Após dias de navegação sem rota regular, panes em alto-mar e travessias entre ilhas abandonadas, aventureiros documentam a rotina de um homem que vive há anos isolado em Pagan, um vulcão ativo das Ilhas Marianas do Norte, território dos Estados Unidos, sem infraestrutura, serviços públicos ou contato contínuo com a sociedade moderna
Integrantes do canal Yes Theory viajaram por vários dias até a ilha de Pagan, nas Ilhas Marianas do Norte, território dos Estados Unidos, para documentar a vida de Jordan, morador isolado há anos em um vulcão ativo, revelando desafios logísticos, riscos naturais e a permanência de modos de vida tradicionais.
Uma ilha americana sem voos, sem porto e sem moradores permanentes
Pagan está localizada no extremo norte do arquipélago das Ilhas Marianas do Norte, em uma região sem qualquer ligação regular por avião, helicóptero ou embarcação comercial. O acesso depende exclusivamente de barcos de pesca e de condições climáticas favoráveis, o que torna a chegada incerta e, muitas vezes, inviável.
A equipe do Yes Theory levou mais de dois dias para alcançar uma ilha intermediária, onde ficou retida após a embarcação ficar sem combustível em mar aberto. Apenas após a chegada de outro navio, que navegou por cerca de 22 horas levando suprimentos, foi possível retomar a jornada.
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A dificuldade de acesso ajuda a explicar por que Pagan permanece praticamente abandonada. Após grandes erupções vulcânicas, especialmente em 1981, a população foi evacuada e nunca mais retornou de forma permanente, deixando para trás casas, igrejas, estruturas públicas e animais.
Desde então, a ilha passou a ser ocupada apenas de forma temporária por funcionários públicos ou pesquisadores. Em determinados períodos, chega a ficar completamente vazia, reforçando seu status de um dos pontos habitados mais isolados sob jurisdição dos Estados Unidos.
Jordan, o morador que permaneceu após a evacuação
No momento da chegada dos aventureiros, apenas duas pessoas estavam em Pagan. Uma delas era Joe, funcionário ligado à administração local, presente desde março para manutenção básica das estruturas remanescentes. A outra era Jordan, conhecido como “jungle boy”.
Jordan vive em Pagan há cerca de cinco anos de forma contínua. Antes disso, passou aproximadamente sete anos isolado em outra ilha da região. Ele afirma ter escolhido permanecer longe da sociedade moderna por considerar a vida no local mais simples e livre de pressões externas.
Sem conta bancária, telefone celular ou acesso à internet, Jordan sobrevive da pesca, da caça, da coleta de alimentos e da criação de animais que se tornaram selvagens após décadas sem manejo humano. Eventuais trocas com visitantes são usadas para obter suprimentos básicos.
Segundo ele, a decisão de viver ali está ligada à herança cultural do povo chamorro, grupo indígena que habita as Ilhas Marianas há milhares de anos. Jordan afirma ter aprendido técnicas de sobrevivência com o avô e com anciãos desde a infância.
Um território moldado por erupções, cinzas e lava recente
Pagan é um vulcão ativo. A equipe registrou campos extensos de lava solidificada e áreas cobertas por cinzas provenientes da última erupção, ocorrida em 2021. O material vulcânico, segundo Jordan, fertilizou o solo e acelerou o crescimento da vegetação.
A ilha apresenta paisagens contrastantes. Em poucos quilômetros, é possível atravessar praias, campos abertos, áreas de lava endurecida, florestas densas e regiões que lembram florestas temperadas, algo incomum para ilhas tropicais do Pacífico.
Jordan relatou que, em determinados períodos, é possível sentir tremores no solo e ouvir sons vindos do interior do vulcão. Ele afirma estar sempre preparado para uma eventual evacuação, apesar de preferir permanecer no local.
A equipe caminhou descalça por trilhas usadas por Jordan, passando por formações criadas por antigas erupções. Em diversos pontos, o relevo acidentado evidencia como a atividade vulcânica continua sendo um fator central na dinâmica da ilha.
Animais ferais e riscos constantes fora da rota turística
Após a evacuação de 1981, moradores deixaram para trás bois, vacas e porcos. Sem controle humano, esses animais se reproduziram e se tornaram ferais. Hoje, circulam livremente pela ilha e representam um dos principais riscos aos visitantes.
Durante as caminhadas, a equipe encontrou bois de grande porte e javalis em trilhas estreitas. Jordan explicou que esses animais podem atacar caso se sintam ameaçados, sendo comum a necessidade de subir em árvores para evitar confrontos.
Além dos animais, a ausência de infraestrutura básica amplia os riscos. Não há hospitais, estradas pavimentadas ou comunicação regular com outras ilhas. Qualquer emergência médica depende de resgates demorados e altamente condicionados ao clima.
Mesmo assim, Jordan se desloca pela ilha descalço, incluindo áreas de lava afiada e floresta fechada. Ele afirma ter aprendido desde criança a interpretar o terreno e a reconhecer sinais de perigo no ambiente natural.
Vestígios da Segunda Guerra Mundial espalhados pela vegetação
Outro elemento central da expedição foi a presença de estruturas da Segunda Guerra Mundial. Pagan integrou o sistema defensivo japonês no Pacífico e foi palco de ocupação militar antes da retomada americana.
A equipe encontrou bunkers, túneis, canhões, aviões abatidos e ruínas de prisões usadas durante o conflito. Segundo Jordan, indígenas chamorros foram forçados a trabalhar nessas estruturas durante a ocupação japonesa.
Esses vestígios permanecem espalhados pela ilha, muitos deles parcialmente engolidos pela vegetação ou cobertos por cinzas vulcânicas. Não há sinalização, proteção ou conservação formal desses sítios históricos.
A presença desses restos de guerra reforça o caráter singular de Pagan, onde camadas de história militar, cultura indígena e forças naturais coexistem sem mediação institucional constante.
Isolamento físico, mas ausência de solidão declarada
Durante a convivência, Jordan afirmou não se sentir sozinho. Ele diz manter companhia constante com animais e com a própria paisagem, além de acreditar que seus ancestrais permanecem espiritualmente presentes na natureza ao redor.
Esse relato contrasta com dados citados pelos aventureiros durante a expedição. Segundo eles, nos Estados Unidos, uma em cada três pessoas afirma sentir solidão ao menos uma vez por semana, número que ultrapassa 50 milhões de indivíduos.
Em 2023, ainda segundo informações mencionadas no vídeo, o cirurgião-geral dos Estados Unidos classificou a solidão como um problema de saúde pública, comparando seu impacto ao consumo diário de 15 cigarros.
A experiência em Pagan levou a equipe a questionar a relação entre isolamento físico e bem-estar emocional, destacando que a presença constante de pessoas não impede, necessariamente, a sensação de desconexão.
Subsistência baseada em troca, pesca e conhecimento ancestral
A economia pessoal de Jordan não envolve salário fixo. Ele afirma obter recursos principalmente por meio da criação de bois, que eventualmente são trocados por suprimentos quando barcos passam pela região.
Em uma das negociações mencionadas, Jordan recebeu cerca de 100 dólares por um animal, valor que afirmou ter guardado por aproximadamente dois anos antes de repassá-lo a familiares em outra ilha.
A alimentação diária é composta por peixes, cocos, frutas silvestres e carne de animais capturados na própria ilha. Jordan também coleta plantas usadas como tempero e remédios naturais, aprendidos com os mais velhos.
Esse modelo de subsistência, segundo ele, dispensa a necessidade de dinheiro constante e reduz preocupações associadas a contas, prazos e consumo, comuns em centros urbanos.
O retorno e a travessia final sob tempestade tropical
Após dias em Pagan, a equipe iniciou o retorno enfrentando novas dificuldades. O trajeto, inicialmente estimado em cerca de oito horas, acabou se estendendo por aproximadamente 18 horas devido à formação de uma tempestade tropical.
A embarcação enfrentou mar agitado e condições adversas até chegar ao destino final por volta das quatro horas da manhã. O episódio reforçou a imprevisibilidade das viagens na região.
Para os integrantes do Yes Theory, a experiência em Pagan representou um dos projetos mais complexos já realizados pelo canal, tanto do ponto de vista logístico quanto humano.
A jornada foi registrada como parte de uma série dedicada a explorar histórias pouco visíveis do planeta, priorizando locais e pessoas fora dos circuitos tradicionais de mídia e turismo.
Uma ilha abandonada que expõe limites da modernidade
A história de Pagan evidencia a existência de territórios oficialmente pertencentes a potências modernas, mas que permanecem à margem de infraestrutura, serviços e presença estatal contínua.
A permanência de Jordan no local funciona como um elo entre o passado indígena, a história militar e um presente marcado pelo abandono institucional e pela força da natureza.
Ao documentar essa realidade, o Yes Theory apresentou um retrato raro de como tradições, isolamento e escolhas individuais continuam moldando vidas em pleno século XXI.
A expedição levanta questionamentos sobre o que se perde com o afastamento da natureza e do conhecimento tradicional, e sobre como sociedades modernas lidam com territórios considerados periféricos.
Desculpe mas lem li o artigo.
Pra quê procurar alguém que, de sã consciência optou por viver isolado ?
Deixe o cara quieto !
É como uma árvore centenária que o editor fez questão de não dizer sua localização para preservar sua integridade.
Obrigado
Incrível essa reportagem! Amei saber q ainda existem pessoas q se amoldam à vida simples em contato coma natureza!