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Escavadeiras fecham valas abertas décadas atrás em áreas úmidas da Suécia, elevam o lençol freático e tentam encharcar de novo turfeiras drenadas para frear perda de carbono, conter subsidência e provar que bloquear canais artificiais pode religar a hidrologia original de uma paisagem inteira

Escrito por Bruno Teles
Publicado el 02/03/2026 a las 22:36
Escavadeiras na Suécia fecham valas em turfeiras, elevam o lençol freático e testam se a restauração hidrológica pode religar uma paisagem inteira.
Escavadeiras na Suécia fecham valas em turfeiras, elevam o lençol freático e testam se a restauração hidrológica pode religar uma paisagem inteira.
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As escavadeiras usadas na Suécia atuam sobre valas abertas desde o século XIX e aprofundadas no século XX para reumedecer turfeiras em Trollberget, elevar o lençol freático, bloquear canais artificiais e medir se o fechamento controlado desses drenos realmente recompõe a hidrologia de uma área úmida em escala de paisagem.

As escavadeiras mobilizadas na Suécia para fechar valas em Trollberget não estão apenas movendo terra. Elas atuam sobre uma rede artificial de drenagem criada ao longo de décadas para secar turfeiras e aumentar a produção em certas áreas, mas que acabou alterando o lençol freático, acelerando a perda de água e desmontando a dinâmica original de uma paisagem úmida.

No centro da intervenção está a área demonstrativa de Trollberget, onde o projeto Grip on Life, em colaboração com a proprietária Holmen e com monitoramento da SLU, decidiu testar na prática o que acontece quando valas são bloqueadas e preenchidas. A meta é simples na formulação e complexa na execução: religar a hidrologia local, frear a perda de carbono mencionada no projeto, conter subsidência e produzir evidência suficiente para decidir onde limpar, onde manter e onde fechar canais artificiais.

Como a Suécia drenou turfeiras e criou um passivo hidrológico de longa duração

Escavadeiras na Suécia fecham valas em turfeiras, elevam o lençol freático e testam se a restauração hidrológica pode religar uma paisagem inteira.

A história das valas ajuda a entender por que as escavadeiras voltaram ao terreno agora. Na Suécia, a abertura de canais começou no século XIX, primeiro para criar áreas agrícolas para uma população em crescimento.

Com o tempo, essa rede foi ampliada para melhorar a produção de feno em turfeiras e, depois, aumentar a produção florestal. No século XX, especialmente na década de 1930, o avanço da drenagem ganhou força com subsídios estatais usados durante a Grande Depressão para aliviar o desemprego.

O efeito acumulado foi imenso. Milhões de hectares de áreas úmidas foram drenados na Suécia, e embora parte dessas áreas tenha registrado maior crescimento de árvores, isso não ocorreu em todos os lugares.

O problema é que a drenagem resolveu uma demanda econômica de outra época, mas deixou um custo hidrológico permanente: água escoando mais rápido, menor capacidade de retenção na paisagem e alterações profundas em turfeiras que dependiam de saturação constante para manter sua estrutura.

Esse histórico também explica por que a decisão atual não é tratada como gesto simbólico. Desde 1986, novas drenagens exigem licença, o que mostra como o tema passou a ser regulado com mais rigor.

Em Trollberget, o debate deixou de ser apenas se uma vala ainda existe e passou a ser se ela deve continuar ativa, ser deixada sem manejo ou ser fechada pelas escavadeiras para elevar novamente o lençol freático.

A resposta varia conforme o lugar. O próprio projeto parte da ideia de que a medida correta precisa ser feita no ponto correto. Em áreas improdutivas e drenadas, como a turfeira Stormyran, bloquear valas pode ser mais coerente do que insistir na manutenção de canais artificiais.

A restauração, nesse caso, não apaga a história da drenagem, mas tenta corrigir seus efeitos onde eles já não fazem sentido econômico nem hidrológico.

O que as escavadeiras fizeram em Trollberget e por que o lençol freático virou o alvo central

Escavadeiras na Suécia fecham valas em turfeiras, elevam o lençol freático e testam se a restauração hidrológica pode religar uma paisagem inteira.

Em Trollberget, as escavadeiras foram usadas para bloquear e preencher valas abertas anteriormente em uma área úmida improdutiva.

A operação de restauração em Stormyran foi registrada em novembro de 2020 e incluiu um passo adicional importante: árvores da própria turfeira foram cortadas para reduzir a evapotranspiração e depois reaproveitadas como material de bloqueio dentro dos canais.

Não foi uma obra de grande espetáculo visual, mas uma intervenção precisa sobre a infraestrutura que drenava a água para fora da área.

O foco em elevar o lençol freático é decisivo porque ele resume o funcionamento de toda a paisagem. Enquanto as valas continuam conduzindo a água para jusante, o terreno perde capacidade de permanecer encharcado, e a turfeira deixa de operar como massa saturada.

Quando as escavadeiras fecham esses drenos, a água tende a ficar retida por mais tempo, o que pode reconstituir o comportamento hidrológico anterior e reduzir a necessidade de intervenção contínua.

Esse raciocínio é ainda mais relevante porque a água superficial e subterrânea da área escoa para o rio Vindel, integrado à rede Natura 2000 da União Europeia. Isso significa que qualquer ação com potencial de afetar espécies ou habitats protegidos exige licença específica.

Não se trata apenas de mover sedimento ou erguer pequenos barramentos, mas de intervir em uma paisagem conectada a um sistema de proteção ambiental de escala europeia.

Por isso, o experimento também tem valor de método. Ao mostrar como as escavadeiras bloqueiam valas, como o lençol freático reage e como a água passa a circular depois da intervenção, Trollberget funciona como área demonstrativa para produtores, gestores e pesquisadores.

A intenção declarada do Grip on Life é gerar conhecimento novo para que o manejo de áreas úmidas e florestais deixe de repetir fórmulas automáticas e passe a responder à condição real de cada terreno.

Como o monitoramento mede água, mercúrio e gases depois do fechamento das valas

Escavadeiras na Suécia fecham valas em turfeiras, elevam o lençol freático e testam se a restauração hidrológica pode religar uma paisagem inteira.

O projeto não ficou restrito à execução das obras. No outono de 2018, estações de medição foram instaladas para acompanhar, antes e depois dos tratamentos, os efeitos sobre qualidade da água, nível da água e mercúrio.

Além disso, estações de medição em formato V-notch foram colocadas nas saídas das microbacias para acompanhar quantidade e qualidade da água que deixa cada rede de drenagem. Sem esse desenho de monitoramento, a restauração seria apenas uma aposta; com ele, vira experimento comparável.

Trollberget foi dividido em tratamentos distintos. Uma parte recebeu bloqueio e preenchimento de valas; outra passou por limpeza de valas após corte raso; e outra permaneceu sem manejo após o corte.

Essa comparação é central porque permite observar não apenas se a restauração funciona, mas em relação a quê ela funciona melhor ou pior. O projeto quer reduzir incerteza de decisão, não apenas registrar uma melhora localizada.

A infraestrutura instalada no local também integra o Krycklan Catchment Study, uma bacia de 68 km² descrita como uma das áreas mais instrumentadas e monitoradas do mundo. Pesquisas ali são conduzidas desde a década de 1920.

Em outras palavras, as escavadeiras em Trollberget não operam em um vazio científico. Elas entram em uma paisagem onde medições de longa duração permitem conectar o fechamento de valas a mudanças no lençol freático, na descarga de água e na dinâmica química do sistema.

Ao longo do tempo, outros projetos de pesquisa passaram a usar a área para observar efeitos sobre emissões de gases de efeito estufa e outros indicadores ambientais.

Isso dialoga diretamente com a premissa central da intervenção nas turfeiras: reumedecer pode significar não apenas restaurar água no solo, mas reduzir perdas associadas à drenagem prolongada.

É por isso que o lençol freático não é um detalhe técnico; ele é o indicador que decide se a paisagem voltou ou não a funcionar como área úmida.

O que Trollberget tenta provar sobre manejo florestal e restauração em escala de paisagem

A área demonstrativa de Trollberget foi desenhada para responder a uma pergunta prática que costuma ser tratada de forma simplificada: valas devem ser limpas, deixadas em paz ou bloqueadas? Em terras florestais produtivas, a limpeza ainda pode ser usada para manter benefícios de produção.

Mas o próprio material do projeto reconhece que esse manejo pode aumentar a turbidez e transportar sedimentos para lagos e cursos d’água a jusante, agravando impactos fora do ponto de intervenção.

Já em turfeiras drenadas e improdutivas, o fechamento das valas aparece como alternativa para melhorar a qualidade da água e aumentar a capacidade de retenção hídrica da paisagem.

A decisão, portanto, não é ideológica. Ela depende de localização, produtividade, risco hidrológico e efeito a jusante.

A principal contribuição de Trollberget é justamente trocar regra fixa por evidência medida no campo.

Esse modelo interessa porque aproxima restauração e uso da terra, em vez de tratá-los como opostos absolutos. O Grip on Life reúne autoridades, associações de proprietários e organizações setoriais para combinar manejo florestal moderno com maior cuidado sobre cursos d’água e áreas úmidas.

O projeto vai de 2018 a 2025 e recebe apoio do programa ambiental LIFE IP da União Europeia, o que ajuda a dar escala institucional ao experimento.

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