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Mais de 100 milhões de mulheres ganham dinheiro todo mês só por cuidar da casa em um dos maiores experimentos sociais do mundo, que paga donas de casa e muda eleições no país

Publicado el 15/12/2025 a las 11:10
Na Índia, mulheres ganham dinheiro todo mês por trabalho doméstico via transferência de dinheiro, fortalecendo autonomia financeira e influenciando eleições na Índia.
Na Índia, mulheres ganham dinheiro todo mês por trabalho doméstico via transferência de dinheiro, fortalecendo autonomia financeira e influenciando eleições na Índia.
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Em 12 Estados indianos, mais de 118 milhões de mulheres ganham dinheiro todo mês de forma incondicional, em valores pequenos porém regulares, num programa que reconhece o trabalho doméstico, fortalece a autonomia feminina, pressiona orçamentos públicos e já decide resultados de eleições locais estratégicas em uma sociedade patriarcal e desigual.

Em dezembro de 2025, a rotina de uma dona de casa em uma aldeia de Madhya Pradesh ajuda a explicar por que tantas mulheres ganham dinheiro todo mês na Índia só por cuidar da casa. Sem emprego formal, ela recebe do governo 1,5 mil rúpias por mês, cerca de 16 dólares, o equivalente a aproximadamente 86 reais, que usa para comprar remédios, verduras e pagar a escola do filho. O valor é modesto, mas previsível, cai direto na conta bancária dela e lhe dá a sensação concreta de controle e independência.

Essa mesma lógica se espalhou em poucos anos. Desde o primeiro programa estadual em Goa, em 2013, passando pela expansão em Assam pouco antes da pandemia em 2020 e pelas promessas de campanha que marcaram as eleições estaduais de 2024 e 2025, a Índia transformou pagamentos mensais diretos em um dos maiores experimentos de política social do mundo publicado pelo portal da BBC. Em vez de subsidiar apenas cereal, combustível ou emprego rural, o país passou a remunerar, ainda que parcialmente, o trabalho invisível que mantém as casas funcionando e que historicamente não aparecia em nenhuma estatística econômica.

Como funciona o pagamento às donas de casa na Índia

Hoje, em 12 Estados, 118 milhões de mulheres adultas recebem transferências monetárias incondicionais todos os meses.

Os valores variam de 1 mil a 2,5 mil rúpias, algo entre 12 e 30 dólares, cerca de 65 a 162 reais, o que representa aproximadamente de 5 a 12 por cento da renda familiar.

Não há exigência de comprovar frequência escolar dos filhos nem de provar que a família está abaixo da linha da pobreza. O dinheiro simplesmente entra na conta cadastrada, mês a mês.

Os critérios de elegibilidade mudam de um Estado para outro. Em geral, há limites de idade, faixas de renda e exclusões para famílias de funcionários públicos, contribuintes mais ricos, proprietários de automóveis ou de grandes áreas de terra.

Mesmo com essa filtragem, o público atendido é gigantesco. Cerca de 300 milhões de mulheres indianas têm hoje conta bancária, o que simplificou a operação logística e permitiu que o dinheiro chegasse com mais rapidez e menos intermediários.

Na prática, as beneficiárias costumam gastar os recursos com despesas básicas: alimentos, gás de cozinha, remédios, consultas médicas, mensalidades escolares, quitação de pequenas dívidas e, de vez em quando, algum item pessoal, como uma peça de roupa melhor ou uma joia simples.

O valor mensal não é suficiente para transformar a vida de uma família, mas a regularidade do pagamento cria uma rede de segurança mínima e abre uma pequena margem de decisão cotidiana para mulheres que, até então, dependiam quase totalmente do salário dos maridos.

Quando mulheres ganham dinheiro todo mês e viram força política decisiva

O desenho dos programas varia, mas uma peça é constante: o foco explícito nas eleitoras. Mulheres ganham dinheiro todo mês e se tornam um eleitorado grande demais para ser ignorado, especialmente em Estados pobres, onde alguns dólares extras por mês fazem diferença real no orçamento.

Goa, no oeste da Índia, foi o primeiro a lançar um programa de transferência incondicional para mulheres em 2013. A ideia se espalhou lentamente até ganhar força pouco antes da pandemia, em 2020, quando Assam criou um programa específico para mulheres vulneráveis.

A partir daí, transferências diretas e sem condicionantes passaram a ser promessa recorrente em campanhas estaduais.

Em 2021, o ator e político Kamal Haasan, em Tamil Nadu, chegou a propor “salários para donas de casa” como plataforma central, mas seu partido perdeu aquela eleição.

Três anos depois, em 2024, promessas de pagamentos mensais voltadas às mulheres ajudaram partidos a vencer em Estados como Maharashtra, Jharkhand, Odisha, Haryana e Andhra Pradesh.

Os programas deixaram de ser apenas política social e passaram a ser também uma estratégia eleitoral explícita.

O caso mais emblemático ocorreu em Bihar, um dos Estados mais pobres da Índia. Nas semanas anteriores às eleições legislativas de 2025, o governo local transferiu 10 mil rúpias, cerca de 112 dólares ou 604 reais, para 7,5 milhões de contas de mulheres, dentro de um programa de geração de meios de subsistência.

As eleitoras compareceram em número maior que os homens às urnas e foram decisivas para a vitória esmagadora da coalizão liderada pelo Partido Bharatiya Janata.

Críticos classificaram a manobra como compra direta de votos, mas o recado das urnas foi claro: dinheiro mensal na conta virou poderosa alavanca de poder político.

O que muda na vida prática das beneficiárias

Por trás dos números abstratos, há transformações discretas na vida doméstica. Estudos recentes mostram que a imensa maioria das beneficiárias controla a própria conta bancária e decide como gastar o dinheiro.

Em Bengala Ocidental, uma pesquisa realizada em 2023 apontou que 90 por cento das mulheres gerenciam pessoalmente suas contas, enquanto 86 por cento definem sozinhas o destino dos recursos. A prioridade são alimentação, educação dos filhos e despesas médicas.

Em Maharashtra, um estudo de 2025 revelou um dado importante: cerca de 30 por cento das mulheres com direito ao benefício sequer se inscreveram.

Os motivos vão de problemas de documentação a um sentimento de autossuficiência, mas, entre as que aderiram, quase todas mantêm controle exclusivo sobre o dinheiro. Isso reforça a percepção de que o pagamento mensal funciona como uma reserva própria, ainda que pequena, para emergências ou decisões que elas antes não podiam tomar sem consultar o marido.

Pesquisas em Assam indicam que a maior parte das mulheres usa o benefício para cobrir necessidades básicas e valoriza mais a dignidade financeira do que o eventual reconhecimento formal de seu trabalho doméstico.

Muitas continuam declarando que prefeririam um emprego remunerado e estável, se tivessem opção. Em Tamil Nadu, beneficiárias relatam mais tranquilidade dentro de casa, menos conflitos conjugais e um ganho de confiança pessoal.

Em Karnataka, mulheres dizem que passaram a comer melhor, a opinar mais nas decisões do lar e a desejar valores maiores no programa.

Em praticamente todos esses Estados, os estudos convergem em dois pontos centrais. Primeiro, as mulheres ganham dinheiro todo mês sem que isso reduza o desejo de trabalhar fora ou de ter um emprego formal, um dos principais receios de parte do movimento feminista.

Segundo, os programas não diminuíram a carga de trabalho doméstico não remunerado, mas aumentaram o poder de negociação das mulheres com parentes, maridos e políticos.

Quem recebe o dinheiro consegue cobrar mais, fazer exigências e enfrentar emergências com menos medo.

O peso do trabalho invisível e o custo fiscal bilionário

A lógica desses programas se apoia em uma realidade estatística dura. A mais recente Pesquisa de Uso do Tempo da Índia indica que, em 2024, as mulheres dedicaram quase cinco horas por dia ao trabalho doméstico e de cuidados não remunerado, mais de 7,6 vezes o tempo gasto pelos homens.

Essa carga desproporcional ajuda a explicar a baixa participação feminina na força de trabalho formal, mesmo em Estados em crescimento econômico rápido.

Ao transferir recursos diretamente para quem executa esse trabalho, os governos estaduais passam uma mensagem política: o cuidado e a gestão do lar têm valor econômico.

Feministas indianas defendem há décadas que esse trabalho deveria ser reconhecido nas estatísticas nacionais, e as transferências mensais aparecem como uma espécie de reconhecimento tardio, ainda que parcial e de baixo valor.

Do ponto de vista fiscal, porém, o experimento é pesado. Doze Estados indianos projetam gastar cerca de 18 bilhões de dólares, algo em torno de 97 bilhões de reais, apenas nos pagamentos deste ano fiscal.

Metade deles já opera em déficit, ou seja, precisa se endividar para pagar despesas correntes, de acordo com relatório do centro de estudos PRS Legislative Research.

Críticos argumentam que os programas pressionam orçamentos frágeis, criam dependência política e desestimulam investimentos em políticas estruturais de emprego e serviços públicos.

Defensores respondem que o custo precisa ser comparado ao volume gigantesco de trabalho não remunerado que sustenta a economia.

Para eles, pagar um valor modesto, mas previsível, diretamente às mulheres é menos um gasto e mais um ajuste mínimo de contas em uma sociedade que sempre tratou esse esforço como gratuito.

Limites, contradições e próximos passos do experimento indiano

As pesquisas disponíveis até agora indicam que os programas têm efeitos claros, mas limitados. Não há evidências de que as transferências tiram das mulheres o incentivo para buscar trabalho remunerado nem de que reforçam de maneira mecânica os papéis tradicionais de gênero.

Ao mesmo tempo, os pagamentos não reduzem o volume de tarefas domésticas que elas precisam cumprir todos os dias.

Especialistas defendem alguns ajustes para a próxima fase. Um deles é simplificar os critérios de elegibilidade, principalmente para mulheres que realizam cuidados intensivos, como pessoas com deficiência, idosos acamados ou crianças pequenas, e que muitas vezes ficam de fora por lacunas burocráticas.

Outro ponto considerado essencial é manter o caráter incondicional dos benefícios e desvinculá-los do estado civil, evitando que o direito dependa de ser casada, divorciada ou viúva.

Há também um consenso crescente de que a comunicação oficial precisa enfatizar explicitamente que o dinheiro reconhece o valor do trabalho não remunerado das mulheres.

Hoje, muitas beneficiárias não fazem essa associação e veem o pagamento apenas como uma ajuda genérica.

Junto com isso, pesquisadores sugerem expandir programas de educação financeira, para que as mulheres consigam poupar, planejar gastos e usar o dinheiro como ponto de partida para pequenos negócios ou formação profissional.

Por fim, quase todos os estudos sublinham um limite decisivo: transferências mensais não podem substituir oportunidades reais de emprego.

Muitas mulheres entrevistadas dizem, de forma direta, que o que realmente desejam é um trabalho pago, estável e o respeito permanente que acompanha essa condição.

Nesse sentido, o experimento em que milhões de mulheres ganham dinheiro todo mês é visto mais como ferramenta de transição do que como solução definitiva, um mecanismo para reequilibrar o jogo enquanto reformas mais profundas não chegam.

O futuro desse gigantesco laboratório social ainda é incerto.

Se combinado a mensagens claras de reconhecimento, ampliação de serviços públicos e criação de empregos de qualidade, o dinheiro na conta pode ajudar a redesenhar, aos poucos, a divisão de gênero dentro das casas indianas.

Se, ao contrário, for usado apenas como instrumento eleitoral, corre o risco de se tornar mais uma engrenagem de clientelismo político mascarado de política social.

E você, acha que um programa em que mulheres ganham dinheiro todo mês por cuidar da casa poderia funcionar no Brasil ou acabaria virando só moeda de troca eleitoral?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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