Reportagem detalha como uma cidade inteira é deslocada em Kiruna, no Ártico, para permitir expansão de mina de ferro e exploração de terras raras, enquanto Europa negocia compensações, enfrenta povos indígenas e transforma a região em laboratório extremo de mineração estratégica sob pressão política europeia e disputa por minerais críticos
A realocação de Kiruna, na extremidade do Círculo Polar Ártico, sintetiza a nova fase da disputa global por minerais estratégicos. A Europa aceita deslocar uma cidade inteira para garantir minério de ferro e terras raras, enquanto a empresa estatal LKAB amplia a maior mina subterrânea de ferro do mundo e prepara a exploração do maior depósito conhecido de terras raras do continente. A operação é apresentada como peça-chave da transição energética e da autonomia mineral europeia.
Ao mesmo tempo, o projeto urbano que começou a ser desenhado em 2004 entra em fase decisiva. A antiga Kiruna está sendo desmontada prédio por prédio, com marcos como a transferência, em 20 de agosto de 2025, da igreja de 113 anos, deslocada inteira por caminhões especiais para um novo endereço três quilômetros a leste. Até 2035, a meta é concluir a migração para o novo traçado urbano, ao custo estimado de 22,5 bilhões de coroas suecas em indenizações, em um processo que afeta diretamente milhares de moradores e redesenha o mapa político e social do Ártico sueco.
Kiruna, uma cidade inteira construída sobre minério

Kiruna fica a cerca de 145 quilômetros ao norte do Círculo Polar Ártico, no extremo norte da Suécia.
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A cidade nasceu há aproximadamente 125 anos como assentamento a serviço da mineração de minério de ferro e, desde então, vive em torno da LKAB, empresa estatal que hoje responde por cerca de 80% do ferro extraído em toda a União Europeia.
Esse desenho histórico explica por que a dependência de uma única atividade econômica é tão absoluta que toda uma cidade inteira passa a ser deslocada quando o subsolo dá sinais de esgotamento estrutural.
A expansão contínua da mina subterrânea provocou afundamento do solo na área urbana antiga, obrigando a prefeitura e a LKAB a assumir que não se trata mais de obra localizada, mas de uma reconstrução completa do núcleo urbano em outro lugar.
Megamina de ferro, terras raras e disputa estratégica europeia

A mina de Kiruna é descrita como a maior mina subterrânea de minério de ferro do mundo e peça central na cadeia de produção de aço europeia.
Em 12 de janeiro de 2023, a LKAB anunciou também a descoberta, na mesma região, do maior depósito conhecido de elementos de terras raras da Europa, insumos críticos para motores elétricos, turbinas eólicas e componentes de alta tecnologia.
Esse achado elevou a pressão política sobre a região.
A União Europeia enquadrou o depósito na sua Lei de Matérias-Primas Críticas, com a meta de suprir internamente 40% da demanda anual até 2030.
Para autoridades em Bruxelas, isso reduz a dependência da China e reforça a segurança industrial do bloco.
Na prática, porém, isso significa intensificar a atividade numa área onde uma cidade inteira já está sendo sacrificada, ampliando o choque entre promessas de transição verde e impactos locais sobre moradores e povos indígenas.
Como se muda uma cidade inteira prédio por prédio
O plano de mudança começou a ser articulado em 2004, quando ficou claro que a continuidade da mina acabaria atingindo o centro urbano.
Em vez de simplesmente abandonar os bairros ameaçados, o governo local optou por reposicionar a cidade inteira cerca de três quilômetros a leste, construindo um novo centro com moradias, serviços e equipamentos públicos.
Um dos episódios mais simbólicos ocorreu em 20 de agosto de 2025, quando a igreja de Kiruna, um edifício de madeira de 113 anos e 672,4 toneladas, foi transportada inteira sobre plataformas especiais ao longo de dois dias.
A operação deu ao mundo a imagem concreta do que significa deslocar uma cidade inteira por causa do minério: templos, casas e memórias viajam em blocos, enquanto o solo antigo é progressivamente liberado para a expansão da cava subterrânea.
No total, a LKAB calcula que mais 6.000 pessoas e 2.700 residências precisarão ser realocadas nas próximas etapas, com custo estimado de 22,5 bilhões de coroas suecas em dez anos.
Os moradores recebem o valor de mercado da propriedade acrescido de 25% ou a construção de uma nova casa no traçado da nova cidade; cerca de 90% têm escolhido a segunda opção, o que reforça a percepção de que a mudança da cidade inteira deixou de ser hipótese e se tornou fato consumado.
Disputas por terra, renas e apoio do Estado
Apesar das indenizações, a operação está longe de ser consensual.
O município de Kiruna enfrenta dificuldade para obter terras consideradas edificáveis do ponto de vista administrativo.
Grande parte do território acima do Círculo Polar Ártico pertence ao Estado sueco, o que obriga a prefeitura a negociar diretamente com o governo central.
Nesse processo, surgem conflitos com distintas agendas: criação de renas e direitos do povo Sami, áreas de defesa nacional, preservação ambiental e interesses da mineração.
A realocação de uma cidade inteira, com infraestrutura, estradas e novos bairros, disputa espaço com territórios tradicionalmente usados para pastoreio e com zonas de proteção de natureza sensível.
Autoridades locais e LKAB pedem mais apoio político e financeiro da Suécia e da União Europeia para viabilizar o pacote de compensações e autorizações necessárias.
O presidente do conselho municipal, Mats Taaveniku, descreve o cenário como uma “grande disputa entre a prefeitura, a LKAB e o nosso próprio governo”, enquanto cobra que Bruxelas vá além dos discursos e participe diretamente do financiamento da transformação.
Para ele, não basta a UE reconhecer os minerais de Kiruna como críticos; é preciso assumir o custo social de deslocar uma cidade inteira em nome dessa estratégia.
Cidade nova, inverno mais duro e conforto em risco
O projeto urbano da nova Kiruna incorpora princípios de adensamento e ruas em padrão de grade, mas estudos da Universidade de Gotemburgo apontam que a área escolhida acumula ar frio e pode ser até 10 graus Celsius mais fria no inverno.
Prédios altos e ruas estreitas dificultam que o sol baixo do Ártico alcance o solo durante vários meses do ano, reduzindo ainda mais o conforto térmico.
Kiruna já é descrita como uma cidade de inverno, com estação longa de neve e temperaturas que raramente chegam a 35 graus negativos, mas podem atingir esse patamar por períodos no meio da estação fria.
Em um cenário de novo traçado urbano mais exposto ao ar frio, a combinação de ventos, sombra prolongada e termômetros abaixo de 25 graus negativos por longos intervalos tende a tornar a vida cotidiana ainda mais dura, afetando tanto moradores antigos quanto as próximas gerações que herdarão a cidade inteira deslocada.
“Vivemos dos minerais”: consentimento ou resignação coletiva?
Desde a fundação, a narrativa de Kiruna se constrói em torno da mina.
Taaveniku resume o sentimento local ao afirmar que todos na cidade sabem que, mais cedo ou mais tarde, terão de sair de suas casas, porque “vivemos dos minerais”.
Para parte da população, trata-se de um pacto pragmático: sem a LKAB, não haveria empregos, nem investimentos, nem a perspectiva de uma nova cidade reconstruída com padrão mais moderno.
Ao mesmo tempo, moradores relatam tristeza ao abandonar casas ocupadas por duas ou três gerações, bairros inteiros e paisagens que formaram a memória da região.
Pesquisadores de patrimônio arquitetônico acompanham o processo há décadas e apontam um dilema: a cidade inteira aceita se mover para garantir o futuro econômico, mas paga o preço de ver ruas, igrejas e praças originais substituídas por uma versão mais fria, mais densa e mais exposta ao planejamento corporativo e estatal.
Kiruna como símbolo da nova corrida mineral do Ártico
O caso Kiruna não é isolado. A disputa por minerais essenciais no Ártico se intensifica à medida que a transição energética avança e governos buscam alternativas ao fornecimento asiático.
Transformar uma cidade inteira em variável de ajuste de uma estratégia mineral europeia torna visível o custo real de viabilizar carros elétricos, turbinas e tecnologia de ponta sem depender de rivais geopolíticos.
Para especialistas em política de recursos naturais, o que está em jogo não é apenas a engenharia de mover uma cidade inteira, mas o modelo de decisão que coloca comunidades locais na linha de frente de sacrifícios exigidos pela economia global.
A maneira como a Suécia, a LKAB e a União Europeia administrarem compensações, conflitos com povos indígenas e impactos climáticos em Kiruna tende a se tornar referência, boa ou ruim, para outros projetos de mineração de alta intensidade no Ártico.
Diante de uma Europa disposta a deslocar uma cidade inteira para garantir minério e terras raras, na sua opinião, até que ponto faz sentido aceitar esse tipo de sacrifício local em nome da transição energética e da segurança mineral do continente?
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