Em meio à comoção pelas mortes e ao legado público, as heranças de Cid Moreira e Zagallo viram casos de família na Justiça, com imóveis sob suspeita, testamentos questionados, irmãos divididos e mais de 10 milhões disputados, em longos inventários, perícias caras, acusações de fraude e ressentimentos quase irreconciliáveis familiares, segundo reportagem do Domingo Espetacular
As heranças deixadas por Cid Moreira e por Mário Jorge Lobo Zagallo, dois nomes históricos da TV e do futebol brasileiro, transformaram o pós-morte em campo de batalha judicial. No caso de Cid Moreira, morto em 3 de outubro de 2024, aos 97 anos, na região serrana do Rio de Janeiro, a disputa envolve testamento, heranças avaliadas em dezenas de milhões e denúncias de negócios suspeitos com imóveis.
No caso de Zagallo, que morreu em 2024 aos 92 anos, a herança superior a 10 milhões de reais foi repartida de forma desigual entre os quatro filhos, com forte concentração em favor do caçula. O resultado é um conjunto de processos, laudos periciais e acusações cruzadas que expõem como heranças milionárias podem desagregar famílias, colocar irmãos em lados opostos e tensionar os limites da lei sucessória brasileira.
Heranças de Cid Moreira: filhos deserdados, viúva única beneficiária e testamento sob suspeita

As heranças de Cid Moreira se tornaram objeto de embate direto entre os dois filhos e a viúva, Maria de Fátima Sampaio, com quem o apresentador se casou em 2006, quando tinha 79 anos e ela 36.
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O jornalista deixou dois herdeiros reconhecidos juridicamente. Rodrigo, filho biológico, nunca teve relação próxima com o pai e relata que era impedido de se aproximar nos últimos anos de vida.
Roger, sobrinho de uma ex-mulher de Cid, foi adotado e trabalhou por muito tempo com o locutor em gravações e projetos.
Segundo os filhos, as heranças começaram a ser motivo de conflito ainda em vida, quando eles afirmam ter sido afastados da convivência com o pai e dos negócios.
Rodrigo relata que não pôde se despedir nem acompanhar o enterro.
Roger afirma que, após assumir um relacionamento afetivo, perdeu um apartamento e o estúdio em que trabalhava, que teriam sido prometidos como doação e depois vendidos.
A versão da defesa de Maria de Fátima é oposta.
Os advogados alegam que o casal vivia uma relação sólida, que ela acompanhou Cid Moreira até o fim e que as ações dos filhos foram movidas por ressentimento e interesses nas heranças milionárias.
Heranças concentradas na viúva: testamento de 2024 e contestação na Justiça
O ponto mais sensível das heranças de Cid Moreira é o testamento datado de 6 de março de 2024.
Nele, todo o patrimônio, estimado entre 60 e 100 milhões de reais, foi destinado exclusivamente a Maria de Fátima.
Os filhos foram formalmente deserdados, após cinco anos de litígios em que chegaram a pedir interdição do pai e alegaram maus-tratos, cárcere privado e alimentação inadequada.
As ações foram julgadas improcedentes à época.
Especialistas lembram que, pelo direito sucessório brasileiro, parte das heranças é considerada obrigatória.
A lei determina que, havendo herdeiros necessários, como filhos, pelo menos 50 por cento do patrimônio deve ser reservado a eles, ainda que o testamento disponha de outra forma.
A deserdação não é automática. Precisa ser confirmada em juízo, com prova robusta dos motivos citados no testamento.
É justamente essa a linha de ataque da defesa de Rodrigo e Roger, que contestam a validade do documento e sustentam que a vontade real de Cid Moreira não teria sido respeitada.
Assinatura contestada e perícia grafotécnica sobre o testamento de Cid
No processo que discute as heranças, os filhos apresentaram um laudo documentoscópico que afirma haver tremores, oscilações anormais e mudanças de pressão no traço da assinatura de Cid Moreira no testamento de 2024, em comparação com o padrão histórico.
Para a perícia contratada por eles, os sinais sugerem interferência ou perda de controle motor incompatível com uma assinatura espontânea.
O advogado de Maria de Fátima rebate a tese.
Ele afirma que estava presente no ato, ao lado de outros profissionais, incluindo delegado de polícia, tabeliã e servidores com fé pública.
Segundo sua versão, o testamento que define as heranças teria seguido todos os requisitos formais, e qualquer contestação seria mera conjectura que, na prática, colocaria sob suspeita a conduta de todos os agentes presentes.
Diante do conflito de versões, o inventário permanece suspenso, aguardando decisões sobre a autenticidade do testamento e o alcance da deserdação dos filhos.
Imóveis, contratos particulares e suspeitas de dilapidação do espólio
As heranças de Cid Moreira não se resumem à discussão sobre o testamento.
Uma perícia recente, também apresentada pelos filhos, analisou operações imobiliárias realizadas em nome do apresentador e de sua viúva.
O laudo identificou pelo menos 20 imóveis em nome de Cid e apontou a existência de outros 11 que exigem apuração mais detalhada.
Segundo os peritos contratados pelos herdeiros, há fortes indícios de irregularidades nas negociações dessas heranças imobiliárias.
As conclusões apontam: uso recorrente de contratos particulares, em vez de escrituras públicas, para operações de alto valor; permutas e devoluções de imóveis com fluxos financeiros considerados atípicos; discrepância entre a capacidade financeira declarada de Maria de Fátima e o volume de patrimônio adquirido; e casos de imóveis avaliados em milhões de reais que teriam sido negociados por valores muito abaixo do mercado.
Áudios anexados ao processo mostram corretores discutindo a venda de uma casa de cerca de mil metros quadrados construída em terreno de seis mil metros, mesmo com o inventário em curso.
Em uma das conversas, o profissional afirma que a venda poderia ser “amarrada em contrato particular”, desde que o comprador aceitasse aguardar a regularização jurídica.
A defesa dos filhos sustenta que operações desse tipo poderiam reduzir as heranças sem o conhecimento dos demais interessados, motivo pelo qual levaram o caso também ao Ministério Público e à Receita Federal.
Um dos advogados chegou a afirmar que as movimentações sob análise podem se aproximar de 500 milhões de reais, valor que ainda precisa ser confirmado em apurações oficiais.
O advogado de Maria de Fátima, por sua vez, argumenta que os imóveis já estavam anunciados à venda antes da morte de Cid Moreira e que, após o falecimento, a orientação foi suspender anúncios e condicionar qualquer negociação à autorização judicial, com depósito dos valores em conta vinculada ao inventário.
Ele nega que as heranças estejam sendo dilapidadas e sustenta que a atuação da viúva respeita os limites legais.
Herança de Zagallo: vídeo em cartório, divisão desigual e irmãos em lados opostos
Se no caso de Cid Moreira as heranças aproximaram os irmãos contra a viúva, no caso de Zagallo a herança dividiu os quatro filhos em campos opostos.
A fortuna do tetracampeão, estimada em mais de 10 milhões de reais, foi repartida de forma assimétrica.
Paulo Jorge, Maria Emília e Maria Cristina ficaram com 12,5 por cento cada, enquanto o caçula, Mário César, recebeu 62,5 por cento do patrimônio.
O arranjo se baseia na regra que permite ao testador dispor livremente de 50 por cento de seus bens.
Zagallo destinou a parte obrigatória de 12,5 por cento a cada filho e alocou a metade disponível integralmente ao caçula.
Em vídeo gravado em 18 de novembro de 2016, durante a formalização do testamento diante de uma tabeliã, o ex-técnico aparece lúcido, reafirmando que o dinheiro é seu e que poderia decidir como bem entendesse.
O material foi incorporado ao processo como prova da capacidade civil e da vontade inequívoca no momento em que definiu as heranças.
Acusações de manipulação, afastamento do pai e disputa por transparência
Os três filhos mais velhos contestam a configuração das heranças e afirmam que Zagallo estaria fragilizado e sob influência do caçula.
Eles alegam que, após a morte de dona Alcina, em 2012, Mário César teria se aproximado do pai, assumido a administração de contas e passado a controlar acessos, restringindo visitas e convívio familiar.
Ex-funcionários que trabalharam décadas na casa afirmam que a esposa de Zagallo temia uma “guerra entre filhos” após sua morte e que o ambiente ficou mais tenso nos últimos anos de vida do ex-treinador.
Há ainda questionamentos sobre saques mensais considerados elevados, que ultrapassariam 60 ou 70 mil reais na “boca do caixa”.
Os filhos mais velhos alegam que não havia despesas compatíveis com esses valores e veem sinais de esvaziamento prévio das heranças.
Por isso, pedem na Justiça prestação de contas detalhada, investigação de eventuais ativos no exterior e análise completa das movimentações conduzidas por Mário César como procurador.
O advogado do caçula apresentou o vídeo de 2016 como prova central. Para especialistas ouvidos na reportagem, a gravação reforça a validade jurídica do testamento de Zagallo, já que ele aparece orientado, articulado e consciente das consequências da escolha de concentrar a fatia disponível das heranças em apenas um herdeiro.
A avaliação de juristas é que, diante desse material, a anulação do testamento é pouco provável, embora ainda caibam análises sobre a gestão do patrimônio antes da morte.
O limite da lei sucessória e o custo emocional das grandes heranças
Os dois casos expõem um ponto sensível do direito sucessório brasileiro.
Por um lado, a lei protege herdeiros necessários ao reservar metade das heranças para filhos, cônjuges ou ascendentes.
Por outro, garante ao titular o direito de direcionar os outros 50 por cento dos bens como preferir, seja para um único filho, para a viúva, para instituições ou terceiros.
Na prática, isso cria um terreno fértil para conflitos quando a partilha quebra a expectativa de igualdade entre herdeiros.
Em Cid Moreira, os filhos atacam a deserdação total e as operações com imóveis.
Em Zagallo, os irmãos mais velhos aceitam a existência de heranças substanciais, mas questionam o desequilíbrio a favor do caçula e exigem transparência sobre a gestão do dinheiro em vida.
Peritos, advogados e professores de direito alertam que disputas desse porte podem se arrastar por 20 ou 30 anos, consumindo tempo, recursos e desgastando relações familiares de forma irreversível.
Em comum, os dois inventários deixam claro que heranças milionárias raramente se limitam a números no processo.
Envolvem afetos rompidos, versões incompatíveis sobre o passado, suspeitas sobre a influência de novos cônjuges ou procuradores e o peso de decisões tomadas quando o titular já está idoso ou fragilizado.
A Justiça terá de equilibrar formalidades legais, provas periciais e a palavra de quem conviveu com Cid Moreira e Zagallo para definir o destino de patrimônios que, em vida, foram construídos ao longo de décadas de trabalho.
Até a publicação dessa matéria os casos ainda estão em andamento na justiça.
Na sua opinião, grandes heranças deveriam seguir sempre uma divisão igualitária entre filhos ou a vontade registrada em testamento deve prevalecer mesmo quando a família discorda totalmente da partilha?
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