Espécie quase desconhecida, capaz de viver em estruturas sociais complexas e escavar verdadeiras cidades subterrâneas, revelou-se essencial para oxigenação do solo, retenção de água e sobrevivência de dezenas de outras espécies no deserto
O ecossistema da Terra não é sustentado apenas pelas espécies maiores, mais fortes ou mais visíveis. Pelo contrário, ele depende de uma rede complexa de organismos, muitos deles discretos, que exercem funções fundamentais para a manutenção da vida. Castores, por exemplo, constroem represas que retêm água e reduzem o risco de incêndios florestais em até três a dez vezes em regiões da Califórnia e do oeste dos Estados Unidos. Nas savanas africanas, cupins criam montes que aumentam a produtividade vegetal em até três vezes. Já nas grandes planícies da América do Norte, cães-da-pradaria mantêm o solo vivo com seus túneis, enquanto minhocas restauram terras agrícolas após cada safra.
No entanto, essa lógica não se aplica apenas a ambientes temperados ou férteis. Na Austrália, um continente que aquece mais rápido do que a média global, um pequeno réptil quase invisível aos olhos da maioria revelou-se uma peça-chave para a sobrevivência do deserto. Trata-se do Great Desert Skink, conhecido pelos povos indígenas como Tjakura, uma espécie que, apesar do tamanho modesto, exerce um impacto ambiental desproporcionalmente grande.
A informação foi divulgada por estudos de campo conduzidos por instituições australianas de pesquisa ecológica, incluindo levantamentos da CSIRO e análises recentes associadas ao Plano Nacional de Recuperação da Austrália, publicados a partir de 2022 e consolidados em relatórios de 2023.
-
A vila brasileira única onde não tem asfalto, energia elétrica quase não chega, carro não entra e a luz da Lua vira atração entre dunas e ruas de areia, chamando a atenção de mais 1,5 milhão de turistas por ano
-
Em pleno interior paulista, uma cidade que já foi lar de dinossauros chama a atenção do mundo: o «Jurassic Park» com mais de mil pegadas de dinossauro fossilizadas de 135 milhões de anos é algo realmente fascinante
-
A CIA construiu em segredo o Glomar Explorer, o maior navio de mineração do mundo, usou o bilionário Howard Hughes como fachada e tentou levantar do fundo do Pacífico, a quase 5.000 metros de profundidade, um submarino nuclear soviético de 1.700 toneladas em uma das operações mais audaciosas da Guerra Fria
-
Quanto custa construir uma casa de 100 m² em 2026
Um deserto extremo e um engenheiro improvável

O deserto australiano está entre os ambientes mais hostis do planeta. Ventos quentes levantam areia a dezenas de metros de altura, a temperatura do solo pode ultrapassar 50 °C e a precipitação anual, em algumas regiões, não chega a 20 milímetros. Quando chove, a água evapora em apenas 10 a 20 minutos. O solo é pobre em nutrientes, a vegetação é escassa e as noites podem ser extremamente frias.
Ainda assim, foi nesse cenário que o Tjakura evoluiu ao longo de milhões de anos. À primeira vista, trata-se de um lagarto comum: mede entre 35 e 45 centímetros de comprimento e pesa menos de 350 gramas, algo equivalente a uma garrafa de água. No entanto, como afirmou o pesquisador Nate Worthington, “não existe nenhum réptil tão pequeno que cause um impacto tão grande no ambiente quanto o Tjakura”.
Diferentemente da maioria dos lagartos, que seguem a lógica do crescimento rápido e da reprodução intensa, essa espécie vive entre 20 e 25 anos e gera apenas um ou dois filhotes por ano. Seu corpo robusto, escamas espessas e cauda volumosa permitem o armazenamento de energia para longos períodos de escassez. Ainda mais surpreendente é seu comportamento social: o Tjakura vive em estruturas familiares multigeracionais, com pais, filhotes e até descendentes adultos coexistindo e cooperando.
Cidades subterrâneas que mantêm o solo vivo
O lar desses lagartos não é uma simples toca, mas verdadeiras cidades subterrâneas. Um único grupo pode escavar entre 12 e 20 metros de túneis, o equivalente a um edifício de quatro a seis andares. Essas estruturas possuem múltiplas entradas, câmaras de descanso, áreas para postura de ovos e até espaços específicos para descarte de resíduos. Cientistas passaram a chamar esse sistema de “metrópole dos répteis”.
Mais importante do que a complexidade arquitetônica, porém, é a função ecológica dessas redes subterrâneas. Ao cavarem profundamente, os Tjakura levam oxigênio a camadas do solo que as raízes das plantas jamais alcançariam. Isso reativa microrganismos do subsolo, responsáveis por decompor matéria orgânica e produzir húmus.
Levantamentos mostram que áreas sem tocas de skinks apresentam níveis de oxigênio no solo entre 25% e 40% menores do que regiões onde eles estão presentes. Essa diferença é decisiva para determinar se a vegetação consegue se estabelecer ou não em um ambiente tão árido.
Além disso, os túneis funcionam como canais naturais de infiltração. Enquanto a água da chuva normalmente evapora rapidamente, nas áreas com sistemas subterrâneos ela alcança camadas profundas, formando bolsões de umidade que podem reter água por semanas ou até meses. Um estudo da CSIRO de 2022 revelou que regiões com tocas de Tjakura conseguem reter de 30% a 50% mais água do que áreas sem a espécie.
Micro-oásis, biodiversidade e efeito em cadeia
Outro efeito pouco visível, mas igualmente importante, vem dos dejetos e restos de alimento deixados pelos lagartos. Suas fezes são ricas em nitrogênio, fósforo e potássio, três nutrientes raros no solo desértico australiano. Esses pontos tornam-se os primeiros locais onde a vegetação volta a crescer, atraindo insetos, pequenos répteis e outros animais.
Pesquisadores descobriram que esses micro-oásis podem durar décadas, mesmo após o desaparecimento do animal. Além disso, as tocas abandonadas passam a servir de abrigo para pelo menos 45 outras espécies, incluindo pequenos mamíferos e até serpentes, como a píton Woma.
Apesar desse papel fundamental, a população do Greater Sandy Desert Skink entrou em declínio acentuado nas últimas décadas. A principal causa não é natural, mas resultado direto da ação humana.
Ameaças modernas e o risco de colapso do deserto
Gatos ferais e raposas vermelhas, introduzidos pelos europeus nos séculos XVIII e XIX, tornaram-se os maiores predadores da fauna nativa. Estimativas indicam que gatos selvagens matem entre 1 e 2 bilhões de animais nativos por ano, o equivalente a até 3 milhões por dia. Os répteis representam uma parcela significativa dessas perdas.
Após incêndios florestais, o cenário se torna ainda mais perigoso. Com a vegetação destruída, os túneis ficam expostos. Raposas escavam diretamente os sistemas subterrâneos, enquanto gatos aguardam nas entradas. Pesquisas no Western Desert mostraram que, após grandes incêndios, 92% das tocas deixaram de funcionar. Em áreas não queimadas, mais de 84% permaneceram ativas.
Plantas invasoras, como o capim-buffel, intensificam o problema ao transformar pequenos incêndios naturais em megaincêndios. O calor extremo pode causar o colapso dos túneis, destruir fontes de alimento e isolar grupos inteiros de lagartos. Soma-se a isso o impacto do pastoreio excessivo e do turismo off-road, que já provocaram o desmoronamento de 20% a 40% das entradas de túneis em algumas regiões monitoradas.
Conhecimento indígena, tecnologia e recuperação
Naturalmente, o colapso do deserto não é inevitável. A linha de frente da recuperação envolve os povos indígenas australianos, que convivem com o Tjakura há mais de 40 mil anos. Para eles, o animal é um guardião da Terra, figura presente nas histórias do Dreamtime e na arte tradicional.
Programas liderados por comunidades indígenas combinam conhecimento ancestral com tecnologia moderna, como GPS, drones térmicos e câmeras automáticas. Esses dados embasaram o Plano Nacional de Recuperação de 2023, que inclui cercas antipredadores, manejo tradicional do fogo e reintrodução controlada da espécie.
O sucesso de estratégias semelhantes já foi comprovado com a tartaruga-do-pântano-do-oeste, considerada extinta na natureza e recuperada após três décadas de esforços, com mais de 1.500 indivíduos reintroduzidos até 2021.
Hoje, projetos como Wild Deserts, 10 Deserts Project e Predator Free Australia mostram que restaurar o Tjakura significa reconstruir a infraestrutura do próprio deserto. Seus túneis não são apenas abrigos, mas a base para retenção de água, fertilidade do solo, controle do fogo e retorno da biodiversidade.
A história desse pequeno lagarto reforça uma lição poderosa: às vezes, não são os maiores animais que sustentam um ecossistema inteiro, mas aqueles que trabalham silenciosamente sob nossos pés.
-
3 pessoas reagiram a isso.