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Em uma ilha, rodovia de só 12 km vira a mais cara do mundo após atrasos, falta de pedras, polêmicas ambientais e viaduto bilionário que liga a lugar nenhum, deixando custos totalmente fora de controle

Escrito por Carla Teles
Publicado el 28/11/2025 a las 12:16
Actualizado el 28/11/2025 a las 15:05
Em uma ilha, rodovia de só 12 km vira a mais cara do mundo após atrasos, falta de pedras, polêmicas ambientais e viaduto bilionário que liga a lugar nenhum
Na ilha de Reunião, a rodovia de só 12 km virou a rodovia mais cara do mundo, tenta substituir estrada antiga e enfrenta quedas de rochas.
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Anunciada em 2013 na ilha de Reunião, a rodovia de só 12 km sobre o mar se tornou um projeto bilionário, cercado por atrasos, disputas ambientais e um viaduto que termina no nada

A construção de uma rodovia de só 12 km em uma pequena ilha do oceano Índico tinha tudo para ser apenas mais uma obra de infraestrutura. Na prática, porém, a ilha de Reunião, território ultramarino francês com cerca de 850 mil habitantes, viu esse projeto se transformar na rodovia mais cara do mundo, com orçamento inicial de 1,6 bilhão de dólares e uma sucessão de problemas que colocaram o custo totalmente fora de controle.

Quase uma década depois do anúncio, a rodovia de só 12 km ainda não está pronta, a maior parte do valor já foi consumida e o trecho mais emblemático, um viaduto monumental sobre o mar, hoje liga a capital a lugar nenhum.

Enquanto isso, a antiga estrada continua exposta a quedas de rochas, alagamentos constantes e fechamentos frequentes, deixando claro como decisões políticas, ambientais e técnicas podem transformar uma solução viária em um caso mundial de obra problemática.

Uma ilha pequena, dois vulcões e congestionamentos gigantes

Para entender por que essa rodovia de só 12 km ganhou tanta importância, é preciso olhar primeiro para a geografia da ilha de Reunião.

O território foi moldado por dois vulcões, um deles extinto há cerca de 12 mil anos e outro considerado um dos mais ativos do mundo, o que gerou uma paisagem cheia de montanhas, vales e encostas íngremes.

Em um terreno tão acidentado e com poucas vias, o número de carros cresceu até quase um veículo para cada dois moradores, criando congestionamentos diários e tornando a ligação entre as principais cidades da ilha um problema crônico.

A combinação de relevo complicado, frota elevada e poucas alternativas de acesso transformou a mobilidade em um gargalo para a economia local, abrindo espaço para a ideia de uma grande obra costeira.

A estrada antiga: falésia, quedas de rochas e mar invadindo a pista

A ligação entre a capital administrativa da ilha e o principal centro econômico é feita por uma estrada ao pé de uma falésia, onde blocos de rocha se desprendem com frequência e atingem a pista.

Desde a década de 1980, já foram registradas 20 mortes provocadas por quedas de pedras nesse trecho, além de fechamentos prolongados que afetam diretamente o fluxo de pessoas e mercadorias.

Para piorar, a rodovia fica exposta ao mar. Durante tempestades e ciclones, ondas invadem a pista e provocam acidentes e interdições, obrigando o fechamento da estrada em média duas vezes por semana na temporada de mau tempo.

Considerando que cerca de 70 mil veículos utilizam esse trajeto diariamente, cada interrupção representa um impacto enorme na rotina da ilha e reforça a sensação de que a rodovia de só 12 km sobre o mar era uma promessa de alívio definitivo.

Como a rodovia de só 12 km virou um megaprojeto sobre o mar

Diante dos riscos, foi cogitada a construção de um dique ao lado da estrada atual, tentando bloquear as ondas. A solução, porém, não resolveria as quedas de rochas e ainda poderia causar danos ambientais em um ecossistema considerado dos mais ricos do planeta.

A alternativa escolhida foi mais ambiciosa: construir a nova rodovia de só 12 km sobre o mar, afastada entre 50 e 200 metros do penhasco e em altura suficiente para ficar fora do alcance das ondas.

O projeto previa cerca de 6,5 km em aterros avançando sobre o mar e um conjunto de viadutos, incluindo um trecho de aproximadamente 5,5 km, além de uma ligação menor entre as partes de aterro.

No papel, a nova rodovia de só 12 km eliminaria o risco de deslizamentos de rochas, reduziria as inundações e aumentaria a segurança do trajeto.

O problema era o preço: o custo por quilômetro foi estimado em 133 milhões de dólares, com orçamento total de 1,6 bilhão de dólares e previsão de obras a partir de 2014 para inauguração completa em 2021. Desde o anúncio, o projeto já nasceu com selo de rodovia mais cara do mundo.

Ventos de 140 km/h, ondas de 10 metros e um canteiro de obras extremo

Executar uma rodovia de só 12 km sobre o mar em uma região tão desafiadora não seria simples. Os ventos na área podem chegar a 140 km por hora e as ondas atingir cerca de 10 metros de altura, o que exigiu soluções especiais para fabricação e montagem das estruturas.

Foram instalados centros de produção de elementos de concreto pré-moldado em pontos distantes do local final da obra, com o transporte dos gigantescos blocos feito por grandes guindastes, gruas e balsas.

Apesar das dificuldades técnicas, o trecho de viaduto avançou de acordo com o cronograma inicial e os pilares, alguns com até 38 metros de altura, foram erguidos em profundidades de até 15 metros. Do ponto de vista de engenharia, o viaduto se tornou uma vitrine de megaconstrução em ambiente extremo.

Falta de pedras, decisões ambientais e o viaduto que leva a lugar nenhum

Na ilha de Reunião, a rodovia de só 12 km virou a rodovia mais cara do mundo, tenta substituir estrada antiga e enfrenta quedas de rochas.

Se o viaduto avançava, os problemas explodiram nos trechos em aterro. O plano original previa a abertura de uma pedreira na própria ilha para fornecer as rochas usadas na construção.

No entanto, a justiça francesa barrou a pedreira por risco de deslizamentos e destruição do habitat de espécies protegidas, travando a etapa de aterros.

Em uma tentativa improvisada, o governo chegou a pedir que agricultores locais retirassem pedras de suas propriedades para enviar ao canteiro de obras, o que não funcionou na prática.

Sem uma solução interna, a saída passou a ser estudar a importação de pedras de ilhas vizinhas como Madagascar e Maurício e, em último caso, até do Oriente Médio.

Enquanto isso, os custos subiam. O consórcio responsável pelas obras já solicitou um aditivo de cerca de 300 milhões de dólares em relação ao preço inicial.

O resultado é que, sete anos após o começo das obras, o viaduto de aproximadamente 5,4 km foi inaugurado discretamente, tendo consumido algo em torno de 1 bilhão de dólares, mas hoje ele liga a cidade de Saint-Denis a lugar nenhum.

Sem os aterros concluídos, o viaduto permanece praticamente inútil, e o governo estuda apenas uma ligação provisória com a estrada antiga para aproveitar parte do investimento.

Quando a rodovia de só 12 km fica mais cara que megaestradas brasileiras

À medida que os problemas se acumulam, a rodovia de só 12 km se torna um exemplo de como a conta pode fugir do controle.

A previsão mais recente é de que a obra só seja plenamente inaugurada por volta de 2028, com custo total estimado em 2 bilhões de dólares, o que levaria o valor por quilômetro a mais de 160 milhões de dólares.

Para efeito de comparação, a Rodovia dos Imigrantes, em São Paulo, com 21 km construídos na Serra do Mar, túneis extensos e pontes altas, custou o equivalente a 276 milhões de dólares na época. Isso significa que, com o valor utilizado em 21 km da rodovia brasileira, seria possível construir menos de 3 km da rodovia francesa.

É uma diferença tão grande que reforça a fama de rodovia mais cara do mundo para um trecho de apenas 12 km.

Financiamento francês, suspeitas e pressão política sobre o projeto

Grande parte da construção da rodovia de só 12 km na ilha de Reunião é financiada pelo CDC, um banco estatal francês voltado ao desenvolvimento. Como acontece com muitas obras públicas de grande porte, o projeto se tornou alvo de críticas e denúncias.

Veículos de imprensa na França apelidaram a ilha de “paraíso dos carros”, criticando o volume de recursos direcionado a uma região com alto número de veículos por habitante e uma obra tida como de necessidade discutível.

Há ainda acusações de corrupção e alegações de que o desenho do contrato teria favorecido determinados grupos: empresas multinacionais ficariam com a parte dos viadutos e empresas locais com os aterros, o que alimenta suspeitas de retribuição a apoios políticos.

O atual presidente regional herdou o projeto de gestões anteriores, afirma que pretende concluí-lo, mas promete fazê-lo sem desperdício de dinheiro e sem “terminar de qualquer jeito”.

Na prática, porém, a rodovia de só 12 km continua no centro de um debate entre responsabilidade fiscal, prestígio político e pressões locais por mobilidade.

Rodovia de só 12 km, meio ambiente e a pergunta que fica

Video de YouTube

Além do impacto financeiro, a rodovia de só 12 km levanta uma discussão importante sobre prioridades e sustentabilidade.

O bloqueio à pedreira local foi justificado pela proteção de espécies e pela prevenção de deslizamentos, e os defensores do meio ambiente alertam para o risco de interferir em um dos ecossistemas marinhos mais ricos do planeta.

Ao mesmo tempo, moradores e motoristas convivem com uma estrada antiga sujeita a quedas de rochas, inundações e fechamentos frequentes, o que afeta a segurança e a economia da ilha.

Entre a pressão por uma obra cara, complexa e polêmica e a manutenção de uma via perigosa, a ilha de Reunião se vê presa em um dilema difícil de resolver.

E para você, uma rodovia de só 12 km que custa bilhões e ainda não está pronta faz sentido como solução de mobilidade ou é um exemplo clássico de obra que saiu totalmente do controle?

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Carla Teles

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