Brasil exporta mais do que nunca para a China, mas especialistas alertam: a dependência ameaça a indústria nacional e o futuro econômico.
O avanço da relação entre Brasil e China atingiu níveis históricos nas últimas duas décadas. Hoje, quase um terço das exportações brasileiras tem como destino o gigante asiático, consolidando uma parceria estratégica, mas também levantando alertas sobre o futuro da indústria nacional.
Especialistas apontam que o modelo atual, baseado no envio de commodities como soja, minério de ferro e petróleo, pode enfraquecer a base produtiva do país.
O fenômeno, que alguns chamam de “efeito China”, já impacta a complexidade econômica brasileira e reacende o debate sobre o papel do país no cenário global e no Brics.
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China domina as exportações e redefine a balança comercial
Entre 2013 e 2023, o Brasil exportou mais de US$ 838 bilhões para a China, sendo mais de 60% compostos por soja e minérios.
Os números refletem um sucesso aparente nas trocas comerciais, mas também evidenciam a concentração em produtos de baixo valor agregado.
De acordo com Ana Elisa Saggioro Garcia, professora de Relações Internacionais da PUC-Rio, o país asiático consolidou-se como centro manufatureiro e tecnológico enquanto o Brasil direcionou seus esforços para o envio de produtos primários.
“Enquanto no Brasil se desmantelou as instalações para moer grãos de soja ou beneficiar minério, a China instalou grandes moedores e beneficiamentos nos seus próprios portos”, explica a pesquisadora.
Essa dependência se intensificou após 2004, quando o governo brasileiro reconheceu a China como economia de mercado.
Desde então, o fluxo comercial multiplicou-se e o país ultrapassou os Estados Unidos como principal comprador de produtos brasileiros.
Exportações em alta, mas indústria em queda
O crescimento das exportações para a China é acompanhado por um fenômeno preocupante: a desindustrialização.
Em 2023, 74% dos produtos importados da China eram de alta e média-alta tecnologia, enquanto apenas 5% das exportações brasileiras para o país tinham esse perfil.
Estudo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) mostra que 90% das exportações brasileiras ao mercado chinês são bens básicos.
Como consequência, o Índice de Complexidade Econômica (ICE) do Brasil caiu da 23ª posição em 1998 para a 49ª em 2023, evidenciando a perda de sofisticação produtiva.
Outro fator que contribuiu para esse cenário foi a Lei Kandir, que isentou de impostos as exportações de produtos in natura.
Para Ana Garcia, essa política estimulou o envio de matérias-primas sem processamento, em vez de fomentar o desenvolvimento industrial.
“O Brasil abriu seu mercado à entrada de produtos muito mais competitivos da China, o que gerou um desmantelamento forte da indústria nacional”, afirma.
Brasil exporta mais, mas processa menos
O país é hoje o maior exportador de soja do mundo, mas apenas o terceiro maior processador, atrás da China e dos Estados Unidos.
Segundo a Abiove, a produção brasileira cresceu 79% entre 2014 e 2024, enquanto o processamento avançou apenas 48%.
A China, por sua vez, ampliou suas plantas de refino e processamento nos portos, garantindo autonomia em produtos como óleo e farelo.
O mesmo ocorre na mineração: em 2024, o Brasil vendeu 280 milhões de toneladas de minerais à China, quase todos em estado bruto.
Apesar de possuir uma das maiores reservas minerais do planeta, o Brasil ainda investe pouco em beneficiamento.
Dados do Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICMM) mostram que o país tem muitas instalações, mas ainda fica atrás de China, Rússia e Estados Unidos em processamento de minerais.
Relação com a China ou falha de estratégia nacional?
Para especialistas, o problema não está na parceria em si, mas na falta de estratégia interna.
“Não é a China que desindustrializa o Brasil. O problema está nas políticas nacionais”, diz Evandro Carvalho, da FGV Direito Rio.
“Não podemos culpar a China quando não fazemos a lição de casa há 20 anos”, completa Roberto Dumas, professor do Insper.
O governo brasileiro tenta reverter esse quadro com o plano Nova Indústria Brasil (NIB), lançado em 2024, que prevê R$ 300 bilhões em investimentos até 2026.
A meta é impulsionar a industrialização e agregar valor às exportações. Ao mesmo tempo, a chegada de montadoras chinesas de veículos elétricos é vista como oportunidade de transferência tecnológica dentro do Brics.
Dependência comercial e riscos futuros
Atualmente, 30% das exportações brasileiras têm como destino a China. Para Dumas, essa concentração é arriscada:
“Ter 30% das exportações concentradas em um único país é perigoso. Qualquer crise política ou econômica pode afetar essa relação.”
Além disso, a China vem buscando autossuficiência alimentar e energética, o que pode reduzir sua dependência das importações brasileiras no futuro.
A possibilidade de um novo acordo comercial entre Estados Unidos e China, incentivado por Donald Trump, também pode redirecionar parte das compras chinesas de soja americana.
Perspectivas para o futuro da parceria
Apesar dos riscos, diplomatas e economistas acreditam que a relação entre Brasil e China deve continuar sólida.
O ex-embaixador Marcos Caramuru avalia que os dois países têm visões semelhantes sobre o multilateralismo e o papel do comércio global.
“As relações vão muito bem. Mesmo com mudanças políticas, dificilmente haverá ruptura”, afirma.
O desafio, segundo analistas, é transformar o superávit nas exportações em desenvolvimento interno, apostando em inovação, tecnologia e reindustrialização.
O Brasil, afirmam, precisa deixar de ser apenas fornecedor de matérias-primas e tornar-se um protagonista industrial dentro do Brics.

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