No último dia da COP30, controvérsias sobre combustíveis fósseis dominam Belém após incêndio que paralisou negociações. Países criticam rascunho sem referências ao petróleo, gás e carvão.
A COP30 chegou ao seu último dia envolvida por tensão, controvérsia e muita frustração, principalmente em torno do petróleo. Enquanto Belém ainda contabilizava os efeitos de um incêndio que evacuou parte da estrutura da conferência, outro foco de crise — este político — tomava conta das salas de negociação.
O novo rascunho do texto final divulgado durante a madrugada pela Presidência da COP30 omitiu qualquer menção aos combustíveis fósseis, incluindo o petróleo, o que detonou reações imediatas de países e organizações da sociedade civil.
Assim, a conferência entrou em sua reta final sob pressão para revisar um documento que, segundo diversos negociadores, não reflete a urgência climática global.
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Um incêndio real em Belém e outro político no plenário
Embora as discussões sobre petróleo, transição energética e metas climáticas fossem esperadas como os grandes temas da COP30, o primeiro choque veio de forma inesperada. Um incêndio atingiu parte de um dos pavilhões da Zona Azul na tarde de quinta-feira (20). As chamas duraram apenas seis minutos, mas foram suficientes para provocar correria, fumaça intensa e suspensão imediata das negociações por cerca de cinco horas.
De acordo com o governo do Pará, 21 pessoas foram atendidas, principalmente por inalação de fumaça e crises de ansiedade. A rápida evacuação esvaziou o local e interrompeu as discussões que já caminham sob forte pressão desde o início da conferência.
Somente no início da noite as delegações retornaram, estendendo conversas até a madrugada — período no qual se tornaria público o rascunho do texto final que desencadearia uma segunda crise.
O rascunho que apagou o debate sobre combustíveis fósseis
Pouco depois da meia-noite, a Presidência da COP30, liderada pelo embaixador André Corrêa do Lago, divulgou a nova versão do chamado “Mutirão de Belém”. Para surpresa — e indignação — de diversos países, o texto saiu sem qualquer referência a combustíveis fósseis. Ou seja, ficaram de fora termos como petróleo, gás e carvão, bem como o “mapa do caminho” anteriormente proposto para orientar sua eliminação gradual.
O documento também não apresenta metas, datas ou ações concretas. Repete compromissos amplos, como proteção da Amazônia, respeito aos povos indígenas e adesão à ciência, porém sem mecanismos capazes de alterar a curva de emissões globais.
A reação foi imediata. Vinte e nove países se posicionaram ainda na madrugada, pedindo revisão urgente. Eles argumentam que a ausência total de menção aos combustíveis fósseis torna o texto incapaz de responder ao aquecimento global.
Organizações da sociedade civil reforçaram a crítica. Para cientistas que acompanham as negociações, a retirada das referências representa um retrocesso.
“Isso é uma traição à ciência e às pessoas, especialmente aos mais vulneráveis, além de totalmente incoerente com os objetivos reafirmados de limitar o aquecimento a 1,5°C”, afirmou o grupo formado por Carlos Nobre, Fatima Denton, Johan Rockström, Marina Hirota, Paulo Artaxo, Piers Forster e Thelma Krug.
Eles completam: “É impossível limitar o aquecimento a níveis que protejam as pessoas e a vida sem eliminar gradualmente os combustíveis fósseis e acabar com o desmatamento”.
Divergências históricas voltam à mesa: petróleo como ponto de ruptura
Desde o início da conferência, diplomatas reconheciam que o tema dos combustíveis fósseis poderia travar as negociações. Países como China, Índia, Arábia Saudita, Nigéria e Rússia rejeitaram qualquer menção a eliminação, redução ou transição no uso de petróleo ou gás. Propostas alternativas, como “redução progressiva”, também foram descartadas.
Nem mesmo o termo adotado na COP28 — transitioning away from fossil fuels — avançou.
O resultado foi um texto que muitos classificaram como “vazio”, “fraco” ou “dissociado da realidade científica”.
Países rejeitam rascunho e pressionam por mudanças
Após o documento se tornar público, um bloco de 29 países enviou uma carta conjunta rejeitando o rascunho. Entre eles estão França, Alemanha, Reino Unido, Espanha, Holanda, México, Colômbia, Chile e Costa Rica, além de várias pequenas ilhas altamente vulneráveis ao aumento do nível do mar.
Eles afirmam que “não podem apoiar um resultado que não inclua um roteiro para combustíveis fósseis” e pedem que a Presidência apresente nova versão. Classificam ainda o texto atual como uma proposta “de pegar ou largar”.
ONGs também reagiram. A 350.org afirmou que o rascunho “fica muito aquém da ambição necessária”. O Greenpeace chamou o texto de “praticamente inútil”, destacando que metas para 2035 estão abaixo do mínimo requerido.
“Havia esperança nas propostas iniciais dos mapas do caminho para acabar com o desmatamento e com os combustíveis fósseis, mas esses mapas desapareceram e estamos novamente perdidos, tateando no escuro enquanto o tempo se esgota”, criticou Carolina Pasquali, diretora-executiva do Greenpeace Brasil.
Tensões internas também emergem no governo brasileiro
Enquanto o debate internacional se intensificava, divergências dentro da própria equipe brasileira vieram à tona. Segundo reportagem da Bloomberg, havia receio no governo de que insistir no roteiro envolvendo combustíveis fósseis criasse impasses diplomáticos — especialmente considerando o papel do Brasil como anfitrião da COP30.
Ainda assim, a Colômbia decidiu subir o tom ao lançar a “Declaração de Belém para o fim dos combustíveis fósseis”, pressionando o Brasil e demais países a adotarem um posicionamento claro caso o texto final não avançasse.
A presença incomum de Lula e a defesa enfática do mapa do caminho
No meio desse clima tenso, o presidente Lula viajou a Belém na quarta-feira (19), um momento considerado atípico, já que as negociações ainda estavam em curso e o texto final não havia sido apresentado. Sua presença buscava reforçar a importância do plano para eliminar combustíveis fósseis.
No discurso, Lula afirmou que a COP30 seria “a melhor de todas”, ressaltou a forte participação indígena e reforçou que era necessário “começar a pensar como viver sem combustível fóssil”.
Ele lembrou ainda que as decisões precisam ser consensuais dentro da UNFCCC e que países ricos devem financiar a transição das nações mais pobres — um ponto sempre sensível nas negociações climáticas.
Enquanto aguardavam o discurso, jornalistas foram servidos com água pelo chef Saulo Jennings, que também preparou o almoço das autoridades. O gesto inusitado gerou comentários nos corredores.
Pressão internacional cresce na reta final
À medida que o último dia avançava, diplomatas de países latino-americanos, europeus e de regiões vulneráveis reforçavam que sem uma referência mínima a combustíveis fósseis, não haveria como avançar. A ausência de termos relacionados ao petróleo tornou-se o símbolo da falta de ambição do rascunho.
Para esses grupos, sem o reconhecimento explícito de que a economia global precisa se afastar do petróleo, gás e carvão, qualquer acordo político se tornaria apenas declaratório.

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