França passa a gerar mais eletricidade do que consome, reduz emissões e cria cenário favorável para eletrificação, crescimento econômico e mudança no consumo de eletricidade.
O consumo de eletricidade na França entrou em um novo ciclo. Após anos de dependência parcial da produção externa, o país passou a gerar mais eletricidade do que consome. O movimento representa uma inflexão relevante na política energética francesa e reposiciona o país no debate europeu sobre transição energética e segurança do abastecimento.
Em 2024, a produção de eletricidade registrou forte crescimento, impulsionada pela recuperação da geração nuclear e pela expansão das fontes renováveis. Como resultado, as exportações bateram recordes e a intensidade de carbono do sistema elétrico caiu a níveis historicamente baixos.
Esse novo cenário, no entanto, exige ajustes na gestão do sistema. Em diversos países europeus, o excesso de oferta tem provocado quedas abruptas nos preços da eletricidade, inclusive valores negativos em determinados períodos do dia.
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Europa convive com oferta superior à procura
O fenômeno não é exclusivo da França. A Alemanha iniciou o ano com preços negativos de eletricidade em determinados momentos. O motivo foi a instalação de capacidade solar acima do crescimento da procura dos consumidores.
Com mais oferta do que demanda, o mercado reage com distorções temporárias de preço. Esse contexto pressiona operadores e reguladores a adaptar regras e incentivar novos usos para a energia disponível.
A França, agora, passa a enfrentar desafio semelhante. Depois de quase uma década produzindo menos eletricidade do que consumia, o país inverteu essa tendência.
Produção elétrica francesa se recupera após anos de queda
O declínio da produção começou por volta de 2015. Naquele período, a redução do contributo nuclear enfraqueceu a capacidade instalada. Em seguida, a pandemia de Covid-19 agravou o cenário, atrasando manutenções e projetos estratégicos de infraestrutura.
Em 2024, esse quadro mudou. A produção nuclear voltou a patamares próximos aos observados antes da crise sanitária. Paralelamente, as energias renováveis ampliaram sua presença no sistema.
Somente no último ano, solar e eólica adicionaram cerca de 7 gigawatts à capacidade instalada. Esse avanço foi decisivo para a virada no balanço entre produção e consumo de eletricidade.
Sistema elétrico avança rumo à descarbonização
Atualmente, a eletricidade gerada na França é cerca de 95% livre de carbono. O desempenho posiciona o país entre os sistemas elétricos mais limpos da Europa.
As exportações também cresceram de forma expressiva. Em 2024, a França exportou aproximadamente 89 terawatts-hora, o maior volume já registrado.
Apesar disso, o país ainda importa cerca de 60% da energia que consome quando se considera toda a matriz energética. Segundo a RTE, operadora da rede elétrica nacional, esse desequilíbrio custa entre 50 e 70 mil milhões de euros por ano.
Combustíveis fósseis ainda pesam no consumo final
Mesmo com um setor elétrico altamente descarbonizado, os combustíveis fósseis continuam dominando o consumo energético final. Eles representam aproximadamente 60% da energia utilizada no país.
Esse dado evidencia uma diferença estrutural entre geração elétrica e consumo total de energia. Transporte, aquecimento e parte da indústria ainda dependem fortemente de fontes fósseis.
Por isso, a estratégia climática francesa estabelece como meta reduzir pela metade as emissões de gases de efeito estufa até 2035. Para isso, será necessário cortar a participação dos combustíveis fósseis para cerca de 30%.
Eficiência energética e eletrificação alteram consumo de eletricidade
Dois instrumentos foram centrais nessa estratégia. O primeiro foi o reforço das políticas de eficiência energética. O segundo, a eletrificação de setores que antes dependiam de combustíveis fósseis.
Entre 2017 e 2023, essas medidas começaram a gerar resultados concretos. O aumento dos preços da eletricidade também influenciou o comportamento dos consumidores, estimulando a redução do consumo.
Nesse período, a economia anual foi estimada em cerca de 30 terawatts-hora, contribuindo diretamente para o atual excedente de eletricidade.
Nova procura deve absorver excedente energético
Com mais eletricidade disponível, a França passou a enxergar oportunidades de acelerar a transição energética. “A França está numa posição favorável para acelerar a eletrificação”, escreveu a RTE em suas previsões para o período de 2025 a 2035.
A expectativa é que o crescimento do consumo de eletricidade venha principalmente de novas aplicações. Os veículos elétricos devem adicionar cerca de 17 TWh anuais até 2030.
Outro vetor relevante é a produção de hidrogénio verde por eletrólise, que deve elevar a demanda em aproximadamente 15 TWh. Além disso, a eletrificação de processos industriais pode acrescentar mais 13 TWh ao consumo.
Datacenters pressionam consumo nos próximos anos
A expansão das infraestruturas digitais também terá impacto significativo. Datacenters, impulsionados por serviços em nuvem e inteligência artificial, devem elevar de forma consistente o consumo de eletricidade.
Segundo projeções da RTE, o consumo desses centros deve triplicar entre 2025 e 2030. O volume pode passar de 5 para 15 terawatts-hora em apenas cinco anos.
Esse crescimento reforça a importância de planejamento para garantir estabilidade do sistema e aproveitamento eficiente da energia disponível.
Crescimento econômico e clima caminham juntos
A existência de capacidade excedentária oferece à França uma vantagem estratégica. O país reduz o dilema entre crescimento econômico e proteção ambiental.
De acordo com estimativas da RTE, uma descarbonização acelerada pode impulsionar o crescimento do Produto Interno Bruto em cerca de 1,1% ao ano.
Esse cenário explica por que o atual equilíbrio entre produção e consumo de eletricidade tem sido recebido de forma positiva tanto por economistas quanto por ambientalistas, que veem na eletrificação uma alavanca para desenvolvimento sustentável.
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