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Com até 37 mil litros de água por dia capturados da neblina, redes gigantes instaladas nas montanhas do Marrocos abastecem vilarejos inteiros sem eletricidade e transformam ar seco em infraestrutura hídrica real

Escrito por Débora Araújo
Publicado el 12/01/2026 a las 16:47
Com até 37 mil litros de água por dia capturados da neblina, redes gigantes instaladas nas montanhas do Marrocos abastecem vilarejos inteiros sem eletricidade e transformam ar seco em infraestrutura hídrica real
Com até 37 mil litros de água por dia capturados da neblina, redes gigantes instaladas nas montanhas do Marrocos abastecem vilarejos inteiros sem eletricidade e transformam ar seco em infraestrutura hídrica real
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Redes coletoras de neblina no Marrocos capturam até 37 mil litros/dia e abastecem vilarejos sem eletricidade, criando infraestrutura hídrica no Anti-Atlas.

Em 2015, começou a operar no sudoeste do Marrocos um dos projetos de captação atmosférica mais ambiciosos do mundo. Em vez de barragens, tubulações pesadas ou plantas de dessalinização, a solução consistia em tecer enormes redes de polímeros e instalá-las nas encostas do Anti-Atlas, onde ventos úmidos vindos do Atlântico trazem neblina densa ao amanhecer.

A névoa que normalmente desaparece sem deixar rastros tornou-se fonte de abastecimento. Hoje, em dias de forte neblina, o sistema alcança picos de aproximadamente 37.000 litros de água por dia, o suficiente para abastecer centenas de moradores berberes espalhados por aldeias remotas da região de Aït Baamrane — sem bombas, sem energia elétrica e sem perfuração de aquíferos.

O nome técnico dessa rede é CloudFisher, e ela marca um momento raro na história hídrica mundial: transformar ar em água potável de forma contínua e escalável.

Por que o Marrocos precisava de uma solução tão incomum

O sul do Marrocos é marcado por clima árido, baixa pluviometria e vilarejos encravados entre cânions e montanhas. Em muitas comunidades rurais, mulheres e crianças caminhavam longas distâncias diariamente para buscar água em fontes intermitentes. A alternativa — cavar poços — não é simples: os aquíferos são profundos e a salinização é frequente.

Video de YouTube

Investir em dessalinização, embora possível, seria proibitivamente caro para áreas remotas. A captação de chuva também é insuficiente, porque a precipitação média anual em alguns trechos é menor que 200 mm por ano. Sob esse contexto hídrico, quando a ONG marroquina Dar Si Hmad identificou o potencial da neblina atlântica, nasceu uma oportunidade rara: há água no ar, só faltava capturá-la.

Como funciona a tecnologia que transforma neblina em água

A tecnologia do CloudFisher é engenhosa por ser simples: trata-se de uma malha tridimensional feita de polímeros resistentes à radiação UV e à abrasão do vento. As tramas têm a espessura certa para capturar microgotículas em suspensão. Quando a neblina passa através da rede impulsionada pelo vento, as partículas se chocam com os fios, se unem e formam gotas maiores, que escorrem para calhas, descem por gravidade e são levadas a reservatórios.

Não há motores, não há energia elétrica e não há bombas — a força motriz é o vento. A eficiência depende da orientação das redes, da velocidade do ar e da densidade da névoa. No Anti-Atlas, onde ventos atlânticos batem nas montanhas de manhã, o cenário é ideal.

O CloudFisher superou modelos anteriores porque possui uma característica decisiva: ele suporta ventos de até 120 km/h, o que permite área de captação muito maior sem ser destruído. Sistemas antigos rompiam com facilidade, limitando a escala.

Da neblina ao reservatório: o caminho da água potável

Depois de capturada, a água segue para grandes tanques de armazenamento, onde é filtrada e distribuída por uma rede de tubulações subterrâneas que se espalha por quilômetros entre as aldeias. Isso elimina a necessidade de longas caminhadas diárias para obter água — um impacto social profundo em áreas rurais marroquinas onde o trabalho doméstico e o transporte hídrico recaem majoritariamente sobre mulheres.

Em alguns vilarejos, a instalação de torneiras comunitárias foi considerada um marco tão relevante quanto eletrificação ou telefonia móvel na década de 1990. Não apenas porque forneceu água potável, mas porque reduziu o abandono escolar feminino e devolveu tempo para atividades econômicas.

O que significa produzir água “sem chuva”

Do ponto de vista científico, captar neblina não é captar chuva — é captar água atmosférica não precipitada. A diferença é enorme: não depende de nuvens densas nem de processos convectivos, apenas de microgotas suspensas no ar.

Esse tipo de captação é especialmente útil em regiões afetadas por aridez, mudanças climáticas, estiagens recorrentes, falhas em aquíferos e salinização do solo.

Marrocos reúne praticamente todos esses fatores. A estratégia, portanto, não é apenas ambientalmente interessante: é hidrologicamente coerente.

Uma solução sem eletricidade em um mundo que depende de energia

Um detalhe torna este caso especialmente curioso para engenheiros e planejadores de políticas públicas: o sistema funciona sem depender de energia externa.

Enquanto usinas de dessalinização consomem quantidades enormes de eletricidade, e mesmo sistemas de bombeamento exigem potência constante, o CloudFisher opera com vento e gravidade. Isso cria um modelo de abastecimento com baixo custo operacional e alta resiliência — duas características essenciais para países áridos e em desenvolvimento.

Video de YouTube

Além disso, cria um paradigma que desafia a lógica tradicional do setor hídrico: água não precisa vir apenas do subsolo ou do mar, ela pode vir do ar.

Impactos sociais: o que mudou nas aldeias berberes

Relatos de campo indicam transformações sociais claras:

  • redução na distância percorrida para coleta de água;
  • redução no abandono escolar;
  • incremento no tempo dedicado a atividades produtivas;
  • melhoria no saneamento doméstico;
  • redução do consumo de água de baixa qualidade.

Em algumas comunidades, a água gerada pelas redes começou a ser usada para criar pequenas hortas, algo impensável há uma década. Isso não transforma o sul do Marrocos no Vale do Nilo, mas demonstra como pequenas quantidades diárias de água podem alterar economias domésticas inteiras.

Pode ser replicado em outros desertos?

Sim, e já está acontecendo. A mesma tecnologia está começando a ser testada em:

  • Canárias
  • Cabo Verde
  • Peru (região costeira)
  • Chile (Atacama)
  • Etiópia
  • Eritreia

O fator decisivo não é apenas aridez, mas a presença de fluxo de neblina carregada, algo comum em desertos costeiros frios influenciados por correntes oceânicas.

Isso significa que países que enfrentam desertificação acelerada, como Chile e Peru, podem ter nessa tecnologia uma alternativa barata para abastecimento rural.

A pergunta final: isso resolve crises hídricas globais?

Não, sozinho não resolve. Mas muda o mapa. Em vez de depender apenas de rios, aquíferos e grandes obras hidráulicas, aparece a quarta via: a água atmosférica não precipitada.

No Marrocos, essa via já abastece vilarejos inteiros e opera há anos com manutenção baixíssima, o que faz muitos especialistas enxergarem o projeto como um futuro complemento para áreas áridas que não podem bancar infraestrutura pesada.

Numa era de aquecimento global, isso é estratégico: as mudanças climáticas não afetam apenas volumes de chuva, mas padrões de nebulosidade, ventos e eventos costeiros — exatamente os fatores que o CloudFisher aproveita.

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Débora Araújo

Débora Araújo é redatora no Click Petróleo e Gás, com mais de dois anos de experiência em produção de conteúdo e mais de mil matérias publicadas sobre tecnologia, mercado de trabalho, geopolítica, indústria, construção, curiosidades e outros temas. Seu foco é produzir conteúdos acessíveis, bem apurados e de interesse coletivo. Sugestões de pauta, correções ou mensagens podem ser enviadas para contato.deboraaraujo.news@gmail.com

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