Do pior ao melhor IDH do Brasil, a distância entre Melgaço, no Pará, e São Caetano do Sul, na Grande São Paulo, aparece de forma clara nas estatísticas. Mas, ao observar o cotidiano desses dois municípios, ficam evidentes dimensões da realidade que não cabem apenas em um número entre 0 e 1.
De um lado, um município amazônico com grande população ribeirinha e desafios logísticos para oferecer serviços públicos básicos. Do outro, uma cidade pequena, altamente urbanizada, com arrecadação elevada e forte presença de serviços. Entre o pior ao melhor IDH do Brasil, o contraste ajuda a entender como escolarização, saúde e renda se organizam no território brasileiro e também quais aspectos não são captados pelo indicador.
Do pior ao melhor IDH do Brasil: o que os números indicam
O Índice de Desenvolvimento Humano considera três dimensões principais: escolarização, longevidade e renda média. Quanto mais próximo de 1, maior o nível de desenvolvimento humano apontado para aquele local.
No caso brasileiro, Melgaço aparece com IDH de 0,418 e São Caetano do Sul com 0,862. Em Melgaço, o tempo médio de estudo é de 5,51 anos, a expectativa de vida é inferior a 72 anos e a renda per capita é da ordem de 135 reais.
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Em São Caetano do Sul, o tempo médio de estudo é aproximadamente o dobro, a expectativa de vida é cerca de sete anos maior e a renda per capita é cerca de quinze vezes superior à de Melgaço.
Assim, do pior ao melhor IDH do Brasil, os dados mostram diferenças relevantes em escolaridade, saúde e renda, que se refletem diretamente no dia a dia da população.
Melgaço: dispersão geográfica, evasão escolar e acesso limitado à saúde
Melgaço está localizado no arquipélago do Marajó, em área de floresta amazônica. Dos cerca de 28 mil habitantes, quase 80% vivem na zona rural, em comunidades ribeirinhas muitas vezes acessíveis apenas por barco. Essa dispersão territorial torna o acesso a serviços públicos um desafio constante.
Na comunidade de Maria Benedita, mãe de 14 filhos, a base da subsistência vem da floresta: açaí, frutas, roça. As principais queixas não são sobre a produção de alimentos, mas sobre a oferta de educação e saúde.
Moradores relatam períodos em que as escolas funcionam com poucos dias letivos no mês e a ausência de Ensino Médio em determinadas áreas, o que leva jovens a interromper os estudos.
Pelos dados, 14,6% das crianças entre 6 e 14 anos estão fora da escola, a evasão no Ensino Médio é de 21,2% e cerca de 20% das pessoas com mais de 15 anos são analfabetas.
Esses indicadores explicam boa parte da posição de Melgaço no ranking do IDH, já que a escolarização é um dos componentes centrais do índice.
Na saúde, o quadro também é desafiador. O único hospital do município apresenta limitações estruturais: centro cirúrgico desativado, equipamentos danificados, leitos em más condições e necessidade de encaminhar procedimentos para cidades vizinhas.
O índice de mortalidade infantil, em Melgaço, é de 22,68 mortes por mil nascidos vivos, valor superior à média nacional e maior do que o registrado em São Caetano do Sul.
Além disso, o saneamento básico é praticamente inexistente, com esgoto a céu aberto mesmo em área urbana. Um barco-hospital destinado ao atendimento ribeirinho é apontado por moradores como subutilizado.
Órgãos estaduais e federais informam repasses e ações de apoio, enquanto a prefeitura menciona limitação de recursos e dificuldades de gestão na área da saúde.
São Caetano do Sul: serviços estruturados, alta arrecadação e envelhecimento da população
No extremo oposto, São Caetano do Sul ilustra o melhor IDH do Brasil com uma combinação de serviços estruturados e capacidade local de arrecadação.
A prefeitura informa que todas as crianças de 6 a 14 anos estão matriculadas, e escolas municipais atendem desde a Educação Infantil até o fim do Ensino Fundamental.
A rede pública local oferece oficinas de música, conversação em inglês, teatro, laboratórios de ciências e espaços físicos bem equipados, características que atraem inclusive famílias de classe média e alta para a escola pública.
O analfabetismo entre pessoas com mais de 15 anos é estimado em 1,2%, índice muito baixo no contexto nacional.
Na alimentação escolar, a diretriz é restringir ultraprocessados, vetar açúcar para crianças até 3 anos e manter hortas em todas as escolas.
Essas hortas são cuidadas por mães de baixa renda vinculadas a programas municipais, que geram renda e aproximam as famílias da rotina escolar.
Na área da saúde, São Caetano do Sul dispõe de unidades com consultas especializadas, exames, fisioterapia e farmácia 24 horas em um mesmo espaço, além de equipamentos de alto custo, como ressonância magnética.
Segundo a gestão local, os prazos médios para exames e consultas com especialistas giram em torno de 30 dias.
O município tem também uma população relativamente idosa, com participação de pessoas acima de 60 anos superior à média de muitas cidades brasileiras. Programas de atividades físicas e esportes para idosos, como grupos de corrida em parques, buscam responder a esse perfil demográfico.
Orçamento municipal, arrecadação e diferenças de capacidade de investimento
Um dos fatores que ajudam a explicar a distância do pior ao melhor IDH do Brasil é a estrutura de financiamento das prefeituras.
Em São Caetano do Sul, se o orçamento de 2023 fosse dividido pelo número de habitantes, o valor por pessoa seria da ordem de 15 mil reais. Em Melgaço, o gasto municipal por morador em 2023 foi de cerca de 5 mil reais.
A diferença está ligada principalmente à base tributária. São Caetano do Sul possui economia diversificada, forte setor de serviços e arrecadação significativa de impostos como IPTU e ISS.
Esses tributos respondem por cerca de 60% do orçamento municipal; o restante vem de repasses estaduais e federais. Essa composição permitiu, por exemplo, zerar a tarifa de ônibus urbano, decisão que demanda caixa relativamente estável.
Melgaço, por sua vez, tem economia voltada ao extrativismo e alta informalidade. O município não cobra IPTU, arrecada aproximadamente 6% do que gasta e depende quase integralmente de transferências da União e do Estado, como o Fundo de Participação dos Municípios.
A administração local afirma que o orçamento é insuficiente para atender todas as demandas e reconhece dificuldades específicas na área da saúde.
Economistas que estudam a situação fiscal dos municípios brasileiros apontam que o Pacto Federativo, criado para distribuir receitas entre União, Estados e prefeituras com o objetivo de reduzir desigualdades regionais, não conseguiu nivelar essas diferenças na escala desejada.
Entre as propostas discutidas por especialistas estão revisar critérios de repartição de impostos, flexibilizar recursos carimbados e repensar o número de municípios para avaliar se a redução de estruturas administrativas poderia liberar mais verba para educação e saúde.
O que o IDH não capta em Melgaço: serviços ambientais e modos de vida ribeirinhos
Embora o IDH de Melgaço seja o menor do país, o indicador não registra alguns aspectos relevantes do município.
Mais de 90% de seu território é coberto por vegetação nativa, segundo levantamentos de uso e cobertura da terra. Em área, a porção de floresta preservada é maior do que a do próprio Distrito Federal, contribuindo para regulação de clima e chuvas em outras regiões.
A economia do açaí é um exemplo dessa interface entre floresta e renda. Ribeirinhos como Carlos de Almeida relatam que o manejo de açaizais gera renda significativa em determinados períodos, ao mesmo tempo em que incentiva a manutenção da cobertura vegetal.
Uma parte da produção é exportada, outra parte é consumida pelas famílias ao longo do ano.
Além disso, o modo de vida ribeirinho, com forte vínculo com rios e mata, aparece nos relatos como fator de satisfação pessoal, mesmo diante da carência de serviços públicos.
Muitos moradores afirmam que não trocariam a vida em Melgaço por grandes centros urbanos, desde que a floresta seja preservada e os serviços essenciais sejam aprimorados.
Essas dimensões ambientais e culturais não entram diretamente no cálculo do IDH, que permanece focado em escolaridade, renda e longevidade.
Nesse sentido, do pior ao melhor IDH do Brasil, Melgaço ilustra como determinados municípios podem apresentar baixa pontuação no índice e, ao mesmo tempo, desempenhar papel estratégico na conservação ambiental.
O que o IDH não capta em São Caetano: mudança urbana e deslocamento de moradores de baixa renda
No outro extremo, São Caetano do Sul também tem elementos não captados plenamente pelo IDH. Historicamente marcada por indústrias, a cidade passou por um processo de transformação econômica e urbana ao longo das últimas décadas, com redução da presença industrial e aumento do perfil residencial de médio e alto padrão.
Em áreas antes ocupadas por fábricas, surgiram shopping centers e condomínios verticais de alto valor. Pesquisas urbanas indicam que, à medida que a cidade se valorizou, parte dos moradores de baixa renda passou a se mudar para municípios vizinhos, mantendo vínculos de trabalho com São Caetano, mas residindo fora de seu território.
Ao lado dos limites da cidade, há comunidades com infraestrutura mais precária, ausência de rede de esgoto em alguns trechos e ocorrência de enchentes, cujos moradores muitas vezes trabalham em São Caetano do Sul, mas são contabilizados nas estatísticas de outros municípios.
Essa configuração ajuda a entender por que os indicadores de São Caetano são elevados: a cidade combina alta arrecadação, serviços públicos bem estruturados e um perfil socioeconômico relativamente homogêneo dentro de seus limites.
Ao mesmo tempo, o entorno imediato registra realidades distintas, com menor nível de infraestrutura e renda.
Do pior ao melhor IDH do Brasil: indicador útil, mas incompleto
A comparação entre Melgaço e São Caetano do Sul mostra que o IDH é um instrumento importante para visualizar desigualdades em educação, saúde e renda, mas não esgota o retrato da realidade local.
Em Melgaço, o índice evidencia evasão escolar, baixa escolaridade média, limitações na saúde e renda modesta, ao mesmo tempo em que não incorpora diretamente a contribuição do município para a preservação da Amazônia nem a relevância dos serviços ambientais prestados.
Em São Caetano do Sul, o IDH registra altos níveis de escolaridade, renda e longevidade, mas não mostra, com o mesmo nível de detalhe, os processos urbanos que levaram parte da população de baixa renda a viver em municípios vizinhos, ainda que mantenham relações diárias de trabalho com a cidade.
Assim, do pior ao melhor IDH do Brasil, o indicador ajuda a balizar políticas públicas, mas precisa ser analisado junto com outros dados, como padrão de ocupação do território, estrutura econômica, fluxos de mobilidade e funções ambientais de cada município.
E você, ao olhar para esses dois extremos do pior ao melhor IDH do Brasil, acha que é mais urgente discutir como os recursos são distribuídos entre os municípios ou como complementar o IDH com outros indicadores para retratar melhor a realidade de lugares tão diferentes como Melgaço e São Caetano do Sul?

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