Caroço de açaí vira biocarvão: resíduo que se acumulava nas ruas da Amazônia pode melhorar solos, sequestrar carbono e reduzir dependência de fertilizantes
O caroço estava em todo lugar. Na calçada em frente às batedeiras, nas margens dos igarapés, empilhado em terrenos baldios. A cada tigela de açaí consumida no Brasil ou exportada para os Estados Unidos, Europa e Ásia, sobrava do outro lado da despolpadeira uma montanha de sementes duras sem destino certo. Em Castanhal, cidade do nordeste paraense que se tornou um dos principais centros de processamento de açaí da Amazônia, esse excedente virou parte da paisagem urbana. O problema cresceu silenciosamente à medida que o consumo da fruta aumentava no Brasil e no exterior.
Foi nesse cenário que o engenheiro agrônomo Moisés de Souza Mendonça, professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Pará (IFPA), campus Castanhal, decidiu olhar para o que muitos viam apenas como lixo. O que ele enxergou no caroço descartado não era um resíduo sem valor, mas uma matéria-prima abundante para produzir biocarvão agrícola, também conhecido como biochar, um material capaz de melhorar a fertilidade do solo e capturar carbono por longos períodos.
O insight transformou um problema urbano recorrente — o descarte de caroço de açaí — em uma oportunidade tecnológica voltada para agricultura sustentável na Amazônia.
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Produção de açaí dispara no Brasil e gera milhões de toneladas de caroço descartado
O crescimento do mercado de açaí nas últimas duas décadas ampliou a escala do problema. Segundo dados do IBGE, a produção de açaí no Brasil saltou de cerca de 6,7 milhões de toneladas em 2014 para volumes superiores a dezenas de milhões de toneladas anuais na década seguinte, impulsionada pela demanda internacional e pelo consumo urbano da fruta.
O Pará concentra aproximadamente 90% da produção nacional de açaí, sendo responsável por uma das maiores expansões econômicas recentes da fruticultura amazônica. Porém, junto com o crescimento do mercado, surgiu um passivo ambiental pouco discutido.
A estrutura do fruto explica o problema. Apenas 20% a 30% do peso do açaí corresponde à polpa consumida, enquanto 70% a 80% do peso total corresponde ao caroço, um endocarpo extremamente duro e fibroso que precisa ser descartado após a retirada da polpa.
Na prática, isso significa que para cada tonelada de açaí processado, a maior parte do volume vira resíduo sólido. Em muitos municípios amazônicos, esse material acaba sendo descartado em áreas abertas, margens de rios ou lixões improvisados. Quando acumulado em grande quantidade, o caroço de açaí pode gerar chorume, contaminar cursos d’água e comprometer igarapés urbanos.
Em cidades como Macapá, pesquisas divulgadas pela Agência BORI indicaram que mais da metade das batedeiras descartava os caroços de forma inadequada, ampliando os impactos ambientais.
Com cerca de 1,75 milhão de toneladas de açaí colhidas apenas no Pará em 2023, e considerando que aproximadamente 85% desse volume vira resíduo, o total de caroços descartados anualmente na Amazônia alcança uma escala gigantesca.
A pesquisadora Lina Bufalino, da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA), descreve o fenômeno como um passivo ambiental ainda sem destinação adequada em muitas áreas urbanas da região amazônica.
Forno simples com tambores reciclados transforma caroço de açaí em biocarvão
A solução desenvolvida por Moisés Mendonça partiu de um princípio simples: criar uma tecnologia acessível para agricultores familiares usando materiais já disponíveis nas propriedades rurais.
Durante o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciências do Solo da Unesp, campus Jaboticabal, o pesquisador percorreu rodovias do interior do Pará em busca de equipamentos que pudessem ser facilmente adaptados.
A resposta apareceu em algo extremamente comum no interior do Brasil: tambores metálicos de 200 litros descartados pela indústria e revendidos informalmente às margens das estradas.
O sistema desenvolvido utiliza dois recipientes metálicos encaixados. O tambor externo de 200 litros funciona como câmara de aquecimento. Dentro dele é colocado um tambor menor, de aproximadamente 100 litros, totalmente preenchido com caroços de açaí previamente secos.

O espaço entre os dois tambores é preenchido com resíduos de poda da própria propriedade, que funcionam como combustível para aquecimento. Quando o fogo é aceso no espaço externo, a câmara interna permanece com baixa disponibilidade de oxigênio. Nessas condições ocorre o processo de pirólise, uma decomposição térmica da biomassa que transforma o material orgânico em biocarvão.
Na primeira versão do protótipo, o processo levava cerca de 12 horas. Com ajustes realizados em parceria com produtores de um assentamento em Castanhal, o sistema foi aperfeiçoado e o tempo de produção caiu para 6 a 8 horas.
Os resultados da pesquisa foram publicados em setembro de 2024 no Journal of Environmental Management, com participação de pesquisadores da Unesp, USP/CENA, Universidade Federal do Piauí, Universidade Federal do Oeste do Pará e California State University.
Pirólise preserva carbono e nutrientes que seriam perdidos na queima comum
A diferença entre produzir biocarvão e simplesmente queimar biomassa é significativa. Na queima convencional — como em fogueiras abertas ou carvoarias tradicionais — a biomassa entra em combustão completa na presença de oxigênio. Nesse processo, quase todo o carbono é liberado na forma de dióxido de carbono.
O resíduo final é basicamente cinza, contendo apenas cerca de 2% a 3% do carbono original. Já a pirólise ocorre em ambiente com pouco oxigênio. Nesse caso, o material não entra em combustão completa, mas sofre decomposição térmica controlada.
O resultado é um carvão altamente poroso e rico em carbono estável. Estudos revisados pela revista Ciência Hoje indicam que o processo pode reter mais de 50% do carbono presente na biomassa original.
Segundo Wanderley de Melo, orientador de Mendonça na Unesp, o biocarvão preserva nutrientes importantes como fósforo, enxofre e outros elementos essenciais para fertilidade do solo — nutrientes que seriam perdidos na queima convencional.
Biochar melhora retenção de água e fertilidade em solos arenosos da Amazônia
Grande parte dos solos amazônicos apresenta baixa fertilidade natural. Apesar da exuberância da floresta, o substrato mineral costuma ser pobre, ácido e arenoso, com baixa capacidade de reter água e nutrientes.
No Pará, onde o clima alterna entre seis meses de chuvas intensas e seis meses de seca, essa característica pode gerar instabilidade na produção agrícola. O experimento publicado no Journal of Environmental Management avaliou diferentes doses de biocarvão de caroço de açaí aplicadas ao solo.
Foram testadas doses de 4, 8, 16 e 32 toneladas por hectare, com diferentes tamanhos de partículas. A cultura escolhida foi a pimenta-do-reino, uma das culturas comerciais importantes da região amazônica. Os resultados mostraram ganhos significativos no desenvolvimento das plantas.
A dose de 16 toneladas por hectare com partículas de 5 mm apresentou aumento expressivo na altura das mudas. Já a aplicação de 32 toneladas por hectare gerou melhor crescimento radicular.
O experimento também registrou aumento na capacidade de retenção de água do solo e melhora na atividade microbiana, indicadores importantes da saúde do solo.
Biocarvão também atua como tecnologia de sequestro de carbono no solo
Além de melhorar a fertilidade, o biochar possui outra característica importante: ele funciona como um mecanismo de sequestro de carbono de longo prazo. Diferente da matéria orgânica comum, que se decompõe rapidamente em clima tropical, o carbono pirogênico presente no biocarvão é altamente estável.
Estudos sobre a Terra Preta de Índio, solos amazônicos enriquecidos com carvão produzido por populações indígenas antigas, indicam que esse tipo de carbono pode permanecer no solo por séculos.
Isso significa que a produção de biocarvão pode atuar como tecnologia de emissão negativa, capturando carbono atmosférico e armazenando-o no solo. Ao transformar o caroço de açaí em biochar em vez de deixá-lo apodrecer ou ser queimado, o produtor rural consegue manter mais de metade do carbono da biomassa armazenado no solo.
Tecnologia aberta permite que agricultores produzam biochar com baixo custo
Uma das características mais importantes do projeto desenvolvido no IFPA é a proposta de tecnologia aberta. As patentes registradas pelo Laboratório de Bioinsumos da Amazônia são disponibilizadas como conhecimento aberto, permitindo que agricultores familiares reproduzam a tecnologia sem barreiras legais.
O assentamento em Castanhal onde o forno foi testado funcionou como laboratório social. Os próprios produtores participaram da construção do equipamento, sugeriram melhorias e ajudaram a adaptar o sistema à realidade local.
O resultado foi uma tecnologia simples, construída com materiais disponíveis na região: tambores descartados, resíduos de poda e caroços de açaí que antes eram considerados lixo.
Caroço de açaí já começa a gerar novos produtos e negócios na Amazônia
O aproveitamento do caroço de açaí começa a ganhar novos usos industriais e comerciais na Amazônia. No Amapá, a empresa Engenho Café de Açaí produz cerca de 12 toneladas mensais de bebida obtida a partir do caroço torrado, envolvendo cooperativas com aproximadamente mil famílias.

Em Castanhal, uma empresa local transforma cerca de 50 toneladas de caroço em 5 a 6 toneladas de carvão ecológico por mês, projeto que conquistou o terceiro lugar no prêmio Inova Amazônia 2024.
A Votorantim Cimentos também utiliza caroços de açaí como combustível industrial em sua unidade de Primavera, no Pará, onde 64,3% da energia utilizada em 2024 veio de resíduos. Pesquisas da UFRA estudam o uso das fibras superficiais do caroço na produção de papel e novos materiais.
Já na Universidade Federal do Pará, o projeto Sustenbio Energy desenvolveu biocombustíveis a partir do caroço com poder calorífico comparável ao de gasolina, diesel e querosene.
Um resíduo que cresce junto com o consumo global de açaí
Com cerca de 85% do peso do fruto se transformando em resíduo, o volume de caroços disponíveis cresce na mesma velocidade que o consumo global da fruta.
O que o trabalho de Moisés Mendonça demonstrou é que o ponto de partida para transformar esse passivo ambiental em recurso não exige tecnologia sofisticada. Às vezes, basta olhar para um resíduo abundante e fazer a pergunta certa.
Porque aquilo que parecia apenas lixo pode ser, na verdade, uma matéria-prima estratégica para agricultura sustentável, recuperação de solos e captura de carbono na Amazônia.
Pessoas abençoadas, Excelente, tudo que o planeta precisa, para continuar.
Apenas por curiosidade, pergunto: – Já foi pesquisado sobre o teor de gordura e proteína da amêndoa (interior do caroço do açaí) ? Assim como o resíduo da extração do óleo de dendê, (óleo de palma) é utilizado como alimento (ração) para o **** na época da seca, o caroço do açaí poderia também servir para extração de óleo e o resíduo para alimento dos rebanhos em épocas de seca.
Parabéns engenheiro, seus estudos são orientados por Deus, por isso veio essa ideia de aproveitar o caroço do açaí. Além de melhorar o meio ambiente, vai transformar e fonte de renda Que Deus te abençoe nesse projeto.
Que maravilloso, admiro muito pessoas com tanta sabedora e dedicação, parabens e infinitas saude, paz, e prosperidade