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Descoberta inédita no fundo do mar: a 1.300 metros de profundidade, campo hidrotermal revela combinação nunca vista de fontes quentes, gás metano e biodiversidade densa no Pacífico Ocidental

Escrito por Fabio Lucas Carvalho
Publicado el 09/01/2026 a las 16:36
Medindo a temperatura no fundo do mar: No campo hidrotermal recém-descoberto, líquido quente e gás frio borbulham do sedimento a poucos centímetros de distância. Crédito: ROV Kiel 6000 / GEOMAR
Medindo a temperatura no fundo do mar: No campo hidrotermal recém-descoberto, líquido quente e gás frio borbulham do sedimento a poucos centímetros de distância. Crédito: ROV Kiel 6000 / GEOMAR
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Localizado a cerca de 1.295 metros de profundidade no Pacífico Ocidental, próximo à Papua Nova Guiné, o campo hidrotermal Karambusel reúne, pela primeira vez registrada, fontes de fluidos quentes e infiltrações frias de metano no mesmo sistema geológico, revelando biodiversidade densa, vestígios de metais preciosos e riscos associados à atividade humana na região

Cientistas identificaram, em 2023, um campo hidrotermal único a cerca de 1.295 metros de profundidade no Pacífico Ocidental, próximo à ilha de Lihir, em Papua Nova Guiné, onde fluidos quentes e gases ricos em metano emergem juntos, criando condições geológicas e biológicas inéditas.

Descoberta inédita em águas profundas do Pacífico Ocidental

A descoberta ocorreu ao largo da costa da Papua Nova Guiné, na encosta do Monte Submarino Cônico, próximo à ilha de Lihir, a aproximadamente 1.300 metros abaixo da superfície. O local reúne dois processos normalmente separados no fundo do mar.

No campo identificado, fluidos hidrotermais quentes e ricos em minerais ascendem simultaneamente a grandes volumes de metano e outros hidrocarbonetos, que escapam de sedimentos próximos. Essa associação nunca havia sido documentada em nenhum outro ambiente oceânico conhecido.

Os resultados da pesquisa foram publicados recentemente na revista Scientific Reports, detalhando tanto a singularidade geológica quanto as implicações biológicas do achado registrado durante uma expedição científica internacional.

Expedição científica e o papel do ROV Kiel 6000

A identificação do campo ocorreu durante a expedição SONNE SO299 DYNAMET, realizada em 2023 para investigar vulcões submarinos do arquipélago Tabar–Lihir–Tanga–Feni. A missão teve como cientista-chefe o geólogo marinho Philipp Brandl, do Centro Helmholtz GEOMAR para Pesquisa Oceânica de Kiel.

Segundo Brandl, a equipe não esperava encontrar um campo hidrotermal naquela área, muito menos um sistema com características tão incomuns. Expedições anteriores haviam indicado apenas atividade hidrotermal limitada, sem revelar a complexidade observada agora.

A revelação só foi possível com o uso do veículo operado remotamente ROV Kiel 6000. Durante a primeira imersão do robô subaquático, as feições distintivas do campo hidrotermal, posteriormente batizado de Karambusel, tornaram-se visíveis, surpreendendo pesquisadores experientes que já haviam trabalhado ali.

Um sistema híbrido de fluidos quentes e gases frios

Fontes hidrotermais e emanações de metano costumam ocorrer em áreas distintas do fundo oceânico. No Monte Submarino Cônico, porém, esses dois sistemas compartilham o mesmo espaço, emergindo a poucos centímetros de distância um do outro.

A explicação está na geologia local. Espessas camadas de sedimentos ricos em matéria orgânica encontram-se sob a estrutura vulcânica do monte submarino. O magma ascendente aquece esses sedimentos, gerando metano e outros hidrocarbonetos.

Ao mesmo tempo, essa fonte de calor impulsiona fluidos carregados de minerais das camadas mais profundas, que sobem até o fundo do mar na forma de fontes hidrotermais. Ambos os fluidos seguem os mesmos canais subterrâneos, resultando na emrgência simultânea de água quente e gás frio.

Habitat híbrido e biodiversidade excepcional

A proximidade imediata entre fontes hidrotermais e infiltrações de metano cria um ambiente híbrido completamente novo. Esse cenário sustenta uma comunidade biológica extremamente diversa, diferente de qualquer outra já documentada em sistemas hidrotermais conhecidos.

Rochas do local estão cobertas por densos campos de mexilhões Bathymodiolus, caranguejos de águas profundas Shinkaia crosnieri, vermes tubícolas, camarões, anfípodes e grandes pepinos-do-mar de coloração roxa. Em algumas áreas, a fauna é tão abundante que a rocha subjacente não fica visível.

De acordo com Brandl, há forte confiança de que algumas das espécies observadas ainda não tenham sido descritas cientificamente. No entanto, os pesquisadores destacam que apenas uma expedição dedicada exclusivamente à biologia permitiria estudar completamente esse habitat singular.

Origem do nome Karambusel e participação local

Devido à grande abundância de mexilhões, os cientistas decidiram nomear o campo hidrotermal como Karambusel. A escolha foi feita em conjunto com o observador local Stanis Konabe, da Universidade de Papua Nova Guiné.

Na língua Tok Pisin, falada localmente, Karambusel significa “mexilhão”. O nome reflete uma das características mais marcantes do local e reconhece a participação de pesquisadores e observadores da própria região no processo científico.

Metano concentrado e vestígios de metais preciosos

A composição gasosa do campo de Karambusel é considerada incomum. O metano liberado apresenta concentrações superiores a 80%, ao mesmo tempo em que fluidos quentes ascendentes carregam minerais oriundos do magma subjacente.

Análises das rochas indicam a presença de metais como ouro e prata, além de elementos como arsênio, antimônio e mercúrio. Esses vestígios apontam para uma fase anterior de atividade hidrotermal de alta temperatura.

Atualmente, o sistema opera em condições mais frias, mas preserva marcas químicas e geológicas desse estágio anterior, tornando o local relevante para compreender a formação de depósitos minerais no fundo do mar.

Pressões humanas e riscos ao ecossistema

Apesar de sua singularidade geológica e biológica, o campo de Karambusel enfrenta ameaças decorrentes da atividade humana. A região abriga operações de mineração, como a mina de ouro de Ladolam, em Lihir.

Nessa área, rejeitos e resíduos da mineração são despejados no mar. Além disso, existem licenças para exploração de minerais e hidrocarbonetos no fundo oceânico, aumentando a pressão sobre ecossistemas frágeis e altamente especializados.

Os pesquisadores alertam que intervenções desse tipo podem comprometer irreversivelmente o habitat recém-descoberto, antes mesmo que sua biodiversidade seja plenamente conhecida e documentada.

Apelo por proteção e novos estudos científicos

Diante dos riscos identificados, os cientistas defendem a necessidade urgente de mais estudos detalhados, planejamento espacial marinho direcionado e medidas eficazes de proteção ambiental para a área do Monte Submarino Cônico.

Para Philipp Brandl, a descoberta representa um patrimônio científico de alto valor. Segundo ele, trata-se de um tesouro inesperado de biodiversidade e informação geológica que precisa ser protegido antes que interesses econômicos o coloquem em perigo.

A pesquisa reforça a importância de explorar e compreender ambientes profundos do oceano, muitos ainda pouco conhecidos, mas cada vez mais expostos à expansão das atividades humanas em águas profundas.

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Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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