Registro inédito a mais de 140 metros nas Molucas documenta um celacanto vivo em outubro de 2024. O achado traz novas pistas sobre comportamento e reforça a urgência da conservação marinha em águas profundas.
Dois mergulhadores franceses registraram um encontro que a ciência quase nunca presencia. Em outubro de 2024, no arquipélago das Molucas, leste da Indonésia, Alexis Chappuis e Julien Leblond filmaram um celacanto vivo entre 140 e 150 metros de profundidade, na província de Maluku.
O peixe, de corpo azul-escuro com pintas claras, foi visto flutuando calmamente sobre um promontório rochoso. No dia seguinte, a dupla voltou ao mesmo ponto e identificou o mesmo indivíduo pelo padrão único das manchas laterais.
Segundo os registros da expedição, trata-se da espécie indonésia Latimeria menadoensis, com cerca de 1,10 metro de comprimento. O relato representa a primeira observação detalhada de um celacanto vivo em Maluku, posteriormente documentada em publicação científica internacional.
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O encontro desafia a imagem de um peixe que só sairia de cavernas à noite. O animal foi observado em área aberta, o que sugere flexibilidade no uso do habitat e amplia o entendimento sobre o comportamento da espécie em encostas profundas.
Busca meticulosa mapeou encostas frias e rochosas, chave para encontrar o peixe pré-histórico
A cena não foi obra do acaso. Por dois anos, Chappuis analisou cartas náuticas, mapas batimétricos, dados de temperatura de fundo e relatos de pescadores, procurando trechos frios, íngremes e com fendas, semelhantes aos já associados ao celacanto em locais como Comores e África do Sul.
Com rebreathers de circuito fechado e roupas técnicas para águas frias, a equipe executou um plano com margem mínima para erro. Foram mais de 50 mergulhos profundos até localizar o ponto onde o animal foi filmado, e a posição exata permanece em sigilo para evitar turismo predatório e pesca dirigida.
Nas imagens, o peixe paira sobre rochas cobertas por esponjas e corais moles, sem sinais de fuga. Para os mergulhadores, a estabilidade da flutuação e a permanência do indivíduo em dias consecutivos reforçam que a área oferece condições ambientais adequadas.
Características únicas do celacanto ajudam a explicar a transição da água para a terra
Descrito por fósseis e dado como extinto por milhões de anos até 1938, quando um exemplar vivo foi encontrado na África do Sul, o celacanto permanece um enigma. Hoje são reconhecidas duas espécies, e a registrada nas Molucas é a indonésia Latimeria menadoensis, de nadadeiras lobadas que lembram pequenos braços articulados.
Essas nadadeiras, somadas ao vestígio de um antigo “pulmão” interno inativo e a um crânio com duas partes móveis, ajudam a entender a evolução dos peixes de nadadeiras carnosas rumo aos primeiros vertebrados terrestres. É uma janela para o passado que continua evoluindo, ainda que em ritmo muito lento.
Novo comportamento observado indica maior flexibilidade do que se pensava
Relatos anteriores descreviam o celacanto como um animal que passaria o dia escondido em cavernas, saindo pouco para caçar. O indivíduo de Maluku foi visto em área aberta, com movimentos calmos e sem comportamento de fuga.
Pesquisadores consideram que essa nuance indica uma alternância entre pontos de abrigo e áreas mais expostas, possivelmente em resposta a corrente, temperatura ou disponibilidade de presas. O achado amplia hipóteses sobre como a espécie usa as encostas profundas.
Riscos extremos do mergulho técnico e pressão crescente na zona do crepúsculo dos oceanos
Descer a 140 metros exige misturas gasosas precisas, planejamento rigoroso e longas paradas de descompressão. Qualquer falha técnica nessa profundidade pode ser fatal, somando-se a frio intenso, baixa visibilidade e logística cara com embarcações de apoio e redundância de equipamentos.
O habitat do celacanto fica na chamada zona do crepúsculo dos oceanos, entre 100 e 400 metros, onde a luz quase não alcança. A distância da superfície, porém, não protege de ameaças modernas como plástico que afunda, aquecimento das águas, ruído de navios e sonares e projetos de turismo extremo.
De acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), a espécie indonésia é classificada como Vulnerável. O risco aumenta devido ao ciclo de vida singular: o celacanto cresce devagar, atinge a maturidade sexual por volta dos 55 anos, tem gestação de cerca de cinco anos e pode viver mais de um século, o que torna cada perda populacional especialmente grave.
Próximos passos priorizam ciência não invasiva com eDNA para mapear e proteger Maluku
A equipe defende ampliar estudos com DNA ambiental (eDNA), filtrando amostras de água em busca de traços genéticos deixados por fezes, muco ou fragmentos de pele. A abordagem reduz riscos e evita capturas de animais raros.
Com esse método, é possível detectar presença e rotas sem ferir indivíduos e orientar políticas de conservação. Entre Sulawesi e Papua Ocidental há vastas áreas profundas ainda pouco mapeadas, e o eDNA pode acelerar o reconhecimento de zonas prioritárias para proteção.
- Identificar celacantos em diferentes baías profundas da Indonésia
- Comparar diversidade genética entre regiões e possíveis corredores
- Delimitar áreas-chave de abrigo e alimentação para propostas de proteção
Como destaca a equipe, ciência robusta não precisa de redes nem de exemplares em formol. No caso do celacanto, cada indivíduo vivo vale mais do que qualquer coleção.
O que você pensa sobre manter o local em sigilo para evitar turismo predatório, mesmo que isso limite o acesso a dados abertos? A proteção da zona do crepúsculo deve ter regras mais rígidas para embarcações e sonares comerciais? Deixe seu comentário e diga se concorda com a estratégia de estudos não invasivos ou se enxerga caminhos alternativos para equilibrar pesquisa e conservação.

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