De refugiado judeu em fuga da Europa para aprendiz na Philip Brothers, Marc Rich virou bilionário em Zug, financiou países proibidos, irritou o FBI, ajudou Israel com petróleo e dividiu o mundo entre vê-lo gênio financeiro ou bandido sem escrúpulos, apoiado pelo Mossad, por líderes israelenses e por um perdão.
Marc Rich saiu de uma infância marcada pela fuga do nazismo em 1941 para se tornar, entre os anos 70 e 80, o homem que reinventou o comércio mundial de petróleo. No rastro dos choques do petróleo de 1973 e 1979, ele criou o mercado spot, derrubou o poder das Sete Irmãs e ergueu um império bilionário a partir de Zug, na Suíça.
Mas o auge de Marc Rich veio acompanhado de acusações explosivas. Indiciado em 1983 por 65 crimes nos Estados Unidos, perseguido pelo FBI durante 17 anos e perdoado por Bill Clinton em 2001, o trader seguiu operando até sua morte em 2013, carregando para o túmulo a fama de gênio e vilão ao mesmo tempo.
Quem foi Marc Rich, o outsider que virou rei do petróleo
Antes de virar sinônimo de poder nos bastidores do petróleo, Marc Rich era apenas o filho de um comerciante judeu em fuga permanente.
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Seu pai, David Rich, deixou a Alemanha em 1933 diante da ascensão de Hitler, mudou-se para a Antuérpia, então principal centro global de comércio de diamantes, e acabou fugindo de novo em 1940, quando a guerra tornou inevitável a invasão alemã.
Em 1941, a família embarcou rumo aos Estados Unidos. David começou com uma pequena joalheria e depois prosperou importando e exportando diferentes produtos, aproveitando oportunidades como a Guerra da Coreia nos anos 50.
Marc Rich cresceu nesse ambiente de instabilidade e comércio. Nunca se sentiu totalmente integrado: era estrangeiro, judeu, sotaque estranho, sempre mudando de escola. Tentou faculdade em Nova York, estudando marketing, mas largou o curso porque queria trabalhar.
O destino mudou quando um amigo de seu pai recomendou que ele fizesse uma entrevista na Philipp Brothers, a poderosa trading de commodities conhecida como Philbro. Rich começou literalmente no chão de fábrica: na sala de correspondência.
Em pouco tempo, no entanto, chamou atenção pela inteligência, obsessão por informação e disposição de fazer negócios em países e situações que outros evitavam.
Nos anos 60, Marc Rich já era um nome interno de peso na Philipp Brothers. Ele assumiu o escritório de Madri, responsável não só pela Espanha, mas também por operações em mercados emergentes na América Latina e na África.
Foi ali que ele se especializou em metais como mercúrio, prata, ouro e cobre e ganhou reputação de negociador duro, disposto a ir onde ninguém queria ir.
O cartel das Sete Irmãs e o espaço para um contrarian
Entre 1940 e 1970, o mercado de petróleo era dominado por um oligopólio conhecido como Sete Irmãs, um grupo de cinco companhias americanas e duas europeias que controlavam cerca de 95% da cadeia, da extração à bomba de gasolina.
O preço do barril pareceu congelado por décadas, girando em torno de 2 a 3 dólares, não por “livre mercado”, mas porque o cartel decidia quanto produzir e quanto cobrar.
Os países produtores, especialmente no Oriente Médio e no Norte da África, viam a maior parte do valor ficar com as multinacionais. A criação da Opep nos anos 60 foi uma primeira tentativa de reação, mas demorou para surtir efeito real.
A virada começou em agosto de 1971, quando os Estados Unidos abandonaram o padrão-ouro. O dólar despencou entre 20% e 40%, corroendo brutalmente as receitas dos exportadores de petróleo. Foi a fagulha para uma onda de nacionalizações: Líbia e outros produtores expulsaram as Sete Irmãs, expropriaram ativos e assumiram o controle das reservas.
Havia, porém, um problema óbvio. Os países tomaram o petróleo de volta, mas não sabiam como vendê-lo, distribui-lo ou financiá-lo.
As estatais recém-criadas não tinham experiência de logística, crédito ou escoamento global. Ali nascia exatamente o tipo de vácuo que um trader como Marc Rich podia ocupar.
O oleoduto secreto Irã–Israel e a primeira grande vantagem de Marc Rich
Já nos anos 60, o Irã e Israel viviam uma relação paradoxal. O Irã não reconhecia o Estado israelense e o clima político era hostil, mas cerca de 90% do petróleo consumido em Israel vinha justamente do Irã.
Depois da Guerra dos Seis Dias, em 1967, o Egito fechou o Canal de Suez, principal rota do petróleo iraniano. Isso obrigava os navios a contornar o continente africano, encarecendo dramaticamente o frete.
A solução foi um projeto tão estratégico quanto secreto: um oleoduto ligando o Irã a Israel, idealizado em 1965 e concluído em 1969. Criou-se uma joint venture registrada na Suíça, com 50% para o Estado de Israel e 50% para o Irã. Oficialmente, Teerã dizia que não vendia uma gota de petróleo para Israel. Na prática, o óleo corria discretamente pelos canos.
É nessa engrenagem que Marc Rich aparece. Ele ajudou a fazer a ponte entre os dois governos, operando como intermediário num dos acordos mais sensíveis da geopolítica energética da época. Com o oleoduto, o petróleo iraniano chegava muito mais rápido e barato ao Mediterrâneo.
Essa rota dava a Rich uma vantagem brutal: ele podia comprar petróleo a um custo que concorrentes não conseguiam replicar.
Enquanto outros traders ainda dependiam de viagens longas ao redor da África, Rich usava o oleoduto Irã–Israel para viabilizar operações com margens extraordinárias, sempre fora dos holofotes.
O nascimento do mercado spot e a ruptura com a Philipp Brothers
Até o início dos anos 70, os contratos das Sete Irmãs com países produtores eram de longo prazo e com preço fixo. Não havia um verdadeiro mercado spot de petróleo, no qual cargas são negociadas à vista, refletindo oferta e demanda em tempo real.
Marc Rich foi um dos primeiros a perceber que esse mundo estava acabando. Ainda dentro da Philipp Brothers, ele começou a intermediar cargas fora dos contratos tradicionais, conectando estatais recém-nacionalizadas a refinarias na Europa e em outros mercados.
Na prática, ele ajudou a criar o mercado spot mundial de petróleo, condição essencial para que o preço deixasse de ser ditado pelo cartel e passasse a oscilar com choques políticos e econômicos.
Em 1973, pouco antes da Guerra do Yom Kippur, Rich e seu parceiro Pincus Green anteciparam que o petróleo iria disparar. Fecharam um contrato com a estatal iraniana, garantindo grandes volumes a 5 dólares o barril, quando o mercado ainda marcava 3.
A diretoria conservadora da Philipp Brothers considerou o movimento arriscado e mandou desfazer a operação. Meses depois, veio o primeiro choque do petróleo, e o barril saltou para 12 ou 13 dólares. A empresa deixou milhões na mesa e, internamente, ficou claro que o time de Rich enxergava o jogo à frente de todo mundo.
Mesmo assim, quando foi pedir, em 1974, um bônus de 500 mil dólares por resultados que estavam transformando a Philipp Brothers na maior trader de petróleo do mundo, Marc Rich ouviu que receberia no máximo 150 mil. Ele considerou uma afronta. Chamou Pincus Green e decidiu sair.
Cinco sócios fundaram então a Marc Rich & Co. AG, em Zug, na Suíça, aportando 2 milhões de francos suíços, boa parte emprestada de pais e sogros.
No primeiro ano, a firma faturou cerca de 1 bilhão de dólares e lucrou 28 milhões. Margem apertada, mas impressionante para uma empresa recém-criada.
A principal vantagem competitiva não era um logo ou um prédio vistoso. Era algo invisível: a rede de relacionamentos pessoais de Marc Rich.
Ele mantinha um lendário “caderninho preto” com contatos de ministros, diretores de estatais, banqueiros e intermediários em todo o mundo. Não esquecia aniversários, enviava presentes, visitava países que outros executivos evitavam.
Enquanto Rich lia cenários políticos, decidia riscos e fechava acordos, Pincus Green comandava a execução. Era um especialista em logística e frete, capaz de montar rotas de navios petroleiros, negociar as melhores tarifas e usar cartas de crédito para financiar operações de bilhões de dólares, tendo a própria carga como garantia.
Choques do petróleo, revolução iraniana e o auge da fortuna
Entre 1974 e 1983, viveu-se a era de ouro da Marc Rich & Co. O principal fornecedor era o Irã, mas a empresa rapidamente abriu frentes na Nigéria, na Venezuela, na União Soviética e em países africanos considerados “impróprios” para negócios pelas multinacionais ocidentais.
Em alguns momentos, Marc Rich chegou a comprar cerca de 70 milhões de barris de petróleo por ano só do Irã, revendendo para refinarias que ficaram órfãs após as nacionalizações e sanções.
Um dos arranjos mais engenhosos envolveu a União Soviética e Cuba. Moscou era a principal fornecedora de petróleo para Havana, mas o frete era caro e complexo. Rich propôs um triângulo: comprava o petróleo soviético para revender em outros mercados e, em vez de Moscou enviar óleo até Cuba, usava cargas da vizinha Venezuela para abastecer a ilha.
O regime cubano continuava recebendo combustível barato, a União Soviética vendia grandes volumes e o trader ficava com a diferença.
A Revolução Iraniana, em 1979, parecia ser o desastre final para Rich. Seus principais contatos na estatal NIOC foram exilados ou fugiram do país, e um novo governo revolucionário, antiamericano, anticapitalista e antissemita tomou o poder.
Pouco depois, veio a crise dos reféns na embaixada dos Estados Unidos em Teerã e um embargo pesado contra o petróleo iraniano.
A produção caiu de cerca de 7 milhões de barris por dia para algo em torno de meio milhão. O segundo choque do petróleo foi imediato: o barril saltou dos 13 dólares para a faixa de 30 a 40, chegando a 50 em alguns mercados.
Contra todas as expectativas, o novo regime manteve os contratos com Marc Rich. Mesmo sendo americano naturalizado, bilionário e judeu, ele continuou como o maior comprador de petróleo do Irã, porque os novos gestores não sabiam operar o mercado e precisavam desesperadamente de divisas.
Do outro lado, países importadores eram atingidos pelas sanções e viam seus principais fornecedores sumirem.
Quem podia ajudá-los a encontrar petróleo em meio ao caos? De novo, Marc Rich. Instalado na Suíça, fora da jurisdição direta americana, ele comprava de produtores sob embargo e vendia a quem precisasse, cobrando caro. Turbulência, para um trader competente, é sinônimo de margens gordas.
África do Sul, Cuba, países sob sanção e o melhor amigo de Israel
A lógica era sempre parecida. Onde havia embargo, sanção, risco político e falta de infraestrutura, Marc Rich aparecia como o homem que conseguia fazer o petróleo fluir. Ele se tornou peça-chave para que países como a África do Sul, então sob apartheid, não ficassem sem energia.
Israel, por sua vez, tinha uma razão extra para ser grato. Sem acesso direto ao petróleo de muitos vizinhos hostis e traumatizado pela dependência do Irã, o país passou a contar com Rich como uma espécie de seguradora energética.
Em público, Teerã podia ameaçar “varrer Israel do mapa”. Em privado, cargas de petróleo continuavam a ser compradas e trianguladas pelo trader.
Essa relação foi além dos contratos comerciais. Marc Rich mantinha uma cooperação estreita com o Mossad, o serviço de inteligência israelense.
Ele emprestava escritórios em países sensíveis, cedia seu jato para operações discretas e fornecia informações coletadas por sua rede de filiais em lugares onde quase ninguém se aventurava a abrir um escritório.
No livro e em relatos posteriores, integrantes do alto escalão do Mossad reconheceram que Rich ajudou Israel por convicção, como judeu e defensor do Estado israelense. Essa reciprocidade se tornaria decisiva quando o império de Marc Rich entrou na mira de Washington.
Giuliani, 65 acusações e a transformação em vilão perfeito
Até o início dos anos 80, Marc Rich era praticamente desconhecido do grande público. Sua fama restringia-se a diretores de estatais, banqueiros e executivos de commodities. Isso mudou em 1981, quando começou uma investigação do governo americano sobre suas operações.
Em 1983, o procurador do Distrito Sul de Nova York, Rudolph Giuliani, apresentou uma acusação devastadora contra Rich e Pincus Green.
Eram 51 crimes, depois elevados a 65, incluindo sonegação fiscal, evasão de divisas e comércio com inimigos dos Estados Unidos, como Irã, Cuba e África do Sul durante o apartheid.
Um dos pontos era a alegação de que, em determinado ano, Marc Rich teria reportado um lucro de apenas 2 milhões de dólares nos Estados Unidos enquanto sua estrutura global ganhava mais de 100 milhões, direcionando o grosso do resultado para offshores e jurisdições de baixa tributação. Nada muito diferente do que outros bilionários faziam, mas, na mão de um promotor ambicioso, virava munição política e midiática.
A acusação que mais inflamou a opinião pública, porém, foi a de comércio com inimigos. Após a crise dos reféns de 1979, o embargo americano ao Irã tornou qualquer operação com o país um tabu explosivo. Ver um bilionário de charuto cubano na mão, acusado de lucrar com o regime que humilhou os Estados Unidos, era o sonho de qualquer jornalista e de qualquer promotor em busca de projeção.
A equipe jurídica de Rich cometeu erros graves de estratégia. Em vez de reduzir o caso, acabou ampliando seu alcance. Ele chegou a pagar 100 milhões de dólares ao fisco americano, mas isso não encerrou o processo.
Em 1984, suas empresas declararam-se culpadas em parte das acusações e aceitaram um acordo que envolvia 200 milhões de dólares em impostos e multas, então a maior recuperação criminal de tributos da história dos Estados Unidos.
Enquanto isso, Marc Rich tomou a decisão que marcaria sua imagem para sempre: fugiu para a Suíça para evitar ser preso.
Em poucos meses, foi incluído na lista dos dez fugitivos mais procurados do FBI, com recompensa de 750 mil dólares por informações que levassem à sua captura.
Mossad, cidadania israelense e a vida de bilionário foragido em Zug
Oficialmente, Marc Rich era um foragido. Na prática, todo mundo sabia onde ele morava e trabalhava. Ele vivia em uma mansão em Zug, continuava a operar uma trading gigantesca e aparecia em círculos de negócios europeus.
Em 1982, obteve cidadania espanhola. Em julho de 1983, tornou-se cidadão israelense, reforçando laços com o país que ele abastecera de petróleo em momentos críticos.
Do lado americano, o US Marshals e outras agências federais tentaram capturá-lo em diferentes ocasiões. Do lado de Rich, a proteção não era qualquer uma.
Sua segurança era coordenada por Avner Azulay, ex-oficial do Mossad, que montou uma estrutura sofisticada para protegê-lo.
A rede de contatos políticos em Israel e a importância estratégica que Rich tivera nos anos de crise energética ajudaram a blindá-lo. Entre 1983 e 2001, os Estados Unidos nunca conseguiram pôr as mãos no “rei do petróleo”.
Paralelamente, o negócio continuava lucrativo. A Marc Rich & Co seguiu faturando bilhões, consolidando-se como uma das maiores traders do planeta. Mas o desgaste pessoal e a pressão constante começaram a cobrar seu preço.
Erro de 170 milhões, perda de controle e nascimento da Glencore
No início dos anos 90, a imagem de infalibilidade de Marc Rich sofreu um golpe pesado. Em 1992, um de seus principais traders, David Rosenberg, tentou fazer um corner no mercado de zinco em Londres, comprando grandes volumes para elevar artificialmente o preço, em aliança com concorrentes.
Como em muitos corners, a bolha estourou. O preço do zinco caiu, e a operação gerou um prejuízo de cerca de 170 a 172 milhões de dólares. Para uma empresa de margem apertada, foi um baque financeiro e reputacional.
Ao mesmo tempo, Rich já estava politicamente enfraquecido dentro da própria firma. Demitiu um braço direito importante em 1990, bebia e fumava demais, e colegas temiam pela sua saúde. Em 1993, os demais sócios o pressionaram a vender sua participação.
O acordo previa a venda gradual de sua fatia, por cerca de 600 milhões de dólares, valor considerado abaixo do que a empresa realmente valia.
Assim que o controle mudou de mãos, os executivos rebatizaram o grupo como Glencore e começaram a apagar o nome de Marc Rich da história corporativa.
Hoje, a Glencore é conhecida como a maior trading company do mundo em faturamento, mas, por muito tempo, seus materiais oficiais sequer mencionaram o homem que a fundou. Marc Rich, o criador, virou um fantasma incômodo.
Ele ainda tentou montar um novo negócio com o mesmo nome, mas nunca alcançou o volume anterior. A perda de uma filha em 1996, nos Estados Unidos, o atingiu em cheio. Impedido de entrar no país, não pôde acompanhar tudo de perto.
A partir daí, foi se recolhendo, investindo em imóveis, aplicando em bolsa e aumentando o foco em filantropia.
Doações milionárias, lobby israelense e o perdão polêmico de Bill Clinton em 2001
Se a história de Marc Rich terminasse aí, ele seria lembrado como um bilionário fugitivo que transformou o comércio global de petróleo. Mas ainda faltava o capítulo mais controverso.
Ao longo de três décadas, Rich doou mais de 150 milhões de dólares a causas diversas, especialmente em Israel e na Europa. Hospitais, instituições culturais e projetos judaicos figuravam entre os beneficiados.
Ao mesmo tempo, sua ex-esposa se tornou uma doadora relevante na política americana.
Desde 1992, ela contribuiu com cerca de 1,1 milhão de dólares para o Partido Democrata e mais 450 mil dólares para a biblioteca presidencial de Bill Clinton.
Em paralelo, um lobby intenso foi armado em Israel para pedir o perdão de Marc Rich, envolvendo nomes do mais alto escalão político do país.
No último dia de mandato, em janeiro de 2001, Clinton assinou o perdão presidencial para Marc Rich e Pincus Green.
O ato gerou uma revolta imediata em parte da imprensa e da classe política nos Estados Unidos. Uma das principais revistas de negócios do país classificou o gesto como um dos atos mais repugnantes de toda a administração Clinton.
A suspeita de “perdão comprado”, combinando doações milionárias e pressão de aliados estrangeiros, recaiu sobre o ex-presidente. Mesmo assim, o perdão permaneceu válido. Depois de 17 anos como o grande vilão do fisco americano, Marc Rich passou a ser, juridicamente, um homem livre.
Ele viveu ainda mais de uma década após o perdão, mantendo um perfil relativamente discreto. Morreu em 2013, deixando uma fortuna multimilionária, uma fundação ativa e uma biografia que parece ter sido escrita para virar série ou filme de Hollywood, mas que até hoje não ganhou uma adaptação à altura.
Herói ou vilão: qual é o legado de Marc Rich?
A trajetória de Marc Rich é, ao mesmo tempo, um manual de como informação, rede de contatos e apetite a risco podem remodelar mercados inteiros e um lembrete de como a fronteira entre “visionário” e “fora da lei” pode ser tênue no capitalismo real.
Ele foi o homem que ajudou a derrubar o cartel das Sete Irmãs, abriu caminho para que países produtores ganhassem mais com o próprio petróleo, conectou compradores e vendedores que jamais falariam diretamente entre si e fez o comércio global fluir mesmo em meio a guerras, embargos e boicotes ideológicos.
Ao mesmo tempo, fez fortuna operando em zonas cinzentas, comprando de regimes ditatoriais, abastecendo países sob sanção, explorando brechas legais de tributação e desafiando abertamente as ordens de Washington. Sob a lente do governo americano, virou o exemplo perfeito de “bilionário ganancioso que coloca o lucro acima da lei e da pátria”.
Entre o Marc Rich filantropo, generoso com museus e hospitais, e o Marc Rich foragido, protegido por ex-agentes do Mossad e políticos poderosos, há um personagem que continua dividindo opiniões. Gênio indispensável para destravar o comércio global ou símbolo de um capitalismo que ignora qualquer limite moral?
E para você, olhando essa história toda, Marc Rich foi mais gênio necessário para fazer o petróleo circular ou bandido que cruzou todas as linhas em nome do lucro?
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Uma pessoa reagiu a isso.