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Em Huoi Ha, uma aldeia isolada no noroeste do Vietnã, pais colocam os filhos dentro de sacolas de nylon e nadam com eles por um rio em cheia para que cheguem secos à escola; depois da travessia, as crianças ainda caminham 5 horas por 15 km de trilhas na selva até o internato

Escrito por Noel Budeguer
Publicado el 07/02/2026 a las 16:43
Actualizado el 07/02/2026 a las 16:45
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Mais de 50 crianças dependem de sacolas plásticas para cruzar o rio Nam Chim durante as monções no Vietnã, porque pontes de bambu são destruídas todos os anos, jangadas viram na correnteza e o governo levou décadas para prometer uma ponte que ainda não se sabe se foi concluída

Em uma aldeia isolada no noroeste do Vietnã, pais desesperados encontraram uma solução tão engenhosa quanto perigosa para que seus filhos não perdessem um único dia de aula: colocá‑los dentro de grandes sacolas de nylon e nadar com eles através de um rio em cheia. A história comoveu o mundo e escancarou o abismo de infraestrutura que separa milhões de crianças do seu direito básico à educação.

Uma aldeia isolada nas montanhas de Dien Bien

Huoi Ha (Huổi Hạ) é uma pequena aldeia localizada na comuna de Na Sang, distrito de Muong Cha, província de Dien Bien, no extremo noroeste do Vietnã, próxima à fronteira com o Laos. Trata‑se de uma região montanhosa, remota e de difícil acesso, onde a etnia predominante é a Hmong, uma das comunidades mais pobres do país.

A vida cotidiana em Huoi Ha é moldada pela geografia: o rio Nam Chim, afluente do Nam Ma, separa a aldeia das escolas e de serviços básicos como mercados, postos de saúde e estradas melhores. Na estação seca, os moradores atravessam o rio por meio de pontes de bambu improvisadas ou jangadas simples construídas com materiais locais. Mas, quando chega a temporada de chuvas, tudo muda.

Quando o rio se torna inimigo

As chuvas de monção transformam o Nam Chim em um turbilhão de água barrenta, com correntezas fortes e imprevisíveis. As frágeis pontes de bambu ficam submersas ou são levadas pela força da água, e as jangadas deixam de ser uma opção segura, já que a corrente pode virá‑las com facilidade.

Mesmo assim, as famílias se recusam a deixar que as crianças faltem à escola. Elas sabem que a educação é, muitas vezes, a única saída possível da pobreza extrema. Diante do perigo real de tentar atravessar o rio a nado ou em balsas instáveis, os moradores precisaram ser criativos.

A solução: sacolas de nylon e homens experientes no rio

Sem alternativas seguras, os pais de Huoi Ha criaram um método extraordinário: envolver as crianças dentro de grandes sacolas de nylon — do tipo usado para transportar cargas pesadas — e atravessar o rio nadando, empurrando ou puxando essas sacolas como se fossem boias.

O processo funciona da seguinte forma:

  1. A criança entra na sacola com sua mochila e materiais escolares.
  2. A sacola é fechada de forma a manter uma bolsa de ar em seu interior, para que fique flutuando.
  3. Um adulto — geralmente um homem forte e acostumado ao rio — segura a sacola e nada através da correnteza até a outra margem.
  4. O procedimento é repetido, uma criança por vez, até que todos tenham cruzado.

Em épocas de cheia, mais de cinquenta alunos da aldeia dependiam desse método para chegar à escola. As crianças aguardavam sua vez com medo, mas também com determinação, observando os colegas sendo “embalados” e levados pela água.

Video de YouTube

Cinco horas de caminhada depois do rio

O cruzar do rio é apenas o início da jornada. Ao chegar à outra margem, as crianças e os familiares que as acompanham ainda precisam caminhar por cerca de cinco horas, em trilhas de floresta íngremes e escorregadias, percorrendo aproximadamente 15 quilômetros até a escola de ensino fundamental em regime de internato em Na Sang.

Por causa da distância e da dificuldade do trajeto, os alunos ficam alojados na escola durante toda a semana, retornando para casa apenas nos fins de semana. A cada segunda‑feira, o ciclo se repete: sacola plástica, travessia arriscada e longa caminhada até a sala de aula.

As vozes de uma comunidade que pede socorro

Lideranças locais e educadores têm sido claros ao descrever a situação. O chefe da aldeia de Huoi Ha, por exemplo, descreveu o trecho do rio como extremamente perigoso e afirmou que, embora o uso de balsas fosse a solução tradicional, o aumento do nível da água tornara isso inviável, restando basicamente a alternativa das sacolas.

A diretora da escola internato de Na Sang destacou que dezenas de alunos vêm justamente de Huoi Ha e que professores e pais fazem o possível para garantir a presença das crianças nas aulas, apesar das enormes dificuldades. Tanto as lideranças da aldeia quanto da escola insistem na mesma reivindicação: que o Estado invista em um ponte segura e permanente, capaz de resistir às chuvas e de garantir um caminho minimamente digno para os estudantes.

Autoridades distritais também reconhecem o perigo, mas muitos moradores argumentam que, na prática, não há outra opção: a mesma força da água que pode virar uma jangada também pode arrastar uma pessoa tentando atravessar a nado.

A história se torna viral e comove o mundo

A história de Huoi Ha foi inicialmente contada pela imprensa vietnamita, em reportagens que incluíam fotos e vídeos dos pais carregando os filhos dentro das sacolas pelo rio. As imagens rapidamente se espalharam pelas redes sociais e foram republicadas por veículos de vários países.

Milhares de comentários elogiaram a coragem dos pais e a determinação das crianças, ao mesmo tempo em que criticaram a falta de infraestrutura básica. A cena do pai atravessando um rio furioso com o filho “embrulhado” em uma sacola plástica tornou‑se um símbolo tanto da importância da educação quanto do abandono a que estão submetidas muitas comunidades rurais.

A resposta do governo e a luta por um ponte

Com a repercussão internacional, o Ministério dos Transportes do Vietnã determinou que autoridades rodoviárias e locais avaliassem a situação na região e estudassem soluções de infraestrutura, incluindo a construção de pontes suspensas mais resistentes.

Em áreas próximas, como a aldeia de Sam Lang, também na província de Dien Bien, já havia sido construído um ponte para substituir travessias perigosas em rios de correnteza forte, embora enchentes posteriores tenham mostrado que obras na região precisam ser planejadas para resistir a condições climáticas extremas.

No caso específico de Huoi Ha, relatos mais recentes de moradores e internautas sugerem que melhorias teriam sido feitas, possivelmente com a construção de uma travessia mais segura. Ainda assim, a história permanece como um alerta sobre o quanto comunidades isoladas podem ficar à margem de políticas públicas essenciais.

Um problema que ultrapassa uma aldeia

O episódio de Huoi Ha não é um caso isolado. Outros vilarejos da mesma província e de regiões montanhosas do norte do Vietnã enfrentam desafios parecidos: rios perigosos, estradas precárias, longas distâncias e ausência de pontes, o que torna o acesso à escola uma verdadeira prova de resistência física e emocional.

Em muitos desses lugares, crianças caminham horas por dia, sob chuva ou frio, em terrenos íngremes, e as famílias precisam escolher entre o risco diário de travessias perigosas e a possibilidade de ver seus filhos sem estudo.

Uma lição de determinação e um apelo à responsabilidade

A imagem de uma criança dentro de uma sacola plástica para chegar à escola sintetiza duas dimensões opostas da realidade: de um lado, a determinação extraordinária de famílias que fazem tudo o que está ao seu alcance para garantir educação aos filhos; de outro, a ausência de condições mínimas que qualquer governo deveria prover.

Não é uma cena de resignação, mas de resistência: diante de obstáculos extremos, essas famílias se recusam a desistir. Ao mesmo tempo, a história de Huoi Ha é um apelo direto à responsabilidade de autoridades e da comunidade internacional: nenhuma criança deveria colocar a própria vida em risco dentro de um rio em plena enchente apenas para exercer seu direito básico de aprender.

Artigo elaborado com informações verificadas da Voice of Vietnam (VOV), Bored Panda, Earthly Mission, NextShark, The Sun, Daily Mirror, World of Buzz e declarações oficiais de autoridades vietnamitas.

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Severiana
Severiana
13/02/2026 12:36

Misericórdia e muito desafiado viver assim. mas graças a Deus q eles não desiste de lutar por um futuro melhor para os filhos. Isso faz com que se torna mais forte 💪

Tânia
Tânia
12/02/2026 15:37

Um absurdo isso,os governantes não priorizarem a educacao das crianças e não disponibilizarem transporte adequado para o grupo de alunos. Vergonha!

tamarareisbelline@gmail.com
tamarareisbelline@gmail.com
10/02/2026 07:43

Querer fazer uma ponte ? Tem q fazer uma escola né ?!

Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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