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Comunidade costeira no delta do Mekong, no Vietnã, instala barreiras de bambu de 1,6 m para frear o avanço do mar, acumular até 60 cm de sedimento em 10 meses e permitir a volta dos manguezais

Escrito por Noel Budeguer
Publicado el 22/01/2026 a las 12:17
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Em Nha Mat e Vinh Chau, comunidades do delta do Mekong instalaram cercas permeáveis de bambu com cerca de 1,6 m para reduzir ondas em torno de 40% e acumular 30 a 60 cm de sedimentos em 10 meses, criando base para o retorno dos manguezais e mais proteção costeira

Ao longo do delta do Mekong, no sul do Vietnã, comunidades costeiras convivem há décadas com um cenário difícil de segurar.

A combinação de elevação do nível do mar, ondas mais fortes e destruição de manguezais acelerou a erosão e a perda de florestas que protegiam diques e povoados.

Em vários pontos, o mar avançou sobre antigos campos e áreas de mangue, deixou o solo instável e tornou muito mais difícil o crescimento de novas árvores, mesmo com programas de plantio.

A apuração foi publicada por Frontiers in Marine Science, revista científica, que descreve a adoção de cercas e barreiras permeáveis de bambu em águas rasas para reduzir a energia das ondas e criar condições para o retorno dos manguezais.

Delta do Mekong perde costa há décadas com mar subindo, sedimento mudando e manguezal sumindo

O delta do Mekong é considerado uma das regiões mais vulneráveis do mundo à combinação de subida do nível do mar, subsidência do solo, tempestades e alteração do fluxo de sedimentos.

Com o tempo, isso reduziu a faixa de proteção natural e deixou o litoral mais exposto à ação das ondas e das marés.

Estudos apontam que cerca de metade dos manguezais da região foi perdida em poucas décadas, e em alguns trechos os diques ficaram diretamente expostos ao mar, aumentando o risco de rompimentos durante tempestades.

Esses dados aparecem em ScienceDirect, plataforma de publicações científicas, que reúne pesquisas sobre erosão costeira e perda de manguezais no Vietnã.

Plantio direto na água falha porque ondas arrancam mudas e o solo fica tempo demais inundado

Mudanças na sedimentação e na regeneração e recuperação de manguezais no local 4, na costa da província de Bac Lieu, após a instalação das cercas de bambu em formato de T. Fotos de maio de 2012 (superior esquerdo), setembro de 2012 (superior direito), dezembro de 2012 (inferior esquerdo) e setembro de 2013 (inferior direito)

O que parecia simples, plantar mangue e esperar crescer, na prática não funciona em áreas já muito erodidas.

O solo está rebaixado, o tempo de inundação é grande e as ondas derrubam as pequenas plantas antes que elas consigam criar raízes fortes.

Por isso, a estratégia precisou começar com outra etapa: reconstruir a planície costeira, elevando o terreno com sedimentos e reduzindo a energia das ondas.

As informações foram divulgadas por TU Delft, universidade e centro de pesquisa, ao explicar que a restauração depende de criar condições físicas adequadas antes do replantio.

Cercas de bambu em Nha Mat e Vinh Chau foram montadas no mar raso para quebrar a força das ondas

A solução testada em locais como Nha Mat, na cidade de Bac Lieu, e Vinh Chau, na província de Soc Trang, foi a instalação de cercas permeáveis feitas com estacas de bambu e feixes de galhos.

Essas cercas foram posicionadas em águas rasas, paralelas à costa ou em formatos em T.

O segredo é que elas não são paredes fechadas.

Elas deixam a água passar, mas quebram a força das ondas e reduzem a velocidade da corrente, criando um “ponto de calmaria” atrás da estrutura.

Com isso, o sedimento começa a se acumular onde antes era só erosão.

Medições em Nha Mat mostram redução de 40% nas ondas e ganho de 30 a 60 cm de sedimento em 10 meses

Um estudo de campo em Nha Mat mediu ondas na frente e atrás de cercas de bambu com cerca de 1,6 m de altura e múltiplas fileiras de estacas preenchidas com feixes de bambu.

Os números chamam atenção.

A altura significativa das ondas pode ser reduzida em torno de 40% em condições de mar raso, dependendo da profundidade da água e da geometria da cerca.

Em apenas 10 meses, o nível de sedimentos atrás das cercas aumentou aproximadamente 30 a 60 centímetros, elevando a planície costeira e criando um ambiente muito mais favorável para o retorno dos manguezais.

Os dados foram detalhados por Frontiers in Marine Science, revista científica, que publicou o estudo de campo com as medições.

Em Soc Trang, cercas em formato de T ajudaram a fechar lacunas erodidas entre áreas de mangue ainda vivas

Tipo de cercas de bambu no delta do Mekong. Cortesia de Hoang Tung Dao, 2016 (a) e Le Xuan Tuan, 2020 (b).

Além de Nha Mat, a técnica também foi aplicada em Soc Trang com cercas permeáveis em formato de T.

O objetivo era fechar lacunas erodidas entre cabeços de manguezal ainda intactos, algo que vinha deixando trechos vulneráveis ao avanço do mar.

Segundo ScienceDirect, plataforma de publicações científicas, essas barreiras diminuíram a energia das ondas, aumentaram a sedimentação e ajudaram a recuperar áreas que haviam sido completamente erodidas.

O resultado foi a reconstrução gradual de partes da planície costeira.

Manguezais voltam a funcionar como “escudo natural” e reduzem risco nos diques e na vida da comunidade

Com mais sedimento acumulado e ondas menos agressivas, o replantio de manguezais na faixa costeira passa a ter muito mais chance de dar certo.

E quando o mangue volta, ele não só ocupa espaço, ele protege.

As raízes complexas dissipam energia das ondas, estabilizam o solo e oferecem habitat para espécies importantes para a pesca local, como descreve cris.brighton.ac, repositório acadêmico universitário.

Relatos técnicos indicam que, quando as cercas foram bem dimensionadas e posicionadas, houve redução da erosão na base dos diques e das margens, com menor risco de colapsos em eventos extremos.

Além disso, o retorno gradual da fauna associada ao mangue pode favorecer a pesca artesanal.

Cerca de 7,1 km de barreiras foram instalados e a estratégia funciona melhor com ondas abaixo de 0,9 m

O custo baixo é um dos pontos que mais pesam a favor dessa solução.

Bambu e madeira local tendem a ser mais baratos do que estruturas rígidas, especialmente em costas de lama, onde obras pesadas podem ser difíceis e caras.

Estudos citam que aproximadamente 7,1 km de cercas permeáveis de bambu foram instalados em partes da costa leste do delta como solução temporária para reduzir ondas e favorecer sedimentação.

Essa informação aparece em cris.brighton.ac, repositório acadêmico universitário, que compila análises e dados sobre a região.

Outra observação importante é que a estratégia é especialmente eficaz em áreas com ondas moderadas, tipicamente abaixo de cerca de 0,9 m de altura, segundo ScienceDirect, plataforma de publicações científicas.

Ou seja, não é uma solução “mágica” para qualquer mar, mas pode ser decisiva no cenário certo.

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Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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