Estudo baseado em séries temporais inéditas de amostras de ar coletadas em estações da Antártida identifica baixa concentração de partículas nucleadoras de gelo em nuvens sobre o Oceano Antártico, fenômeno que influencia o balanço de radiação solar e o papel climático do maior deserto de gelo do planeta
A Antártida, reconhecida como o maior deserto de gelo, apresenta nuvens surpreendentemente pobres em partículas capazes de formar cristais de gelo, segundo análises de amostras de ar coletadas em postos avançados do continente, resultado que ajuda a explicar características atmosféricas únicas da região.
Escassez de partículas nucleadoras no maior deserto de gelo
Pesquisas recentes mostram que, sobre o Oceano Antártico e ao redor da Antártida, o deserto de gelo apresenta uma escassez incomum de partículas nucleadoras de gelo, conhecidas como INPs. Essas partículas são essenciais para a formação de cristais de gelo em nuvens que não atingem temperaturas suficientemente baixas.
As INPs podem incluir poeira mineral, solo transportado pelo vento, cinzas, aerossóis marinhos ou proteínas liberadas por organismos vivos. No deserto de gelo antártico, porém, cientistas identificaram concentrações surpreendentemente baixas desses elementos na atmosfera.
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Coleta de amostras e série temporal inédita
Os pesquisadores analisaram filtros de ar coletados ao longo do tempo em postos avançados na Antártida. Segundo a cientista troposférica Heike Wex, do Instituto Leibniz, na Alemanha, nunca havia sido realizada uma série temporal tão longa para determinar níveis de nucleação de gelo no continente antártico.
Wex afirma que a baixa abundância de INPs pode estar relacionada à ausência de fontes biológicas eficientes, comuns em outras regiões do globo, incluindo o Ártico durante o verão. Esse padrão reforça o caráter singular do deserto de gelo antártico em comparação a outras áreas polares.

Pre2grk/Wikimedia Commons ,
CC BY-SA 4.0 )
Extensão dos resultados para outras áreas do continente
As amostras de ar foram coletadas nas proximidades de três estações na Antártica. Apesar da cobertura limitada, os cientistas consideram que as baixas concentrações de núcleos de gelo observadas nas duas estações mais ao sul podem se estender a outras partes do deserto de gelo continental.
Os próprios autores destacam que a coleta de mais amostras seria necessária para preencher lacunas e confirmar a representatividade dos dados em escala continental, mantendo a cautela na interpretação dos resultados obtidos atè o momento.
Impacto das nuvens no balanço climático do Hemisfério Sul
A escassez de núcleos de gelo no deserto de gelo influencia diretamente o comportamento das nuvens. Com menos INPs disponíveis, maior parte da água permanece no estado líquido, embora super-resfriada, formando nuvens que refletem mais luz solar de volta ao espaço do que nuvens ricas em gelo.
Esse efeito contribui para proteger o Hemisfério Sul de parte do calor associado às mudanças climáticas. No entanto, segundo a cientista troposférica Silvia Henning, também do Instituto Leibniz, esse mecanismo pode estar ameaçado.
Henning explica que o aquecimento global pode aumentar a concentração de núcleos de gelo na Antártida, à medida que o recuo das geleiras expõe mais terra e torna a biosfera mais ativa. Esse processo pode reduzir o poder de reflexão das nuvens e intensificar um ciclo de aquecimento.
A pesquisa foi publicada na revista Geophysical Research Letters e destaca a importância de determinar o estado atual das condições atmosféricas do deserto de gelo antártico para avaliar impactos de mudanças futuras.

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