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Guepardos mumificados de até 1.800 anos são achados por cientistas em cavernas secas na Arábia Saudita, em um registro inédito de espécies extintas preservadas com olhos turvos e genética rara semelhante à de felinos da Ásia e norte da África

Escrito por Ana Alice
Publicado em 20/01/2026 às 02:05
Guepardos mumificados foram achados em cavernas da Arábia Saudita, com restos de até 1.800 anos que revelam a presença antiga da espécie. (Ahmed Boug et al./Communications Earth & Environment via AP/Divulgação)
Guepardos mumificados foram achados em cavernas da Arábia Saudita, com restos de até 1.800 anos que revelam a presença antiga da espécie. (Ahmed Boug et al./Communications Earth & Environment via AP/Divulgação)
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Restos preservados de grandes felinos foram localizados em cavernas do norte saudita e ajudam a reconstituir a presença histórica da espécie na região, hoje ausente da fauna local, além de levantar novas questões científicas sobre conservação e passado ambiental.

Pesquisadores identificaram, em cavernas do norte da Arábia Saudita, restos mortais de guepardos preservados de forma incomum, incluindo sete indivíduos com tecidos parcialmente conservados e ossos atribuídos a outros 54 animais.

Segundo o portal AP News, o material foi localizado em um conjunto de cavernas na região de Arar, próximo à fronteira com o Iraque, e fornece novos dados sobre a presença histórica da espécie em uma área onde ela não é registrada há décadas.

De acordo com o estudo, as escavações ocorreram em cavernas subterrâneas distribuídas por uma área extensa do deserto saudita.

As análises foram conduzidas por pesquisadores ligados ao Centro Nacional de Vida Selvagem da Arábia Saudita, que investigaram mais de uma centena de cavernas ao longo de dois anos de trabalho de campo.

Achados em cavernas do norte saudita

(Ahmed Boug et al./Communications Earth & Environment via AP/Divulgação)
(Ahmed Boug et al./Communications Earth & Environment via AP/Divulgação)

Durante as inspeções, os cientistas encontraram carcaças com diferentes níveis de preservação, desde ossos isolados até corpos com tecidos ressecados ainda aderidos.

Em alguns casos, os restos apresentavam olhos opacos e membros contraídos, características compatíveis com processos de mumificação natural descritos na literatura científica.

Segundo os autores do estudo, o conjunto de achados inclui indivíduos de diferentes idades, o que sugere que as cavernas foram utilizadas ao longo do tempo por mais de uma geração de guepardos.

No entanto, o trabalho ressalta que não é possível determinar, com os dados disponíveis, se o local teve uma função específica, como abrigo recorrente ou área de reprodução.

A paleontóloga Joan Madurell-Malapeira, da Universidade de Florença, que não participou da pesquisa, afirmou em entrevista: “It’s something that I’ve never seen before”.

A declaração foi feita em resposta às imagens e descrições apresentadas pelos autores do estudo.

Condições ambientais e preservação

A mumificação é definida como a preservação de corpos por interrupção ou forte desaceleração do processo de decomposição.

Embora seja mais conhecida por exemplos históricos associados ao Egito antigo, a literatura científica descreve ocorrências naturais em contextos específicos, como regiões glaciais, áreas desérticas e ambientes com pouca variação térmica.

No caso das cavernas sauditas, os pesquisadores indicam que o clima seco e a relativa estabilidade de temperatura e umidade no interior das cavidades podem ter contribuído para a conservação dos tecidos.

Ainda assim, o estudo deixa claro que não há elementos suficientes para apontar um mecanismo único responsável pelo processo.

Além do ambiente, a preservação também depende de fatores como a ausência de carniceiros e a rápida desidratação do corpo após a morte.

Segundo especialistas citados na pesquisa, essas condições são raras em mamíferos de grande porte, o que explica a escassez de achados semelhantes.

Datações e divergências de idade

As estimativas de idade dos restos variam conforme a fonte analisada.

Reportagens baseadas no estudo mencionam um intervalo que vai de cerca de 130 anos até mais de 1.800 anos para parte do material encontrado.

Já o artigo científico publicado na revista Communications Earth & Environment apresenta resultados de datação por radiocarbono que apontam uma faixa mais ampla.

De acordo com os dados calibrados, algumas amostras têm idade estimada entre aproximadamente 127 anos e mais de 4.200 anos antes do presente.

Os autores destacam que essas diferenças refletem tanto o conjunto limitado de amostras datadas quanto o uso de metodologias distintas ao longo da análise.

O estudo não afirma que todos os indivíduos encontrados pertençam ao mesmo período histórico.

Por que tantos guepardos no mesmo local

Uma das principais questões levantadas pelo trabalho diz respeito à concentração incomum de restos de guepardos em um mesmo sistema de cavernas.

Até o momento, os pesquisadores afirmam não haver evidências conclusivas que expliquem esse acúmulo.

Entre as hipóteses consideradas está a possibilidade de as cavernas terem servido como abrigo temporário ou área de criação de filhotes, prática conhecida em alguns felinos.

Essa interpretação, no entanto, é apresentada como uma possibilidade, e não como conclusão, pelos autores do estudo.

As análises de crânios e ossos permitiram identificar indivíduos adultos, subadultos e filhotes entre os restos.

Ainda assim, os próprios pesquisadores destacam que esses dados, isoladamente, não esclarecem o motivo da presença recorrente dos animais no local.

DNA antigo e implicações científicas

Além da preservação física, parte do material possibilitou a extração e análise de DNA, algo pouco comum em casos de mumificação natural de grandes felinos.

Segundo o estudo, os perfis genéticos obtidos indicam afinidade com populações modernas de guepardos da Ásia e do noroeste da África.

Os autores explicam que os exemplares mais recentes analisados se aproximam geneticamente do guepardo-asiático.

Já indivíduos mais antigos apresentam maior similaridade com populações africanas.

Esses resultados são descritos como relevantes para reconstruir a história populacional da espécie na região.

De acordo com os pesquisadores, esse tipo de informação pode contribuir, no futuro, para discussões sobre conservação e possíveis programas de reintrodução.

O estudo, porém, não propõe ações práticas nem estabelece prazos ou planos concretos nesse sentido.

Desaparecimento regional e contexto atual

Registros históricos e estudos zoológicos indicam que os guepardos já ocuparam uma área extensa da África e da Ásia.

Atualmente, a espécie vive em uma fração reduzida de sua distribuição original, estimada por especialistas em cerca de 9% da área histórica.

Na Península Arábica, não há registros confirmados de guepardos em estado selvagem há várias décadas.

Pesquisas anteriores associam esse desaparecimento a fatores como perda de habitat, pressão de caça e diminuição de presas.

Para Ahmed Al Boug, pesquisador do Centro Nacional de Vida Selvagem da Arábia Saudita e autor do estudo, a descoberta de restos tão bem preservados naquela parte do mundo é “entirely without precedent”.

A avaliação foi feita em comunicação por e-mail a jornalistas.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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