Redescoberta de uma planta rara em Alcatrazes, considerada extinta desde os anos 1920, transforma ilha do litoral de SP em laboratório vivo e pressiona por novas ações de proteção.
Era para ser apenas mais uma expedição de campo em meio ao mato fechado e às encostas úmidas da Ilha de Alcatrazes, no litoral de São Paulo. Em vez disso, pesquisadores da Unicamp e do Jardim Botânico do Rio de Janeiro se depararam com o improvável: uma planta que a ciência já tinha dado como extinta há mais de 100 anos, viva e escondida em um dos trechos mais isolados da ilha.
A protagonista dessa história é a Begonia larorum, uma planta endêmica de Alcatrazes que não era observada desde a década de 1920. Por décadas, botânicos acreditaram que incêndios, bombardeios e espécies invasoras tinham eliminado definitivamente a espécie. A redescoberta muda esse cenário e acende um alerta máximo de conservação para o arquipélago e para a própria begônia.
A planta que sumiu dos registros por um século
A Begonia larorum foi descrita originalmente pelo zoólogo alemão Hermann Luederwaldt, no início do século passado. Depois da primeira coleta, a planta desapareceu dos registros científicos. Nenhuma nova observação, nenhuma nova coleta, nenhum registro fotográfico de campo.
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Diante do silêncio de dados, a hipótese mais aceita era dura: a planta teria sido extinta localmente, vítima dos impactos acumulados sobre a Ilha de Alcatrazes, como incêndios florestais e a introdução de espécies exóticas que competem com a vegetação nativa.
Essa impressão só começou a mudar em outubro de 2024, com a publicação de um artigo na revista Oryx – The International Journal of Conservation.
O estudo, assinado por Gabriel Sabino e pelo professor Fábio Pinheiro, da Unicamp, relata a redescoberta da Begonia larorum, detalha a localização e as características da planta e propõe sua inclusão na Lista Vermelha da IUCN como espécie criticamente ameaçada.
Alcatrazes: cenário de bombas, fogo e resistência
Localizada a cerca de 35 quilômetros do continente, a Ilha de Alcatrazes integra a Estação Ecológica Tupinambás e o Refúgio de Vida Silvestre do Arquipélago de Alcatrazes. Apesar da proteção atual, o lugar carrega um passado pesado.
Durante décadas, a ilha foi usada para treinamentos de tiro da Marinha do Brasil. Explosões, incêndios e a destruição da vegetação nativa deixaram marcas profundas no ambiente, alterando encostas, queimando trechos de floresta e abrindo espaço para a entrada de espécies invasoras.
Entre essas invasoras está o capim-gordura, que se espalha com facilidade, aumenta o risco de fogo e sufoca espécies endêmicas.
Muitas plantas típicas de Alcatrazes desapareceram sob esse cenário de perturbação intensa. Ainda assim, a Begonia larorum resistiu, recuada em uma encosta isolada, pouco acessada e longe do fluxo humano.
Como a planta foi reencontrada na encosta escondida
A nova história da Begonia larorum começa em fevereiro de 2024, em uma expedição financiada pela Fapesp. Durante o trabalho de campo, o pesquisador Gabriel Sabino, da Unicamp, encontrou um único indivíduo da planta, fora da fase de floração.
Ele revisava constantemente descrições antigas antes de cada saída a campo e, quando se deparou com aquele exemplar, ficou sem acreditar que a planta realmente estava ali, viva, depois de um século de ausência nos registros. A identificação foi confirmada e a nova fase da pesquisa começou.
Nesse momento inicial, foram coletadas amostras, e Sabino conseguiu reproduzir cinco clones em laboratório. A planta passou a viver em dois mundos ao mesmo tempo: na encosta isolada de Alcatrazes e nas bancadas do herbário da Unicamp, onde os clones ajudam a garantir a sobrevivência genética da espécie.
De um único indivíduo a uma pequena população
Meses depois, em setembro, a equipe retornou à ilha e teve outra surpresa. Em vez de apenas um exemplar perdido, os pesquisadores encontraram uma pequena população com 19 indivíduos, dos quais 17 estavam em fase reprodutiva.
Esse achado mostra que a planta não apenas sobreviveu, mas conseguiu se restabelecer no ambiente natural, mantendo ciclo reprodutivo ativo mesmo sob condições adversas.
Foi, nas palavras do próprio pesquisador, motivo de festa: a planta que não deveria mais existir estava se multiplicando discretamente em seu refúgio natural.
A partir desses indivíduos, foram preparadas amostras para a coleção do herbário da Unicamp e consolidada a base científica para o artigo que oficializa a redescoberta e reforça o pedido de reconhecimento da espécie como criticamente ameaçada.
Por que essa planta é um símbolo de alerta máximo
Os pesquisadores defendem que a Begonia larorum seja reconhecida formalmente como espécie criticamente ameaçada.
O raciocínio é simples: a distribuição da planta é extremamente restrita, limitada a uma área específica da ilha, e a população conhecida é pequena e vulnerável a qualquer mudança brusca no ambiente.
Segundo o professor Fábio Pinheiro, a equipe pretende seguir com estudos genéticos e de interações bióticas para entender como essa planta conseguiu sobreviver tanto tempo em isolamento.
Investigar o fluxo de genes, a polinização, o tipo de solo e as relações com outras espécies pode revelar pistas importantes sobre os mecanismos de resistência envolvidos.
Ao mesmo tempo, o caso da Begonia larorum reforça a necessidade de proteger não só a planta em si, mas o conjunto de condições que permitiu sua sobrevivência, o que inclui controlar espécies invasoras, evitar novos impactos e garantir a integridade dos trechos mais sensíveis de Alcatrazes.
Alcatrazes como “prévia” do futuro do planeta
Para os pesquisadores, a Ilha de Alcatrazes funciona como um tipo de miniatura do que pode acontecer em escala global. Em suas palavras, “a ilha é como um laboratório de como será o planeta no futuro”, seguindo previsões de mudanças climáticas e transformações ambientais.
Isso significa que entender como uma planta rara sobreviveu a incêndios, bombardeios, invasões biológicas e isolamento ao longo de décadas pode dar pistas sobre quais estratégias serão mais importantes para a conservação em um mundo mais quente, fragmentado e sujeito a eventos extremos.
Ao olhar para a Begonia larorum, não estamos vendo apenas uma curiosidade botânica preservada em um canto remoto do litoral paulista.
Estamos vendo um ensaio do futuro, em que poucas espécies resistentes se agarram a refúgios específicos enquanto o entorno muda rapidamente.
Diante da história dessa planta que ressurgiu depois de um século dada como extinta, você acha que o Brasil deveria investir muito mais em expedições e monitoramento de ilhas e áreas isoladas para descobrir o que mais pode estar sobrevivendo em silêncio por aí?
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