Enquanto os piratas do asfalto avançam sobre ônibus e caminhões carregados do Paraguai, quadrilhas armadas escolhem trechos vazios da BR 369, usam rastreadores e bloqueadores de celular, impõem pânico aos sacoleiros e desafiam a capacidade de reação das forças de segurança em plena madrugada e dias comuns de semana inteira.
Conforme reportagem do Domingo Espetacular que foi ao ar nesse domingo, motoristas, passageiros e pequenos comerciantes que cruzam as estradas entre Foz do Iguaçu, o norte do Paraná e o interior de São Paulo convivem hoje com emboscadas cada vez mais sofisticadas. Imagens recentes, registradas na madrugada de 22 de novembro, mostram ônibus parados à força na BR 369, motoristas sob mira de armas e veículos desviados para estradas rurais isoladas. Desde 2022, investigações da Polícia Civil apontam uma escalada de organização e violência na atuação dos piratas do asfalto.
Ao mesmo tempo, delegados e policiais relatam que esses grupos criminosos se aproveitam da rota do contrabando e do descaminho para mapear alvos, rastrear veículos desde o Paraguai e agir justamente onde a presença do Estado é mais frágil: trechos sem casas, sem iluminação e, muitas vezes, sem sinal de celular. O resultado é um cenário em que o roubo de cargas se soma ao medo constante de agressões graves e até de morte nas rodovias federais e estaduais.
Estradas sob cerco: como atuam os piratas do asfalto na BR 369

Nas imagens obtidas pelo Domingo Espetacular, os piratas do asfalto aparecem montando emboscadas em plena rodovia, escolhendo pontos específicos da BR 369 na região de Mamborê, no norte do Paraná, a cerca de 130 quilômetros de Maringá.
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O alvo principal são ônibus de sacoleiros e veículos carregados com mercadorias vindas do Paraguai.
A rota descrita pelos investigadores é praticamente obrigatória para quem sai de Foz do Iguaçu rumo a São Paulo.
A BR 369 se conecta a outras rodovias, como a BR 27, formando um corredor por onde passa a maior parte das cargas de sacoleiros que tentam fugir da fiscalização.
Esse mesmo corredor se transformou em terreno ideal para os piratas do asfalto.
O ambiente favorece a ação criminosa: ao lado da pista principal, multiplicam-se estradas de chão, vicinais e acessos rurais que permitem ao grupo parar o ônibus ou caminhão, obrigar o motorista a sair da rodovia e conduzir o veículo até uma área isolada.
Longe do fluxo de carros e da presença policial, os criminosos têm tempo para revistar bagageiros, ameaçar passageiros e selecionar a carga que será levada.
Da fronteira ao interior: rastreamento começa ainda no Paraguai
As investigações apontam que a ação dos piratas do asfalto começa antes mesmo de os veículos cruzarem a fronteira.
Na avaliação da Polícia Civil, há uma rede de comunicação entre quem atua no contrabando e quem executa os roubos nas estradas.
No Paraguai, quando ônibus, caminhões ou carros são carregados com mercadorias, integrantes da rede criminal identificam os veículos e, em alguns casos, instalam rastreadores em pontos pouco visíveis da carroceria.
Assim que o transporte deixa a zona de fronteira, passa a ser monitorado à distância.
Em percursos de 200 ou 300 quilômetros, os piratas do asfalto conseguem acompanhar a localização exata do alvo até a região da BR 369.
Esse modelo cria uma espécie de “segunda camada” de crime: primeiro o contrabando e o descaminho das mercadorias, depois o roubo armado da carga por quadrilhas especializadas em interceptar os sacoleiros já em território brasileiro.
Para o delegado ouvido na reportagem, são grupos que “não têm amor à vida do próximo e, se precisar matar, vão matar”.
Tecnologia criminosa: rastreadores e bloqueadores de celular
Além do monitoramento por rastreadores, os piratas do asfalto utilizam equipamentos eletrônicos para bloquear o sinal de celular nas áreas onde cometem os assaltos.
Em trechos sem torres de telefonia, o bloqueio reforça o isolamento das vítimas, que não conseguem acionar polícia, familiares ou serviços de emergência durante a abordagem.
Segundo os investigadores, a combinação de rastreadores e bloqueadores cria uma janela de tempo crítica: enquanto o veículo é levado para uma estrada rural, os criminosos permanecem praticamente invisíveis aos sistemas de monitoramento remoto e às equipes de patrulhamento.
Esse vácuo de comunicação aumenta o poder de fogo das quadrilhas e dificulta a resposta rápida das forças de segurança.
Os relatos indicam que a atuação raramente envolve apenas um carro.
Em muitos casos, três ou quatro veículos cercam o ônibus ou caminhão, obrigando o motorista a parar.
Se o condutor hesita ou tenta fugir, é comum o uso de disparos contra o veículo para forçar a parada no acostamento.
Violência direta: ameaças, armas e roubo de cargas inteiras
Os depoimentos de vítimas reforçam o grau de violência empregado pelos piratas do asfalto.
Um motorista que voltava do Paraguai contou que, ao parar no semáforo, teve o carro fechado por criminosos armados.
Do lado do passageiro, um dos assaltantes encostou uma pistola em suas costas, obrigando-o a entregar tudo o que havia comprado, em mercadorias avaliadas em cerca de 22 mil reais.
Nos vídeos analisados pela polícia, ônibus com até 57 passageiros são levados para margens de rodovia e estradas de terra.
Os criminosos sobem na cabine, gritam ordens, exigem que o motorista siga por acessos estreitos e determinam a abertura de bagageiros específicos.
Dentro do coletivo, passageiros são ameaçados verbalmente enquanto bolsas, caixas e volumes são separados.
Essas cenas mostram que os piratas do asfalto não agem de forma improvisada.
Eles conhecem o trajeto, estudam pontos de fuga, escolhem horários com menor fluxo e contam com logística organizada para transferir rapidamente as cargas roubadas para outros veículos, que seguirão até depósitos clandestinos ou pontos de receptação em cidades próximas.
Subnotificação e medo: por que muitos crimes não viram boletim de ocorrência
Um dos entraves centrais ao combate aos piratas do asfalto é a subnotificação.
Parte das vítimas está envolvida com o transporte de mercadoria irregular, o que aumenta o receio de registrar ocorrência.
Quem perde carga fruto de contrabando tende a evitar contato com as autoridades, temendo autuação por descaminho ou outras infrações.
Delegados ressaltam que, muitas vezes, o mesmo sacoleiro que teve a carga roubada volta à estrada dias depois, com outro veículo e novas mercadorias.
Isso cria um ciclo contínuo em que os criminosos têm oferta constante de alvos com alto valor agregado e baixa probabilidade de denúncia formal.
Para as forças de segurança, o desafio é duplo: mapear a atuação dos piratas do asfalto e, ao mesmo tempo, desarticular a rede de receptadores que compram e revendem as mercadorias roubadas sem nota fiscal.
A polícia destaca que não basta prender quem executa o roubo; é necessário atingir toda a cadeia que lucra com os produtos desviados.
Resposta do Estado: integração das polícias e foco em receptação
Diante da escalada de ataques da quadrilha, Polícia Militar, Polícia Rodoviária e Polícia Federal passaram a atuar de forma integrada na região da BR 369.
As ações combinam patrulhamento ostensivo, barreiras em pontos estratégicos e operações específicas voltadas para identificação de veículos suspeitos.
Paralelamente, a Polícia Civil intensifica o trabalho de inteligência para localizar depósitos clandestinos, cruzar informações de placas, mapear rotas alternativas em estradas de terra e atingir comerciantes que recebem cargas furtadas e as colocam em circulação sem documentação fiscal.
A avaliação é clara: sem receptação, o modelo de negócio dos piratas do asfalto perde atratividade econômica.
A estratégia inclui também análise de imagens de câmeras de monitoramento, depoimentos de vítimas que aceitam colaborar e cruzamento de dados de diferentes ocorrências.
Mesmo assim, o cenário segue complexo, já que a atividade criminosa se aproveita de uma rota consolidada de contrabando e de uma geografia favorável ao ataque e à fuga rápida.
Como reduzir o risco nas rotas alvo dos piratas do asfalto
Embora a responsabilidade principal pelo enfrentamento seja do Estado, especialistas em segurança recomendam que motoristas profissionais e sacoleiros adotem medidas básicas de redução de risco nas regiões dominadas pelos piratas do asfalto.
Entre elas, planejar horários de viagem para evitar trechos mais ermos na madrugada, viajar em comboios organizados, manter contato prévio com bases policiais ao longo do trajeto e evitar paradas prolongadas em pontos isolados.
Outra orientação recorrente é registrar boletim de ocorrência sempre que possível, mesmo quando a carga tem origem em compras no Paraguai.
Para as autoridades, cada registro acrescenta uma peça ao mapa de atuação das quadrilhas, ajudando a identificar padrões de horário, locais de abordagem e evoluções na estratégia criminosa.
Na prática, porém, o medo de retaliações, a informalidade do transporte de mercadorias e a dependência econômica da rota mantêm muitos casos fora das estatísticas oficiais, o que dificulta quantificar com precisão o impacto total dos piratas do asfalto nas rodovias brasileiras.
Para você, que acompanha essa realidade de perto ou conhece alguém que cruza essas estradas, qual deveria ser a prioridade número um do poder público para enfrentar de forma efetiva os piratas do asfalto: reforço policial permanente na BR 369, ataque direto aos receptadores ou endurecimento das regras sobre o contrabando de mercadorias do Paraguai?
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