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Disputas sobre petróleo expõem contradições e reviravoltas que moldaram os bastidores tensos da COP30 em Belém

Escrito por Rannyson Moura
Publicado em 24/11/2025 às 18:43
COP30 termina com forte impasse sobre petróleo, enquanto setores como mineração e agro dominam negociações. Governo brasileiro tenta recuperar consenso em meio a contradições e pressões climáticas globais.
COP30 termina com forte impasse sobre petróleo, enquanto setores como mineração e agro dominam negociações. Governo brasileiro tenta recuperar consenso em meio a contradições e pressões climáticas globais.
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COP30 termina com forte impasse sobre petróleo, enquanto setores como mineração e agro dominam negociações. Governo brasileiro tenta recuperar consenso em meio a contradições e pressões climáticas globais.

A Conferência do Clima realizada em Belém revelou, mais uma vez, que discutir adaptação climática é fácil. Difícil mesmo é falar sobre petróleo. Embora todos os países tenham aceitado a necessidade urgente de responder às secas, enchentes e ondas de calor já visíveis, o ambiente mudou completamente quando os debates tocaram nos combustíveis fósseis. O cenário, então, se fragmentou. As tensões cresceram. E interesses econômicos poderosos passaram a ditar o rumo do encontro.

Nesse contexto, negociações que inicialmente pareciam caminhar para um consenso se transformaram em uma disputa global travada nos detalhes. A COP30 também registrou a presença recorde de lobistas do setor de petróleo, um dos fatores que influenciaram a construção — e a desconstrução — do chamado “mapa do caminho” para a transição energética.

Pressões iniciais e bloqueio ao debate sobre petróleo

Logo nos primeiros dias, o impasse em torno do petróleo ficou evidente. Países como Colômbia, Chile, membros da União Europeia e diversas nações insulares insistiram que o documento final deveria incluir diretrizes para reduzir a dependência global dos combustíveis fósseis. Para eles, esse passo era vital diante da ameaça existencial representada pelo aquecimento global.

Contudo, a resistência foi imediata e firme. Arábia Saudita, Índia, Rússia e outros grandes produtores alegaram que incluir petróleo, gás e carvão em um roteiro de transição seria inaceitável. Assim, qualquer menção aos fósseis se transformou em motivo de veto. E o texto preliminar, embora tenha recebido pressões significativas, não avançou.

O retorno de Lula a Belém e a tentativa de reconstruir o consenso

No auge da crise diplomática, o presidente Lula decidiu voltar a Belém antes mesmo de haver um rascunho final. O gesto surpreendeu negociadores. Ele afirmou que a COP precisava “começar a pensar como viver sem combustível fóssil”. A frase reverberou. Mas também destacou uma contradição importante: poucos dias antes, seu próprio governo havia autorizado estudos para exploração de petróleo na Foz do Amazonas.

A ambiguidade gerou repercussão negativa. Ainda assim, Lula passou horas buscando aliados. Ligou para Ursula von der Leyen, Emmanuel Macron, António Costa, Gustavo Petro e conversou repetidamente com Marina Silva. Nada, porém, mudou o impasse. O segundo rascunho saiu sem qualquer referência a petróleo.

A saída paralela proposta pela presidência da COP30

Quando as negociações travaram, o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, apresentou uma alternativa para evitar que o evento terminasse completamente sem avanços. Ele anunciou que, em 2026, apresentará dois novos roteiros — um sobre transição energética e outro sobre desmatamento zero.

Esses documentos, no entanto, não terão caráter vinculante. Não integrarão as decisões oficiais da Convenção do Clima. Sua força dependerá exclusivamente da adesão voluntária dos países. Lula declarou que “a semente foi lançada” e afirmou que pretende levar o debate também ao G20.

Presença recorde do setor de petróleo e influência direta nas decisões

A edição deste ano registrou 1.600 lobistas ligados à indústria de petróleo e gás. O número superou o de qualquer delegação nacional, exceto a brasileira. Desde 2021, ano em que o monitoramento independente teve início, nenhuma conferência havia alcançado presença tão elevada desse setor.

O levantamento foi conduzido pela coalizão KBPO (Kick Big Polluters Out), que há anos denuncia a interferência direta de grandes poluidoras nas negociações climáticas. Em comparação à COP29, realizada em Baku, houve um aumento de 12%.

O peso político da indústria do petróleo ficou evidente. Enquanto países vulneráveis pediam medidas urgentes, grandes produtores trabalhavam nos bastidores para retirar qualquer menção a fósseis do texto final.

A mineração ocupa o centro das atenções e tenta se posicionar como “solução”

Ao mesmo tempo, outro setor assumiu protagonismo inesperado: a mineração. A Vale espalhou presença por todas as áreas da conferência. Seja nas ruas, aeroportos, estandes internacionais ou ações culturais, a mineradora se colocou como parte da solução climática.

Para críticos, a estratégia parecia apagar tragédias recentes. “Praticamente em todo lugar de Belém que eu vou há uma propaganda de mineradora”, afirmou Isadora Canela, de Brumadinho — cidade onde, em 2019, o rompimento de uma barragem da empresa matou 272 pessoas. Em Mariana, em 2015, evento similar destruiu a bacia do Rio Doce e deixou 19 mortos.

Com apoio do IBRAM e do CEBDS, a Vale lidera a Coalizão Minerais Essenciais. O grupo apresentou à presidência da COP30 um estudo prevendo que a demanda global por minerais estratégicos dobrará até 2050. O foco está em produtos necessários para turbinas eólicas, baterias e painéis solares. Lítio, níquel, cobre, cobalto e terras raras entraram definitivamente no radar do encontro.

Mineração avança, discursos empresariais crescem e tensões emergem

Durante as negociações, executivos da Vale e da Hydro expressavam otimismo. Um deles afirmou: “A mineração é top, com certeza absoluta”. A frase reforçou a sensação de que o setor tentava capturar a agenda da transição energética. Outro executivo completou: “Muito se falou que o agro é pop, mas a mineração é top”.

No entanto, nem todos receberam bem essa autoconfiança. Declarações da presidente da Sigma Lithium à CNBC, por exemplo, geraram repúdio imediato. Ao dizer que antes da sua empresa chegar ao Vale do Jequitinhonha “os moradores eram ex-mulas de água”, ela despertou críticas de comunidades que se sentiram desrespeitadas. Um morador afirmou: “Nunca fomos geração perdida”.

Ao mesmo tempo, investigações apontaram que créditos de carbono associados à Sigma teriam sido gerados em áreas com indícios de desmatamento. Além disso, pedidos de pesquisa e expansão da mineração de lítio já atingem regiões da Amazônia, incluindo territórios indígenas isolados.

Biocombustíveis ganham força enquanto controvérsias crescem

Uma segunda rota para substituir o petróleo veio dos biocombustíveis. O Brasil apresentou a expansão do etanol, do biodiesel e do SAF como caminhos possíveis. Parlamentares apoiadores circularam entre estandes defendendo o setor. Entre eles, o deputado Arnaldo Jardim, financiado por empresários ligados aos biocombustíveis.

Durante a COP30, foi lançado o Compromisso de Belém 4X, que prevê quadruplicar o uso de combustíveis sustentáveis até 2035. O acordo não é vinculante. Para cumprir a meta, representantes do setor admitem a necessidade de ampliar áreas de plantio de soja, milho e dendê.

Mas há riscos. Isso porque 74% do biodiesel brasileiro é produzido a partir de óleo de soja. E, quando cresce a demanda, cresce também a pressão territorial. A Moratória da Soja, que desde 2006 impede a compra de grãos cultivados em áreas recém-desmatadas, virou alvo de tentativas de flexibilização.

Lideranças indígenas alertaram que a expansão pode agravar conflitos. “Antes de quadruplicar biocombustível, demarque territórios”, afirmou a cacica Yuna Miriam Tembé. Ela lembrou que a monocultura de dendê já avança sobre comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas.

O agro busca protagonismo, apesar do impacto ambiental

Enquanto isso, o agronegócio tentou se apresentar como pilar da transição energética. Mas os dados mostram outra realidade. Segundo o SEEG, o setor é responsável por 74% das emissões brasileiras, considerando desmatamento, pecuária e uso da terra.

Apesar disso, o agro se comportou como protagonista da solução. A Agrizone, evento paralelo organizado próximo à COP, trouxe até churrasco com picanha. Entre os presentes estava o ministro da Agricultura, Carlos Fávaro. Ruralistas e políticos circularam pelo espaço como se estivessem em uma feira agropecuária tradicional.

Mas esse cenário contrastava fortemente com o ambiente externo. Trabalhadores terceirizados da limpeza foram flagrados comendo no chão, perto dos banheiros, enquanto autoridades degustavam carne e cerveja em áreas climatizadas.

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Rannyson Moura

Graduado em Publicidade e Propaganda pela UERN; mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Atua como redator freelancer desde 2019, com textos publicados em sites como Baixaki, MinhaSérie e Letras.mus.br. Academicamente, tem trabalhos publicados em livros e apresentados em eventos da área. Entre os temas de pesquisa, destaca-se o interesse pelo mercado editorial a partir de um olhar que considera diferentes marcadores sociais.

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