China elimina tarifas na ilha tropical de Hainan e promove o maior porto livre do mundo sob liderança de Xi Jinping.
Em um cenário de tarifas crescentes no comércio internacional, a China passou a apresentar a ilha de Hainan como o maior porto livre de comércio do mundo, apostando no fim de impostos de importação para reforçar sua imagem de abertura econômica.
A iniciativa foi impulsionada pelo governo de Xi Jinping, que busca mostrar ao mercado global uma alternativa ao protecionismo em expansão.
A estratégia ocorre em Hainan, uma ilha tropical ao sul do país, onde Pequim eliminou tarifas sobre a maior parte das importações, reduziu impostos corporativos e anunciou regras especiais para atrair empresas estrangeiras.
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A mensagem central é clara: enquanto diversas economias endurecem barreiras comerciais, a China tenta sinalizar que segue um caminho distinto, ao menos dentro dos limites geográficos de Hainan.
Ilha de Hainan vira símbolo da abertura chinesa
Localizada no litoral sul da China, a ilha de Hainan é uma província com cerca de 10 milhões de habitantes, o que representa menos de 1% da população chinesa.
Ainda assim, o governo a apresenta como um laboratório estratégico para políticas econômicas mais flexíveis.
Segundo Pequim, Hainan se tornou o maior “porto livre de comércio” do planeta após eliminar tarifas sobre a maioria dos produtos importados no mês passado.
Além disso, houve redução de impostos para empresas e pessoas físicas, reforçando o discurso de que a China está aberta a um comércio de “mão dupla” com o mundo.
Xi Jinping classificou Hainan como “uma porta de entrada significativa que conduz à abertura da China na nova era”, em uma fala amplamente divulgada pela mídia estatal.
Experimento lembra reformas do pós-Mao, mas contexto é outro
O modelo aplicado à ilha de Hainan remete ao espírito das reformas econômicas iniciadas após a morte de Mao Tsé-Tung, em 1976.
Naquele período, o Partido Comunista abandonou dogmas rígidos e passou a testar políticas de mercado em regiões específicas, ampliando depois as experiências bem-sucedidas.
No entanto, o cenário atual é bem diferente. Hoje, a China é a maior potência manufatureira do mundo e a segunda maior economia global.
Ao mesmo tempo, Xi Jinping tem reforçado o discurso de autossuficiência, defendendo que o país não dependa de insumos ou tecnologias estrangeiras.
Essa contradição levanta dúvidas sobre até que ponto a abertura de Hainan representa uma mudança estrutural na política econômica chinesa.
Ceticismo sobre expansão do modelo para o restante da China
Especialistas apontam que o alcance do experimento é limitado. Richard McGregor, pesquisador sênior do Lowy Institute, afirmou: “Não há nenhum sinal de que Hainan seja um precursor de uma abertura mais ampla e mais sistemática da economia nacional”.
Ele acrescentou que, em meio a superávits comerciais recordes, o novo papel de Hainan “tem um forte cheiro de troca de isca em termos políticos e de relações públicas”.
A avaliação reflete o entendimento de que a China mantém tarifas elevadas e políticas fortemente voltadas à exportação no restante do país.
Regras rígidas evitam vazamento de produtos sem tarifas
Apesar da propaganda de abertura, o regime de tarifas zero em Hainan é altamente controlado.
Produtos estrangeiros podem entrar livremente na ilha, mas não podem seguir para outras regiões da China sem cumprir exigências rigorosas.
Para circular no mercado continental sem tarifas, os produtos precisam ser processados em Hainan de forma a aumentar seu valor em pelo menos 30%. Caso contrário, as tarifas tradicionais são aplicadas normalmente.
No Novo Porto de Haikou, capital provincial, o que antes era um centro de transporte doméstico passou a funcionar como uma fronteira internacional.
Caminhões são inspecionados para impedir o contrabando de mercadorias livres de impostos para o restante do país.
Empresas veem oportunidades, mas com cautela
Mesmo com restrições, algumas empresas estrangeiras enxergam oportunidades. O comerciante etíope Nesredin Hussein alugou um armazém próximo a Haikou para armazenar café importado sem tarifas.
Ele pretende torrar os grãos na ilha e, depois, vendê-los em outras regiões da China sem pagar impostos adicionais.
“Para mim, isso é uma oportunidade muito boa”, disse Hussein, ao destacar que, fora de Hainan, teria de arcar com tarifas de até 30%. “Aqui a alíquota é zero”, afirmou.
Por outro lado, o empresário tailandês Kamthon Wangudom demonstrou ceticismo. Segundo ele, a China continua sendo “grande demais e complicada demais”, e o novo regime tarifário pode não ser suficiente para mudar esse cenário.
Importância estratégica supera ambições econômicas
Hainan também possui forte relevância militar. A ilha abriga uma grande base naval próxima à cidade turística de Sanya, ligada às reivindicações chinesas no Mar do Sul da China.
Durante visita em novembro, Xi Jinping reforçou que os interesses de segurança nacional devem prevalecer sobre os objetivos econômicos.
Esse fator limita o grau de liberalização possível na ilha tropical, segundo analistas.
Um teste controlado para o futuro da China
Apesar das dúvidas, alguns especialistas veem valor no projeto. Para Lauren Johnston, da New South Economics, o porto livre de Hainan permite testar políticas inovadoras em áreas como finanças, educação e impostos, “ao mesmo tempo em que protege o status quo no continente”.
Assim, a ilha de Hainan se consolida como um experimento cuidadosamente controlado. Mais do que um sinal de abertura plena, ela funciona como vitrine política da China em um mundo marcado por disputas comerciais e pelo avanço das tarifas.

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