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67 anos depois, mulher usada como cobaia aos 16 anos em experimento mental secreto da CIA entra na justiça contra o hospital e a Universidade McGill

Publicado el 15/11/2025 a las 15:07
Actualizado el 15/11/2025 a las 21:47
Jovem, Experimento, CIA
Imagem: ilustração artística feita por IA
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Décadas após ser internada à força, Lana Ponting move ação coletiva contra o hospital e a Universidade McGill por participação em experimentos ilegais do projeto MK-Ultra financiado pela CIA durante a Guerra Fria

O cheiro do Instituto Memorial Allan, em Montreal, ainda permanece na memória de Lana Ponting. O local, que um dia pertenceu a um magnata escocês do setor naval, se tornou seu lar forçado por um mês em 1958. Na época, um juiz ordenou que a jovem de apenas 16 anos fosse internada por comportamento considerado “desobediente”. As informações são da BBC.

Ponting mal imaginava que seria usada como cobaia em experimentos secretos conduzidos sob o projeto MK-Ultra, da CIA.

A pesquisa, criada durante a Guerra Fria, testava drogas psicodélicas, eletrochoques e técnicas de lavagem cerebral sem o consentimento dos participantes.

Uma jovem comum levada ao inferno científico

Segundo registros médicos obtidos recentemente, Ponting havia começado a fugir de casa e a conviver com amigos que seus pais não aprovavam. Para os juízes da época, isso era suficiente para considerá-la rebelde.

Segundo a reportagem da BBC, ao chegar ao Allan, ela foi submetida a sessões de experimentação conduzidas por Ewen Cameron, pesquisador da Universidade McGill.

Cameron acreditava que poderia “reprogramar” a mente humana, destruindo memórias e comportamentos indesejados por meio de drogas, sons repetitivos e privação sensorial.

Ponting lembra de ouvir gravações sem parar, sempre com a mesma frase: “Você é uma boa menina, você é uma menina má”. Essa técnica, chamada de “direção psíquica”, buscava condicionar o subconsciente.

Drogas, eletrochoques e privação sensorial no experimento

Os documentos mostram que Ponting recebeu doses de LSD, amital sódico, desoxina e gás hilariante. Cameron registrou que, em 30 de abril de 1958, ela reagiu com violência ao óxido nitroso, gritando e se jogando da cama.

Outros pacientes também foram submetidos a longos períodos de coma induzido e privação sensorial, enquanto ouvia gravações repetitivas milhares de vezes.

De acordo com pesquisadores, o objetivo era apagar memórias e reconstruir a personalidade a partir do zero.

Mais de cem instituições nos Estados Unidos e no Canadá participaram do programa. Mas o Instituto Allan, sob comando de Cameron, se tornou o epicentro do horror.

Justiça adiada, mas não esquecida

Agora, mais de seis décadas depois, Ponting é uma das autoras de uma ação coletiva contra o Hospital Royal Victoria e a Universidade McGill.

Na quinta-feira, 13 de novembro, um juiz rejeitou o recurso do hospital, permitindo que o processo avance.

Outras vítimas já haviam buscado reparação judicial antes. Nos anos 1980, nove delas receberam indenizações de US$ 67 mil após decisão de um tribunal canadense.

Em 1992, o governo do Canadá pagou 100 mil dólares canadenses a 77 pessoas, alegando motivos “humanitários”, sem reconhecer culpa.

Ponting não foi incluída nesses acordos porque, à época, ainda desconhecia seu envolvimento. Ela só descobriu sua participação anos depois, quando teve acesso aos próprios prontuários médicos.

O experimento mental: Marcas que nunca desapareceram

Hoje, morando em Manitoba, casada e com quatro netos, Ponting afirma que ainda sofre com as consequências psicológicas do que viveu no Allan.

Ela toma medicamentos desde jovem e relata pesadelos recorrentes com os dias em que foi drogada e isolada.

Às vezes acordo gritando no meio da noite por causa do que aconteceu”, conta. Ela diz que, embora tenha conseguido reconstruir parte da vida, nunca superou o trauma.

O hospital e a universidade não comentaram o caso, citando o processo em andamento. Já o governo canadense reafirmou que o acordo de 1992 não representou admissão de culpa.

Responsabilidade ética e legado sombrio

A doutoranda Jordan Torbay, que estuda a história dos experimentos de Cameron, afirma que as vítimas buscam mais do que dinheiro: querem reconhecimento.

Segundo ela, não há dúvidas de que as práticas eram antiéticas, mesmo que Cameron não soubesse que o financiamento vinha da CIA.

O trabalho do pesquisador terminou em 1964, e ele morreu em 1967. Mas, para Torbay, isso não reduz sua responsabilidade. “Ele sabia que estava manipulando pessoas vulneráveis, e isso por si só já era inaceitável”, afirma.

Ponting vê o processo como uma chance de fechar um ciclo. “Às vezes sento na minha sala e penso em tudo o que aconteceu. Toda vez que vejo a foto de Cameron, fico com muita raiva”, desabafa.

Torbay acredita que, embora a justiça não devolva o que foi perdido, ela pode evitar que histórias semelhantes se repitam. “O sofrimento deles não pode ter sido em vão. O mundo precisa aprender com isso”, conclui.

Com informações de BBC.

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Romário Pereira de Carvalho

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