Depois de o mar engole pedaço de ilha perto de Salvador, moradores de Cacha Pregos relatam perda de bares, casas e estrada, avanço de até 150 metros, trauma psicológico coletivo e esperança cautelosa com contenção entregue em julho de 2024 na orla da localidade de Cacha Pregos, em Vera Cruz
Em 2018, moradores da ponta da ilha pertencente ao município de Vera Cruz, perto de Salvador, começaram a perceber que o mar engole pedaço de ilha perto de Salvador de um jeito diferente do ciclo que conheciam desde a infância. O que era avanço e recuo previsível das marés passou a ser avanço definitivo: um campo de futebol sumiu, a rua desapareceu, casas caíram e quiosques tradicionais deixaram de existir diante dos olhos de quem vivia do turismo local.
Entre 2018 e os anos seguintes, o mar avançou, segundo moradores, entre 60 e 150 metros em alguns trechos, arrastando estruturas, piscinas e muros, até chegar às paredes das casas. Em julho de 2024, uma obra de contenção financiada pelo governo da Bahia foi concluída na orla de Cacha Pregos, e agora os moradores dizem ver a faixa de areia voltar pouco a pouco, embora a sensação de insegurança siga forte e a cicatriz econômica ainda esteja aberta.
Campo de futebol, ruas e bares apagados pela erosão

Antes de o mar engole pedaço de ilha perto de Salvador, a paisagem descrita pelos moradores incluía um campo de futebol entre as casas e o mar, uma rua com postes de energia e vários quiosques de praia.
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O local que hoje termina em pedras, anéis de contenção e água batendo nos muros era, segundo antigos registros de família, um espaço de lazer construído pelos próprios nativos para jogos de sábado, domingo e feriado.
Moradores apontam nomes que desapareceram do mapa: o Martas Bar, o Piratas Bar, outras barracas menores, além de uma estrada que permitia entrar e sair de carro pela frente das casas.
Hoje, em vários pontos, “não tem mais rua” – é preciso descer pela areia ou pelas pedras, porque o mar tomou o espaço da via e da antiga área de circulação.
Em alguns imóveis, piscinas tiveram de ser demolidas depois que a erosão chegou à borda das estruturas.
Em um caso relatado, duas piscinas – uma infantil e outra de adulto, de 8 metros por 4 – foram removidas quando a praia sumiu e o quintal passou a ser diretamente atingido pelas marés cheias.
Quando o avanço deixou de recuar e virou ameaça permanente

Os moradores relatam que, durante décadas, o avanço do mar seguia um padrão considerado “normal”: nos meses de março e setembro, as marés mais altas chegavam mais perto das casas, mas depois recuavam e a praia voltava ao estado anterior.
A partir de 2018, porém, o mar avançou, invadiu e não voltou ao que era antes, iniciando um período em que a faixa de areia foi sendo literalmente comida onda após onda.
Um dos depoimentos lembra que, em dez anos, a areia teria sido empurrada contra a base das pedras de proteção, reduzindo a sustentação dos muros.
Rachaduras aparecem ano a ano nas casas à beira-mar, obrigando famílias a refazer muros, realocar portões e reforçar estruturas.
Em um dos relatos, o portão principal precisou ser recuado, porque a maré cheia passou a bater dentro do quintal, molhando o interior da residência.
Trauma, AVC, câncer e o peso emocional do mar na porta de casa
A erosão não deixou marcas apenas na orla física de Cacha Pregos. Uma moradora de 34 anos conta que, em 2019, sofreu um AVC associado ao estresse emocional.
Antes disso, havia recebido diagnóstico de câncer e sido orientada pelo oncologista a “desacelerar”, vivendo mais perto da natureza.
A família tinha casa de veraneio na região, onde ela se recuperou da doença. Pouco tempo depois da alta, a mãe morreu e, no mesmo ano, o mar começou a avançar agressivamente.
Ela descreve o som das ondas batendo no muro à noite como uma “trombeta”, associado à expectativa de que, a qualquer momento, o mar entraria dentro de casa.
O medo de perder o imóvel e as memórias de família se somou ao luto e ao histórico de saúde, criando um quadro de forte ansiedade.
A moradora diz que passou dois a três anos sem conseguir entrar no mar e que, até hoje, a maré alta ainda desencadeia lembranças traumáticas e insegurança.
Ganância imobiliária, loteamento alterado e moradores sem saída
Outra moradora aponta para um loteamento chamado Santa Bárbara, onde os terrenos originalmente eram mais recuados em relação à linha da praia.
Segundo ela, ao longo do tempo, os quatro lotes da frente foram “puxados” em direção ao mar, criando novos terrenos atrás para venda, com autorização formal dos órgãos competentes.
Na avaliação de quem vive ali, a combinação de ganância e autorização oficial colocou casas mais perto da borda do mar do que seria prudente.
Com o avanço das ondas, muitos desses imóveis passaram a ser diretamente atingidos.
Moradores relatam que algumas famílias conseguiram vender ou se mudar, mas outras, como quem vive nos imóveis mais expostos, não têm “nenhuma outra saída” além de continuar ali, reforçando muros, gastando com pedras e lidando com o risco diário.
Turistas foram embora quando o mar engole pedaço de ilha perto de Salvador
Além das casas e da infraestrutura local, o turismo sofreu um golpe direto quando o mar engole pedaço de ilha perto de Salvador.
Restaurantes que dependiam da praia relatam que, no período mais crítico, o cenário deixou de ser faixa de areia e coqueiros para virar um “cascalho” exposto, feio, sem atrativo para quem vinha de fora.
Com a praia sumida, hóspedes e clientes também sumiram. Empreendimentos que, em julho, recebiam grupos do Rio de Janeiro e de São Paulo para passar férias passaram a conviver com reservas canceladas e queda acentuada no movimento.
Sem praia, sem piscina e com muros destruídos, a equação econômica deixou de fechar para muitos negócios locais.
Pedra sobre pedra: defesa improvisada e gastos de mais de 20 mil reais
Na tentativa de conter a água por conta própria, proprietários investiram em pedras e reforços informais.
Um morador relata ter gastado inicialmente entre 4 e 5 mil reais para formar uma primeira linha de pedras ao pé do cais, quando a maré passou a bater na base do muro.
Depois, em novo episódio de erosão forte, em março e abril recentes, o muro foi derrubado novamente e foi preciso comprar mais pedras, elevando o gasto com esse tipo de proteção para algo superior a 20 mil reais, somando novas rodadas de obras.
Mesmo assim, a maré cheia ainda consegue passar por cima do muro em determinados momentos, deixando o quintal molhado e com marcas de água salgada.
Obra de contenção em 2024: defletores, geocilindros e praia voltando aos poucos
Após anos de pressão da comunidade, a obra de contenção na orla de Cacha Pregos foi concluída em julho de 2024, com coordenação do governo do Estado.
O trecho é área da Marinha, sob responsabilidade da Secretaria de Patrimônio da União, que, segundo relato, não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem que acompanhou a intervenção.
A estrutura, de acordo com informações oficiais relatadas aos moradores, combina defletores que reduzem a força das ondas com geocilindros que ajudam a reter sedimentos, permitindo que a areia volte a se acumular na frente da contenção.
Moradores apontam que já é possível ver a formação de nova faixa de areia diante dos blocos, com o sedimento “batendo e voltando”, o que indica tentativa de recomposição natural da praia em alguns pontos.
Críticas ao alcance da obra e desconfiança com o poder público
Apesar dos sinais de recuperação onde a obra foi instalada, parte dos moradores critica o tamanho e o alcance da intervenção.
Lideranças locais contam que se organizaram em grupos, participaram de reuniões e pressionaram autoridades, mas avaliam que “não conseguiram nada na realidade” além do trecho já executado.
A Secretaria de Infraestrutura da Bahia não respondeu, até o fechamento do material utilizado como base, se a contenção seria estendida a outros pontos da orla de Cacha Pregos.
Na visão de quem mora ali, a resposta lenta e parcial alimenta a sensação de que a política não acompanha o ritmo da erosão, deixando famílias e negócios em situação de vulnerabilidade sempre que uma nova frente fria ou maré de sizígia se aproxima.
Entre esperança, fé e medo de que a história se repita
Com cerca de 3 mil moradores, Cacha Pregos tenta conciliar a esperança de ver a praia voltar com o medo de reviver o avanço acelerado registrado a partir de 2018.
Em um dos relatos, a palavra “esperança” é descrita como uma linha tênue: ela pode adoecer quem espera demais por solução que não chega, ou fortalecer quem acredita em alguma forma de milagre “em cima de sistema”.
Enquanto a faixa de areia se recompõe devagar diante da nova contenção, traumas permanecem.
Há quem admita ter ficado anos sem entrar no mar, retomando aos poucos o hábito de banho de mar apenas para descobrir, a cada maré alta, o medo de que tudo volte a acontecer.
Para muitos, a dúvida não é se o mar tem força para tomar de novo a frente da ilha, mas se o poder público e a própria comunidade conseguirão reagir a tempo caso o ciclo se repita.
Diante dessa história em que o mar engole pedaço de ilha perto de Salvador, apaga casas, ruas e um campo de futebol e só agora recua devagar com ajuda de contenção, você acha que as obras feitas em Cacha Pregos são suficientes ou o poder público ainda está atrasado para proteger quem vive na linha de frente da erosão costeira?
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