona a região
Em 1946, o governo Truman fez uma oferta formal de US$ 100 milhões pela ilha, argumentando que o controle era indispensável para a segurança dos EUA.
O problema é que, para controlar a Groenlândia por compra direta, entra um bloqueio moderno: autodeterminação. Especialistas em direito e direito constitucional apontam que a era de comprar ou trocar territórios e seus povos “já passou”.
O princípio jurídico internacional torna uma venda direta praticamente impossível, e governos dinamarquês e groenlandês repetem desde 2019 que a ilha não está à venda.
A opção 2: conquistar a população com investimento e influência

Uma via mais lenta para controlar a Groenlândia é “ganhar” a opinião pública e criar dependência econômica e diplomática.
A base descreve esse movimento como uma campanha para conquistar simpatia, com investimento em desenvolvimento econômico e educacional e intensificação de laços diplomáticos.
Há sinais práticos dessa estratégia: o consulado dos EUA em Nuuk foi reaberto em 2020 e um enviado especial para a Groenlândia foi nomeado recentemente.
Do lado dinamarquês, existe a suspeita de táticas mais discretas, incluindo uma suposta campanha de influência para encorajar o movimento independentista.
A opção 3: independência primeiro e, depois, associação com os EUA
Aqui está um ponto central para entender como alguém poderia controlar a Groenlândia sem “comprar” nada: a lei de autogoverno de 2009 permite que os habitantes realizem um referendo sobre independência. Ou seja, o futuro do território, em tese, depende dos cerca de 57.000 habitantes da ilha.
Uma sondagem citada na base indica que 85% não querem que a Groenlândia se torne parte dos EUA e apenas 6% seriam a favor.
Ao mesmo tempo, outras leituras sugerem que promessas de investir bilhões podem ser vistas por parte da população como ameaça e por outra parte como oportunidade.
Em março, em visita a Nuuk, JD Vance disse esperar que groenlandeses independentes “optassem por se associar aos Estados Unidos”. Politicamente, isso abriria espaço para controlar a Groenlândia via acordo, não via anexação.
A opção 4: um acordo de associação livre com acesso militar amplo
Outra rota para controlar a Groenlândia é um “pacto de livre associação”, no modelo usado pelos EUA com pequenas nações do Pacífico Sul, como as Ilhas Marshall.
Nesse tipo de arranjo, o país menor mantém independência e recebe proteção de Washington, além de um acordo comercial potencialmente lucrativo, enquanto as forças armadas dos EUA operam com poucas restrições em território estratégico.
Muitos analistas consideram esse talvez o desfecho mais plausível no longo prazo, especialmente se houver um referendo de independência e, depois, negociação de um formato que combine autonomia com vantagem econômica.
A opção 5: ampliar o que os EUA já têm por tratado com a Dinamarca
Um detalhe que muda a leitura do debate é que os EUA já possuem acesso militar amplo. Um acordo EUA-Dinamarca de 1951 permite “construir, instalar, manter e operar” bases militares no território.
Atualizado em 2004 e incluindo o governo semiautônomo da Groenlândia, o tratado também permite alojar pessoal e controlar pousos, decolagens, ancoradouros, movimentos e operação de navios e aeronaves.
Copenhague sinaliza disposição para permitir expansão significativa da presença militar, hoje concentrada na base espacial de Pituffik, no norte, onde cerca de 500 militares estariam alocados.
Além disso, um acordo assinado em dezembro de 2023 e em vigor desde o ano passado concede aos EUA acesso irrestrito a bases aéreas dinamarquesas e permite atividades militares dentro e a partir da Dinamarca.
Na prática, isso significa que, para controlar a Groenlândia em termos estratégicos, Washington pode buscar mais acesso sem mudar bandeira.
O cenário extremo: invasão e o impacto que poderia abalar a OTAN
A Casa Branca afirmou que o uso das forças armadas americanas é “sempre uma opção”, mas poucos analistas veem isso como provável.
Ainda assim, o tema aparece porque a Groenlândia não tem exército territorial e o aparato dinamarquês em Nuuk é voltado a observação, com poucos meios. Em tese, analistas argumentam que a tomada de pontos-chave poderia ocorrer rapidamente.
Na prática, as barreiras seriam enormes. O clima é um obstáculo real, a Dinamarca intensificou presença militar e as consequências seriam imediatas.
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, afirmou que um ataque à Groenlândia, território coberto pela adesão da Dinamarca à OTAN, significaria o fim da aliança militar e comprometeria a segurança pós-Segunda Guerra Mundial.
Além de ilegalidade, analistas apontam que uma operação assim destruiria confiança de aliados e teria custo político e militar alto. Mesmo como hipótese, esse caminho existiria como a forma mais perigosa de tentar controlar a Groenlândia.
O que realmente define o jogo
No fim, o que separa retórica de realidade é a combinação de três travas: autodeterminação local, papel da Dinamarca e o custo internacional de qualquer passo fora das regras.
Por isso, as rotas mais plausíveis para controlar a Groenlândia tendem a passar por investimento, pressão diplomática e acordos, não por anexação direta.
Se você tivesse que apostar em uma única via para controlar a Groenlândia, qual parece mais realista: compra, acordo de associação livre, ou ampliar tratados militares já existentes?

-
-
2 pessoas reagiram a isso.