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Mais de 90% dos tubarões sumiram do Oceano Índico em 50 anos, e o mar entrou em colapso: focas +520%, recifes viram algas, pesca quebra, turismo desaba sem ninguém perceber

Escrito por Carla Teles
Publicado el 28/01/2026 a las 16:07
Mais de 90% dos tubarões sumiram do Oceano Índico em 50 anos, e o mar entrou em colapso focas +520%, recifes viram algas, pesca quebra, turismo desaba sem ninguém perceber (2)
Quando os tubarões sumiram no Oceano Índico, o colapso do oceano atingiu recifes de coral, derrubou a pesca costeira e mudou o mar.
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Em 50 anos, mais de 90% dos tubarões sumiram no Oceano Índico, o colapso do oceano afetou recifes de coral e derrubou a pesca costeira e o turismo.

Nos últimos 50 anos, algo que parecia impossível aconteceu diante dos olhos da ciência: mais de 90% dos tubarões sumiram do Oceano Índico. Em algumas regiões, mergulhadores passaram uma década sem ver um único animal, e milhares de horas de câmeras submarinas voltaram praticamente vazias.

O problema é que, quando os tubarões sumiram, o oceano não ficou apenas mais vazio. Ele entrou em colapso. Focas cresceram 520% em certas áreas, recifes de coral foram sufocados por algas, pequenos peixes desapareceram, a pesca costeira desmoronou e o turismo náutico perdeu centenas de milhões de dólares. Tudo isso provocado pela retirada dos grandes predadores do topo da cadeia.

Qual é o papel dos tubarões no oceano

Quando os tubarões sumiram no Oceano Índico, o colapso do oceano atingiu recifes de coral, derrubou a pesca costeira e mudou o mar.

Antes de entender o que acontece quando os tubarões sumiram, é preciso entender quem eles são nesse sistema.

Hoje existem mais de 500 espécies de tubarões no mundo e, se incluirmos as raias, esse número passa facilmente de mil espécies.

Eles ocupam praticamente todos os ambientes marinhos, dos recifes de coral ao oceano profundo, de águas frias polares até regiões tropicais, e algumas espécies conseguem até subir rios de água doce por centenas de quilômetros.

Eles estão no topo da cadeia alimentar. São para o oceano o que tigres são para a floresta ou leões para a savana.

Só o fato de existirem e patrulharem certas áreas já muda o comportamento de outras espécies. Em campos de ervas marinhas, por exemplo, a presença de tubarões faz tartarugas e dugongos evitarem pastar demais em um único ponto, o que impede que essas pradarias sejam destruídas e garante abrigo para peixes jovens.

Além de predadores eficientes, tubarões têm uma biologia singular. Podem nadar em velocidades próximas de 50 km/h, têm pele coberta por dentículos dérmicos que reduzem o atrito com a água e possuem órgãos capazes de detectar campos elétricos minúsculos gerados pelo corpo de outras criaturas.

Mesmo no escuro, na água turva ou em profundidades extremas, eles conseguem localizar presas com precisão.

É esse conjunto de características que faz deles grandes reguladores do equilíbrio marinho. Quando esses reguladores desaparecem, o sistema inteiro começa a sair do controle.

Quão rápido os tubarões sumiram do Oceano Índico

Quando os tubarões sumiram no Oceano Índico, o colapso do oceano atingiu recifes de coral, derrubou a pesca costeira e mudou o mar.

Os tubarões sumiram do Oceano Índico muito mais rápido do que qualquer predador deveria desaparecer em condições naturais.

Relatórios de comissões pesqueiras e levantamentos científicos indicam que, em cerca de meio século, o Índico perdeu mais de 70% de sua população de tubarões.

Para algumas espécies, o cenário é quase absoluto: o tubarão de pontas brancas oceânico declinou em torno de 99%, o tubarão martelo recortado em cerca de 97%, o tubarão seda em aproximadamente 90% e tubarões de barbatana longa oceânicos chegaram a quedas perto de 98%.

Mais grave ainda, esse colapso não é lento. As populações despencam em janelas de três a cinco anos, como se alguém tivesse desligado um interruptor.

Entre 2010 e 2016, por exemplo, algumas espécies de tubarões de recife na Tanzânia e no Quênia diminuíram em até 94%.

Mesmo em áreas marinhas protegidas, drones e câmeras instalados por milhares de horas não registraram praticamente nenhum animal em certas zonas.

Isso aponta para dois cenários extremos: ou os tubarões são capturados antes de chegar às áreas protegidas, ou o ambiente ao redor se degradou tanto que quase não há mais jovens tubarões para repor as populações.

Em qualquer um dos casos, o resultado é o mesmo: os tubarões sumiram de grandes áreas do Índico e deixaram um vazio ecológico perigoso.

Quem está matando os tubarões

Video de YouTube

Quando se cruzam dados de pesca, comércio e esforço de captura no Índico, todas as evidências apontam para um culpado muito claro: os humanos.

Todos os anos, dezenas de milhões de tubarões são mortos no mundo. No tempo de um vídeo curto, milhares de animais desaparecem do oceano. Uma parte importante dessa matança está ligada ao comércio de barbatanas.

As barbatanas representam uma fração pequena da massa do animal, quase não têm sabor e são basicamente colágeno, mas se transformaram em símbolo de status em sopas de luxo servidas em casamentos e grandes eventos em alguns países asiáticos.

Isso faz com que barbatanas de alta qualidade cheguem a valer centenas de dólares por quilo e empurra pescadores a correr riscos extremos para capturá-las.

No convés dos barcos, as barbatanas são cortadas e o corpo do tubarão é jogado de volta ao mar, muitas vezes ainda vivo, incapaz de nadar, morrendo em poucos minutos.

Estudos já mostraram que a maioria desses animais descartados está viva no momento em que é lançada de volta, mas sem chance de sobrevivência.

Além da pesca direcionada para barbatanas, a captura acidental é um segundo golpe devastador. Frotas industriais de atum e espadarte estendem redes e espinhéis por dezenas de quilômetros e em profundidades que podem passar de 300 metros.

Essas linhas não escolhem o alvo. Em muitas pescarias, uma parcela enorme do que é trazido a bordo são tubarões, mesmo quando o foco declarado é outro peixe.

Arrancados de grandes profundidades, esses animais sofrem rupturas internas por mudanças bruscas de pressão.

Mesmo quando são soltos, morrem rapidamente. Estimativas indicam que uma parte significativa dos tubarões mortos todos os anos cai nessa categoria de captura acidental, o que torna a situação ainda mais difícil de controlar, porque grande parte desses incidentes sequer é registrada oficialmente.

Em diversas áreas do Oceano Índico, pescadores artesanais também passaram a mirar tubarões porque quase todos os outros peixes já foram exauridos pelas grandes frotas.

Quando embarcações estrangeiras retiram anchovas, sardinhas e peixes pequenos que sustentam comunidades locais, sobra para o pescador de pequena escala escolher entre passar fome ou buscar o que restou: tubarões grandes o bastante para alimentar uma família por vários dias.

Para completar, menos de um quinto das espécies de tubarões conta com algum tipo de proteção internacional, e muita dessa proteção existe mais no papel do que na prática.

Em países como Tanzânia, Quênia, Sri Lanka e até partes das Maldivas, a pesca de tubarões segue praticamente sem controle efetivo, com pouca fiscalização e subnotificação generalizada.

O que acontece com o mar quando os tubarões somem

Quando os tubarões sumiram no Oceano Índico, o colapso do oceano atingiu recifes de coral, derrubou a pesca costeira e mudou o mar.

O colapso não é um exercício teórico. Quando os tubarões sumiram, o Oceano Índico mostrou rapidamente o que significa retirar o topo da cadeia alimentar de um ecossistema complexo.

A primeira consequência é a explosão de predadores de nível intermediário. Em condições normais, os tubarões mantêm sob controle focas, grandes cavalas, tubarões menores e outros caçadores de meio de cadeia. Quando esses reguladores desaparecem, essas espécies crescem como uma multidão sem freio.

False Bay, na África do Sul, é um exemplo emblemático. A região já foi famosa pela presença de grandes tubarões brancos.

Desde o fim de 2018, nenhum indivíduo foi registrado ali. Sem o predador de topo, as focas do Cabo aumentaram mais de 520%, espalhando-se por costas rochosas e áreas de alimentação, enquanto tubarões de sete guelras, antes raros, passaram a aparecer em densidades muito altas.

Com predadores intermediários em excesso, os pequenos peixes desaparecem. Focas, cavalas e outros caçadores começam a consumir cardumes inteiros de espécies responsáveis por “pastorear” algas e manter os recifes de coral limpos.

Sem esses peixes jardineiros, as algas crescem muito mais rápido do que os corais conseguem acompanhar, tomam a superfície, bloqueiam a luz, reduzem o oxigênio disponível e impedem que os corais façam fotossíntese.

Em poucos anos, recifes antes vibrantes, coloridos e cheios de vida se transformam em estruturas acinzentadas e, na prática, mortas.

Como cerca de 90% da vida marinha depende dos recifes em algum momento do ciclo de vida, o colapso desses ambientes desencadeia um efeito dominó.

Peixes jovens perdem abrigo e são devorados ainda no estágio larval, crustáceos e moluscos somem e espécies comerciais desaparecem junto. O sistema costeiro se transforma em um verdadeiro deserto submerso.

Logo em seguida, a pesca costeira cai junto. Em regiões como Quênia e Tanzânia, onde tubarões martelo praticamente sumiram, a produção pesqueira costeira chegou a cair entre 50% e 70% em apenas cinco anos.

Sem tubarões no topo, os peixes pequenos são consumidos em excesso, e espécies de alto valor comercial, como pargos, garoupas e atuns juvenis, mal chegam à idade adulta.

Comunidades inteiras ficam sem sustento e são obrigadas a abandonar a pesca, migrar para o turismo ou deixar suas casas.

Nem o turismo escapa. Nas Maldivas e em outros destinos do Índico, tubarões de recife eram as estrelas dos passeios de mergulho, atraindo visitantes do mundo todo.

Depois do desaparecimento em massa, o turismo de mergulho chegou a cair em cerca de 40% em poucos anos, gerando perdas de centenas de milhões de dólares anuais para economias que dependem diretamente do mar.

Quando os tubarões sumiram, não foi só o ecossistema que desmoronou. Economias nacionais, empregos e a segurança alimentar de milhões de pessoas foram atingidos diretamente.

O que está sendo feito para os tubarões voltarem

Depois de sentir na pele o impacto de um oceano onde os tubarões sumiram, alguns países começaram a reagir. E os resultados mostram que, quando há proteção real, o mar responde.

As Maldivas são um dos casos mais claros. Em 2010, o país transformou toda a sua zona econômica exclusiva, com mais de 900 mil quilômetros quadrados, em um santuário nacional de tubarões.

Dentro dessa área, toda forma de pesca de tubarões é proibida, inclusive a captura como “acidental”. Embarcações flagradas podem receber multas pesadas, ter equipamentos confiscados e até perder o direito de operar nas águas do país.

Menos de uma década depois da criação do santuário, a densidade de tubarões de recife em vários corais aumentou de forma consistente.

Áreas onde quase não se via tubarões voltaram a receber grupos com diversos indivíduos, o que reaqueceu o turismo de mergulho a ponto de compensar a perda de renda ligada à pesca de tubarões.

Outros governos seguiram caminhos parecidos, com patrulhas navais mais rígidas, aplicação de multas por pesca ilegal, exigência de que barbatanas cheguem ao porto ainda ligadas ao corpo do peixe para impedir o finning no mar e transparência maior em dados de captura.

Em algumas regiões, o uso de câmeras e sistemas de inteligência artificial a bordo de embarcações já permite identificar espécies de tubarões quando são içadas, registrar sua condição e alertar o capitão quando se trata de espécies protegidas, reduzindo mortes desnecessárias.

Fora dos governos, organizações e consumidores comuns também começaram a pressionar. Campanhas de conscientização em países asiáticos já fizeram milhões de pessoas reconsiderarem o consumo de sopa de barbatana de tubarão.

Hotéis, redes de eventos e restaurantes retiraram o prato de seus cardápios, cortando a demanda no ponto final da cadeia.

A mensagem que surge desses exemplos é clara: sempre que se cria espaço, fiscalização e tempo, os tubarões voltam, e com eles parte do equilíbrio do oceano.

Ainda dá tempo de reverter o colapso?

Os tubarões existem há mais de 400 milhões de anos, sobreviveram a cinco grandes extinções em massa e viram os dinossauros surgirem e desaparecerem. Mesmo assim, o maior desafio que enfrentam hoje vem de nós.

Se nada mudar, “os tubarões sumiram” tende a deixar de ser uma descrição do Oceano Índico para se tornar a realidade de vários outros mares do planeta.

Se houver ação firme, ainda existe uma janela para que populações se recuperem, recifes ressuscitem e economias costeiras se reconstruam em bases mais sustentáveis.

No fim, o oceano não pede muito. Ele precisa de tempo e espaço para se curar e para que os tubarões retomem seu papel original como guardiões do equilíbrio marinho.

E você, acha que o mundo vai reagir rápido o suficiente para evitar que mais mares repitam o destino do Índico ou que já passamos do ponto em que os tubarões conseguem se recuperar?

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Carla Teles

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