Imagens de satélite revelam que o iceberg A23a, que já foi três vezes maior que Nova York, apresenta lagos azul-vibrantes na superfície, sinalizando sua fragmentação definitiva no Atlântico Sul
O mega-iceberg A23a, considerado por décadas o maior bloco de gelo do planeta, entrou em sua fase final de existência ao se transformar em uma espécie de “massa azul” visível do espaço. As imagens mais recentes, captadas por satélites da NASA, revelam uma estrutura completamente diferente daquela que tornou o iceberg famoso desde os anos 1980, indicando que seu desaparecimento é apenas uma questão de tempo. A informação foi divulgada por veículos científicos internacionais com base em registros da NASA, do National Snow & Ice Data Center (NSIDC) e de pesquisadores ligados a universidades dos Estados Unidos.
Com quase 40 anos de existência, o A23a é um verdadeiro recordista entre os icebergs. Ele se desprendeu da plataforma de gelo Filchner-Ronne, na Antártida, durante o verão de 1986, tornando-se um dos icebergs mais antigos já monitorados. Durante boa parte de sua vida, manteve dimensões colossais, chegando a ser três vezes maior que a cidade de Nova York, e por diversas vezes ocupou oficialmente o posto de maior iceberg do mundo.
No entanto, imagens captadas em 26 de dezembro pelo satélite Terra, da NASA, mostram um A23a quase irreconhecível. O que antes era uma massa branca compacta agora aparece coberto por piscinas de água azul intensa, cercadas por bordas espessas de gelo branco, chamadas de ramparts, além de uma grande quantidade de fragmentos menores ao redor, evidenciando um processo acelerado de degradação estrutural.
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Um iceberg único: preso por décadas e quase imutável

Diferentemente da maioria dos icebergs, que se desprendem e rapidamente começam a se fragmentar, o A23a seguiu um caminho incomum. Logo após se separar da plataforma Filchner-Ronne, em 1986, sua base submersa ficou presa ao fundo do oceano, impedindo seu deslocamento. Como resultado, o iceberg permaneceu praticamente imóvel por mais de 30 anos, sofrendo pouquíssima redução de tamanho durante esse período.
Esse “aprisionamento” prolongado ajudou a preservar sua estrutura, fazendo com que o A23a se tornasse uma verdadeira relíquia do gelo antártico. Somente em 2020 ele finalmente se libertou do leito oceânico e iniciou sua lenta jornada para longe da Antártida, passando a ser acompanhado de perto por cientistas do mundo todo.
Na sequência, sua trajetória continuou marcada por eventos incomuns. O iceberg acabou ficando preso em um grande giro oceânico (gyre), onde permaneceu girando sobre o próprio eixo por meses. Esse comportamento chamou a atenção da comunidade científica, já que movimentos desse tipo aceleram tensões internas na estrutura do gelo.
A rota perigosa rumo à Geórgia do Sul e o início da fragmentação
Após escapar do giro oceânico em dezembro de 2024, o A23a passou a se deslocar rapidamente em direção à ilha de Geórgia do Sul, no Atlântico Sul. Esse movimento gerou preocupação entre pesquisadores, que temiam que o iceberg encalhasse novamente, dessa vez próximo à ilha, provocando impactos ecológicos severos.
A Geórgia do Sul abriga vastas colônias de pinguins, focas e aves marinhas, altamente dependentes do acesso livre ao oceano para alimentação. Um iceberg do porte do A23a poderia bloquear rotas marítimas naturais, prejudicando a sobrevivência dessas espécies. Felizmente, esse cenário extremo foi evitado.
Pouco antes de alcançar a ilha, em maio de 2025, o iceberg começou a se fragmentar de forma acelerada, quebrando-se em grandes blocos. O maior fragmento remanescente seguiu então para o norte, entrando em águas progressivamente mais quentes do Atlântico Sul, influenciadas por correntes vindas da América do Sul.
Desde então, o processo de derretimento se intensificou rapidamente.
A “massa azul” vista do espaço e o colapso estrutural final

As imagens mais recentes mostram que o A23a agora possui cerca de um terço do tamanho original. Sua superfície está coberta por lagos de degelo, conhecidos como melt ponds, que surgem quando o gelo perde sua integridade estrutural. Segundo Ted Scambos, cientista climático da Universidade do Colorado Boulder, esses lagos se alinham em faixas devido ao peso da água acumulada, que força a abertura de rachaduras internas.
Essas rachaduras, de acordo com Walter Meier, pesquisador sênior do NSIDC, seguem padrões paralelos a sulcos antigos na parte inferior do iceberg. Esses sulcos foram esculpidos ao longo de séculos de deslocamento do gelo sobre o solo, quando o A23a ainda fazia parte da plataforma Filchner-Ronne. Para o glaciologista aposentado Chris Shuman, ex-Universidade de Maryland, é impressionante que essas marcas ainda sejam visíveis após tanto tempo.
Além disso, o iceberg aparece cercado por uma área de ice mélange, uma espécie de lama cinzenta composta por pequenos fragmentos de gelo e água, que provavelmente vazaram de sua base. Centenas de mini-icebergs ao redor reforçam que o processo de desintegração está em estágio avançado.
Uma imagem adicional, captada em 27 de dezembro por um astronauta a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), sugere que as listras azul-vibrantes já começaram a desaparecer, dando lugar a uma piscina de água mais uniforme, outro sinal claro de colapso iminente.
Atualmente, não está claro quanto do A23a ainda permanece intacto ou se parte significativa já se dissolveu completamente no oceano.
Durante sua longa existência, o A23a retomou diversas vezes o título de maior iceberg do mundo, mais recentemente em junho de 2023, após a fragmentação do iceberg A-76A. Ele perdeu esse posto novamente em setembro de 2025, pouco depois do episódio envolvendo a Geórgia do Sul. Hoje, o maior iceberg do planeta é o D15A, com cerca de 1.200 milhas quadradas (3.100 km²), algumas centenas de milhas quadradas menor que o A23a em seu auge.
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