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Família francesa abriu sótão selado para consertar uma goteira no telhado, encontrou pintura de 1607 atribuída a Caravaggio avaliada em €150 milhões; o Louvre recusou a compra e a obra foi vendida a um colecionador americano dois dias antes do leilão em 2019

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 03/03/2026 às 17:52
Família francesa abriu sótão selado para consertar uma goteira no telhado, encontrou pintura de 1607 atribuída a Caravaggio avaliada em €150 milhões; o Louvre recusou a compra e a obra foi vendida a um colecionador americano dois dias antes do leilão em 2019
Família francesa abriu sótão selado para consertar uma goteira no telhado, encontrou pintura de 1607 atribuída a Caravaggio avaliada em €150 milhões; o Louvre recusou a compra e a obra foi vendida a um colecionador americano dois dias antes do leilão em 2019
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Família francesa abre sótão selado para investigar goteira e encontra pintura bíblica atribuída a Caravaggio; obra passa por análise de especialistas e pode valer centenas de milhões de euros.

Em abril de 2014, uma família do sul da França subiu ao sótão da própria casa para investigar de onde vinha uma goteira no teto. O sótão estava selado há anos, para abrir era preciso forçar uma porta cujas chaves ninguém mais tinha. Lá dentro, coberta de poeira e com marcas de umidade, havia uma tela enorme encostada na parede. A família chamou um conhecido: Marc Labarbe, leiloeiro local com alguma fama na região de Toulouse. Labarbe foi ao sótão, pegou um pano úmido e passou pela superfície da tela. Sob a sujeira acumulada em mais de 150 anos, surgiu uma cena de violência bíblica: uma mulher decepando a cabeça de um general adormecido. A pintura era grande, de execução magistral, com aquele contraste brutal entre luz e sombra que parecia saltar da tela.

Labarbe tirou uma foto e enviou a Eric Turquin, o principal especialista em Velhos Mestres da França, com escritório em Paris. A resposta levaria dois anos.

A cena que desapareceu por 400 anos

Turquin reconheceu o tema imediatamente: Judith e Holofernes. A história vem do Livro de Judite, nos textos apócrifos do Antigo Testamento.

Holofernes era um general assírio enviado para destruir a cidade de Betúlia. Judite, viúva da cidade, infiltrou-se no acampamento inimigo, seduziu o general, esperou ele adormecer embriagado e decepou a cabeça dele com sua própria espada. A cidade foi salva. Judite voltou para casa com a cabeça do general numa sacola.

Caravaggio havia pintado essa cena pela primeira vez entre 1598 e 1599. Aquela tela está hoje no Palazzo Barberini, em Roma, e é uma das obras mais famosas do Barroco ocidental. Mas havia registros históricos de uma segunda versão — pintada por volta de 1607, quando o artista estava em Nápoles, foragido. Essa segunda Judite havia desaparecido por volta de 1619. Quatro séculos depois, ninguém sabia onde estava.

A tela do sótão de Toulouse media mais de dois metros de comprimento. Mesma composição. Mesma violência. Mas com diferenças técnicas e estilísticas que indicavam não ser uma cópia — e sim um original mais tardio, mais ousado, pintado por alguém que havia radicalmente mudado sua maneira de trabalhar.

Turquin passou dois anos estudando a tela em segredo absoluto. Segundo ele, a obra ficou guardada em seu próprio quarto durante parte desse período — por segurança.

O pintor que matou um homem e fugiu com a cabeça a prêmio

Para entender o que aquela tela poderia ser, é preciso entender o momento em que foi pintada e quem era o homem que provavelmente a pintou.

Michelangelo Merisi da Caravaggio nasceu em 1571, em Milão. Cresceu na pequena cidade que lhe daria o nome artístico. Chegou a Roma jovem, sem dinheiro, e passou anos fazendo trabalhos menores antes de conseguir uma grande encomenda em 1599: a decoração da Capela Contarelli, na Igreja de São Luís dos Franceses. A partir daí, sua carreira explodiu. Era o pintor mais comentado e requisitado de Roma.

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Mas Caravaggio era também um homem de temperamento explosivo, com um histórico longo de brigas, prisões e processos judiciais. Jogou um prato de alcachofras no rosto de um garçom. Quebrou janelas. Agrediu colegas. Andava armado pelas ruas da cidade e acumulava passagens pela polícia com regularidade desconcertante para um artista no auge da fama.

Em 28 de maio de 1606, tudo desmoronou. Numa briga de rua — aparentemente por causa de uma aposta não paga de dez escudos — Caravaggio matou um jovem chamado Ranuccio Tomassoni. A versão mais aceita pelos historiadores é que a intenção era feri-lo, não matá-lo, mas o ferimento foi fatal. No mesmo ano, o próprio papa Urbano VIII assinou uma sentença de morte contra o pintor: qualquer habitante dos Estados Papais estava autorizado a executá-lo em troca de recompensa.

Caravaggio fugiu de Roma naquela mesma noite. Jamais voltaria.

Quatro anos de fuga, pintando obras-primas

O exílio durou até 1610, quando Caravaggio morreu de febre à beira de uma praia em Porto Ercole, na Toscana, aos 38 anos. Naqueles quatro anos, foragido e em constante deslocamento, ele pintou algumas das obras mais extraordinárias da história da arte.

Passou por Nápoles — onde ficou protegido pela jurisdição espanhola, fora do alcance papal. Depois foi para Malta, onde chegou a ser sagrado Cavaleiro da Ordem de São João, mas acabou preso novamente após uma nova briga com um cavaleiro de alta patente. Fugiu da prisão. Foi expulso da Ordem. Continuou pintando. Sicília, Nápoles de novo, ameaças constantes.

Em Nápoles, em 1607, Caravaggio deixou dois quadros no ateliê compartilhado pelos pintores flamengos Louis Finson e Abraham Vinck. Uma carta enviada naquele mesmo ano pelo pintor Frans Pourbus ao Duque de Mântua mencionava, entre os tesouros à venda no ateliê, uma Judith e Holofernes de autoria de Caravaggio. O preço pedido era menos de trezentos ducados.

A tela não foi vendida. Finson morreu em 1617 e deixou o quadro para Vinck em testamento. Depois disso, a pintura desapareceu dos registros históricos. Por quatro séculos, ninguém soube o que havia acontecido com ela.

Abril de 2016: o anúncio que abalou o mercado de arte

Em 12 de abril de 2016, Turquin convocou uma coletiva de imprensa em Paris. A tela foi apresentada ao mundo com uma declaração direta: era o Caravaggio perdido de 1607. O especialista havia dedicado dois anos a análises técnicas, científicas e históricas.

Radiografias revelaram pentimenti — marcas de correções feitas pelo próprio artista durante a execução, algo que não faria sentido numa cópia.

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Análise de infravermelho mostrou ausência de esboços preparatórios, característica conhecida do método de trabalho de Caravaggio. O tipo de tela e a composição química das tintas eram compatíveis com outros trabalhos do período napolitano do artista.

Turquin afirmou que havia identificado na tela de Toulouse o mesmo modelo que aparece no quadro A Crucificação de Santo André (1607): uma mulher idosa com rosto profundamente enrugado e bócio visível no pescoço. Era a mesma pessoa, pintada no mesmo período, pelo mesmo artista.

O Ministério da Cultura francês, informado sobre a descoberta semanas antes, havia declarado a tela tesouro nacional ainda em março de 2016 e proibido sua exportação por 30 meses. A avaliação inicial: €120 milhões. A notícia correu o mundo em horas.

A controvérsia que não se resolveu

Nem todos concordaram. Mina Gregori, aos 95 anos a maior autoridade viva nos estudos sobre Caravaggio, declarou que a tela era obra de Louis Finson, o mesmo pintor flamengo que havia ficado com o quadro após a morte de Caravaggio. Gianni Papi, especialista em Caravaggio na Universidade de Florença, considerou que era uma segunda cópia de Finson, não um original.

Quando a tela foi exibida na Pinacoteca di Brera, em Milão, um historiador de arte renunciou ao conselho do museu em protesto pela exibição — a instituição acabou apresentando a atribuição com asterisco.

O crítico Jonathan Jones, do The Guardian, publicou uma análise detalhada demolindo a atribuição. Apontou que a iluminação da tela não correspondia a nenhum período conhecido da obra de Caravaggio, que a composição era frouxa demais para o mestre, que Judith parecia distraída demais para quem estava cometendo um assassinato.

Turquin respondeu com convicção que havia levado cinco anos estudando a obra e que nenhum crítico havia apresentado um argumento técnico conclusivo contra a atribuição. “Depois de cinco anos de análise, ninguém apresentou um contra-argumento”, disse ele. “Dizem que é impossível porque Caravaggio pintou apenas 65 telas. Para eles, a história da arte está encerrada.”

Louvre recusou. Um americano comprou

O governo francês, ao declarar a tela tesouro nacional, esperava que o Louvre aproveitasse o período de embargo para adquirir a obra para a coleção francesa. O Louvre recusou. A instituição não quis se posicionar numa disputa de autenticidade ainda não resolvida.

Em dezembro de 2018, o embargo expirou. A tela poderia agora sair da França.

Labarbe e Turquin organizaram então um leilão público para 27 de junho de 2019 — um leilão incomum, conduzido pela própria casa Labarbe em Toulouse, a mesma cidade onde o quadro havia sido encontrado.

Estimativa: entre €100 milhões e €150 milhões, sem preço mínimo de reserva. Nos meses anteriores, a tela fez uma turnê: Londres (galeria Colnaghi), Paris, Nova York, Toulouse. Estima-se que 20.000 pessoas foram vê-la.

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Dois dias antes do leilão, em 25 de junho de 2019, Labarbe e Turquin fizeram um comunicado: o leilão estava cancelado. A tela havia sido vendida em negociação privada para um comprador estrangeiro anônimo. Preço não divulgado, protegido por cláusula de confidencialidade. A identidade do comprador: também sigilosa.

No dia seguinte, o New York Times identificou o comprador: J. Tomilson Hill, ex-vice-presidente da Blackstone, membro do conselho do Metropolitan Museum of Art e fundador do Hill Art Foundation, em Nova York. Hill teria pago acima do lance inicial mínimo de €30 milhões — quanto exatamente, nunca foi confirmado. A pintura deixou a França.

O que essa história diz sobre o mercado de arte

A tela de Toulouse é, independentemente de quem a pintou, um caso exemplar de como o mercado de arte funciona e de como a incerteza em torno de uma atribuição pode movimentar fortunas.

Há no mundo cerca de 65 telas atribuídas com certeza a Caravaggio. Se a tela de Toulouse for confirmada como original, passa a ser a 66ª. Se for confirmada como obra de Finson, um pintor competente mas infinitamente menos famoso, seu valor de mercado despenca para uma fração mínima. A diferença entre as duas atribuições vale, concretamente, mais de €100 milhões.

O comprador americano se comprometeu a exibir a obra num museu importante. Até hoje, a Judith de Toulouse não apareceu em nenhuma exposição pública confirmada. A autenticidade permanece disputada. A pergunta que o sótão da família francesa abriu em 2014 ainda não tem resposta definitiva.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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