Após a viralização, plataformas passam a vender lotes de SIM como “matéria-prima de ouro” e surgem cursos e kits para amadores; especialistas alertam que a promessa de enriquecimento rápido pode virar intoxicação, explosão e crime ambiental
Do lixo à barra de ouro: Qiao é um refinador profissional de metais preciosos que trabalha em Huizhou, na província de Guangdong, no sul da China. Em 20 de janeiro de 2026, ele publicou um vídeo em que aparece despejando pilhas de cartões SIM usados e sucata de chips de telecomunicações em tambores com produtos químicos, filtrando o material e, ao final, fundindo um lingote de ouro.
O resultado foi uma barra de cerca de 191 a 192 gramas de ouro, com valor próximo a 200.000 yuans, algo em torno de 27 a 29 mil dólares, dependendo da cotação.
As imagens, com líquidos coloridos, vapores e o brilho metálico da barra final, renderam a Qiao o apelido de “alquimista” e acumularam milhões de visualizações em poucos dias.
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Embora muitos espectadores acreditassem que o ouro vinha exclusivamente de cartões SIM, o próprio Qiao esclareceu depois que o material processado incluía quase duas toneladas de sucata eletrônica industrial, especialmente chips e componentes banhados a ouro oriundos do setor de telecomunicações.
Como funciona a extração de ouro de sucata eletrônica
A extração de ouro a partir de lixo eletrônico é um processo químico complexo, conhecido na indústria de reciclagem como refino de metais preciosos. Em linhas gerais, ele envolve quatro etapas principais:
- Preparação e trituração
Placas, chips, cartões SIM e outros componentes são separados de plásticos e partes não metálicas e depois triturados em fragmentos muito pequenos. O objetivo é expor o máximo possível das superfícies metálicas recobertas com ouro, prata ou outros metais valiosos. - Dissolução química (água régia)
A etapa mais crítica é a dissolução do ouro com uma mistura extremamente corrosiva chamada água régia, formada por ácido nítrico e ácido clorídrico concentrados. Essa solução consegue dissolver o ouro e outros metais, formando uma solução líquida carregada de íons metálicos, mas também pode liberar gases tóxicos e causar queimaduras graves em contato com a pele. - Precipitação e filtragem
Em seguida, são adicionados reagentes que fazem apenas o ouro se precipitar, formando um “lodo” ou “lama de ouro” no fundo dos recipientes. Esse resíduo é filtrado, lavado e seco, removendo impurezas, solventes e ácidos restantes. - Fusão e refino final
O pó de ouro resultante é aquecido em fornos ou cadinhos até fundir, formando uma peça sólida, como a barra exibida por Qiao. Em instalações profissionais, o refino pode ainda incluir etapas adicionais para aumentar a pureza do metal, aproximando-se de ouro quase puro.
Todo esse ciclo pode levar semanas, requer controle rigoroso de temperatura, pH e ventilação e gera resíduos perigosos que precisam de tratamento especializado para não contaminar solo, água e ar.
O mito do “ouro fácil” nos cartões SIM
A viralização do vídeo fez muita gente acreditar que basta juntar cartões SIM velhos para ficar rico, mas os números contam outra história.
- Estudos e profissionais da área estimam que um cartão SIM moderno contém menos de 0,001 grama de ouro — em muitos casos, algo na faixa de alguns miligramas ou até frações de miligrama.
- Isso implica que seriam necessários centenas de milhares de cartões (na ordem de 400.000 unidades) para chegar perto dos cerca de 191 gramas extraídos por Qiao.
- Um especialista relatou, por exemplo, que extraíu apenas 1,93 grama de ouro a partir de 9,7 quilos de cartões SIM e IC antigos, mostrando que a concentração de ouro é extremamente baixa.
Nos cartões e chips, o ouro não está em fios grossos ou camadas espessas, mas em um revestimento ultrafino sobre contatos de cobre ou níquel.
Esse recobrimento serve para evitar corrosão e garantir contato elétrico confiável, não para armazenar valor.
Em outras palavras, o “ouro dos chips” existe, mas é mais um detalhe de engenharia do que um tesouro escondido fácil de aproveitar.
Apesar disso, o vídeo de Qiao desencadeou um pequeno frenesi de compra e venda de cartões SIM usados na China.
Plataformas de revenda passaram a anunciar lotes de cartões como “matéria-prima de ouro”, e surgiram até pessoas vendendo cursos e kits de extração química para amadores.
Riscos técnicos, ambientais e legais
Especialistas alertam que tentar replicar em casa o que Qiao faz em um ambiente profissional é extremamente perigoso.
- Perigos químicos
A água régia e outros reagentes usados na extração podem liberar gases tóxicos, causar queimaduras profundas e reagir violentamente se manuseados de forma errada. Sem exaustão adequada, EPIs especializados e treinamento, o risco de intoxicação, incêndio ou explosão é real. - Resíduos perigosos
O processo gera soluções ácidas com metais pesados que não podem ser jogadas em pias, rios ou solo. Se descartados de forma incorreta, esses resíduos podem contaminar cursos d’água, envenenar ecossistemas e afetar comunidades por muito tempo. - Questões legais
Em diversos países, incluindo a China, tanto certos ácidos concentrados quanto o lixo eletrônico são rigidamente regulados. Refinar sucata eletrônica ou manipular grandes quantidades de reagentes sem licença pode resultar em multas pesadas e até prisão.
O próprio Qiao enfatizou em entrevistas e novos vídeos que o objetivo de suas postagens é mostrar o valor da reciclagem profissional de metais, não incentivar que pessoas comuns tentem “fazer ouro” na garagem.
Ele reforça que seu trabalho ocorre em ambiente industrial controlado, com equipamentos apropriados e registro junto às autoridades.
Lixo eletrônico, mineração urbana e sustentabilidade
O sucesso do “alquimista” chinês coloca em evidência um tema maior: o potencial e os riscos da chamada mineração urbana de lixo eletrônico.
Celulares, computadores, televisores, roteadores e outros aparelhos contêm pequenas quantidades de metais nobres, como ouro, prata, paládio e platina, além de cobre, alumínio e outros materiais valiosos.
Em grandes volumes, como os processados por Qiao e por empresas especializadas, esse “minério urbano” pode ser uma fonte importante de recursos, reduzindo a necessidade de mineração tradicional e ajudando a aproveitar materiais que, de outra forma, seriam descartados.
No entanto, quando essa extração é feita de forma informal ou clandestina:
- Trabalhadores ficam expostos a produtos químicos e fumos tóxicos sem proteção.
- Comunidades inteiras podem sofrer com poluição de água, solo e ar.
- A queima e o descarte incorreto de placas, cabos e plásticos emite substâncias cancerígenas e persistentes no ambiente.
Por isso, organizações ambientais e especialistas em reciclagem defendem que a recuperação de metais preciosos de lixo eletrônico seja realizada por empresas licenciadas, com tecnologia apropriada, rastreio de resíduos e fiscalização.
Paralelamente, políticas públicas que incentivem o descarte correto de aparelhos, pontos de coleta e logística reversa são fundamentais para evitar que o problema se amplie.
O que o caso ensina ao público
A história do homem que transformou sucata eletrônica em uma barra de ouro de quase 200 mil yuans é sedutora porque parece provar que “o lixo de uns é o tesouro de outros”. Mas uma leitura mais cuidadosa mostra que:
- O ouro vem de toneladas de resíduos industriais processados por um especialista, não de meia dúzia de cartões esquecidos na gaveta.
- O processo exige conhecimento técnico avançado, equipamentos adequados e autorizações legais.
- Os riscos à saúde e ao meio ambiente são significativos se a extração for feita de forma amadora.
Em vez de incentivar tentativas caseiras perigosas, o caso de Qiao pode servir como ponto de partida para discutir o valor oculto do lixo eletrônico e a necessidade de sistemas organizados de coleta e reciclagem profissional.
Ele também lembra que, em uma economia cada vez mais digital, cuidar do destino dos nossos aparelhos velhos é tão importante quanto acompanhar o lançamento do próximo modelo.

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