1. Início
  2. / Ciência e Tecnologia
  3. / Milho gigante do México cospe gosma que tira nitrogênio do ar, chega a 6 metros, dispensa fertilizante e pode alimentar bilhões: cientistas cruzam a variedade Olotón de Totontepec enquanto acordo secreto divide royalties com indígenas em Oaxaca para cortar químicos
Tempo de leitura 7 min de leitura Comentários 4 comentários

Milho gigante do México cospe gosma que tira nitrogênio do ar, chega a 6 metros, dispensa fertilizante e pode alimentar bilhões: cientistas cruzam a variedade Olotón de Totontepec enquanto acordo secreto divide royalties com indígenas em Oaxaca para cortar químicos

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 23/01/2026 às 00:25
Atualizado em 23/01/2026 às 00:34
Milho gigante de Totontepec libera gosma, usa fixação de nitrogênio e revela como Olotón pode reduzir fertilizante e químicos na agricultura.
Milho gigante de Totontepec libera gosma, usa fixação de nitrogênio e revela como Olotón pode reduzir fertilizante e químicos na agricultura.
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
  • Reação
51 pessoas reagiram a isso.
Reagir ao artigo

Nas montanhas de Totontepec, em Oaxaca, um milho Olotón cresce até 6 metros e solta gosma nas raízes aéreas. O mucigel abriga bactérias que fixam nitrogênio e permite à planta absorver até 80% do que precisa do ar, reduzindo fertilizantes químicos e custos enquanto cientistas cruzam a variedade e negociam

Em Totontepec, no sul do México, um milho gigante cultivado por agricultores indígenas há séculos virou foco de pesquisa por um motivo incomum: a gosma viscosa expelida por raízes suspensas pode reduzir a dependência de fertilizantes químicos ao ajudar a planta a obter nitrogênio diretamente do ar.

A planta, conhecida como Olotón, cresce até 6 metros e chamou atenção por combinar altura extrema com um mecanismo biológico raro em cereais. O debate agora mistura ciência agrícola, impacto ambiental e disputa por direitos, porque um acordo confidencial prevê divisão de royalties com a comunidade indígena em Oaxaca.

Onde isso aconteceu e por que Totontepec entrou no mapa

Milho gigante de Totontepec libera gosma, usa fixação de nitrogênio e revela como Olotón pode reduzir fertilizante e químicos na agricultura.

O fenômeno está ligado à cidade de Totontepec, em Oaxaca, no sul do México, uma região montanhosa onde esse milho vem sendo cultivado com cuidado por agricultores indígenas ao longo de séculos, possivelmente milênios. A localização é parte do enigma: trata-se de uma variedade mantida viva fora do circuito industrial, preservada por comunidades locais em uma área rural envolta em névoa.

A descoberta científica não começou com laboratórios estrangeiros instalados de imediato, mas com curiosidade e observação de campo. Um dos nomes citados nessa trajetória é Howard Yana Shapiro, que já morava em Oaxaca em 1980 quando ouviu falar que existia “milho gigante” naquela região, e decidiu verificar.

O que torna o milho gigante tão diferente das lavouras comuns

Milho gigante de Totontepec libera gosma, usa fixação de nitrogênio e revela como Olotón pode reduzir fertilizante e químicos na agricultura.

O milho Olotón descrito em Totontepec não segue o padrão de lavouras amplamente vistas nas Américas. Enquanto uma plantação comum pode ter de 2,4 a 3 metros, ali foram observadas plantas de 16 a 18 pés de altura, o equivalente ao patamar de até 6 metros destacado no relato.

A diferença visual mais estranha está nas raízes. Há estruturas semelhantes a dedos que ficam suspensas a metros do chão. Essas raízes aéreas expelem um muco espesso e viscoso, a gosma que virou peça central de tudo. Não é um detalhe estético: a gosma é o mecanismo funcional que muda a conta do nitrogênio.

A gosma, o mucigel e a fixação de nitrogênio que parecia ficção

Milho gigante de Totontepec libera gosma, usa fixação de nitrogênio e revela como Olotón pode reduzir fertilizante e químicos na agricultura.

O ponto de virada é a fixação de nitrogênio. O ar é composto por 78% de nitrogênio, mas quase todas as plantas não conseguem converter esse nitrogênio atmosférico em uma forma que possam usar, como a amônia. A exceção clássica são as leguminosas, que fazem isso em associação com microrganismos, enquanto cereais como trigo, milho, arroz, sorgo, painço e cevada, base de mais de 50% da dieta mundial, normalmente não conseguem.

No Olotón, a gosma nas raízes cria um cenário diferente. O mucigel foi descrito como repleto de bactérias fixadoras de nitrogênio, microrganismos que normalmente vivem no solo. A gosma atua como uma espécie de escudo e ajuda a formar um ambiente com baixo teor de oxigênio, condição que favorece a conversão do nitrogênio do ar em uma forma utilizável pela planta. O resultado observado é que a planta pode absorver até 80% do nitrogênio de que precisa diretamente do ar.

Por que isso mexe com a dependência global de fertilizantes químicos

Vídeo do YouTube

A agricultura moderna compensa a incapacidade dos cereais de fixar nitrogênio aplicando grandes quantidades de fertilizantes ricos nesse elemento. Isso é decisivo para elevar produtividade e sustentar o abastecimento de um planeta com 8 bilhões de pessoas, mas tem custos ambientais e financeiros.

Há um problema estrutural apontado: quando o fertilizante é aplicado, muitas plantas absorvem apenas cerca de metade. O restante pode poluir lençóis freáticos e contribuir para áreas eutróficas, incluindo zonas mortas associadas ao excesso de nitrogênio, como as mencionadas no Golfo do México. Além disso, fertilizante não é barato, e em partes do mundo agricultores sequer conseguem comprar, o que significa colheitas menores e menos alimentos.

Nesse cenário, a gosma do milho Olotón passa a ser vista como uma possibilidade de reduzir a dose de químicos, aliviar custo e mitigar impactos ambientais. A promessa é mexer no gargalo mais caro e mais poluente da produção de cereais: o nitrogênio.

Como a pesquisa evoluiu e o que foi construído em Oaxaca

Mesmo após o contato inicial em 1980, não houve resposta rápida. O trabalho científico estruturado demorou, e foi descrito um intervalo de quase 30 anos até reunir a equipe certa para estudar a variedade com profundidade.

Quando o esforço se consolidou, a estratégia envolveu a comunidade local. Foi citado que um laboratório foi construído lá, com pessoas da comunidade trabalhando junto com cientistas mexicanos e a cidade de Totontepec. A pesquisa se concentrou em estabelecer os fatos sobre como o mucigel funciona, como ajuda a planta a crescer tanto e por que a gosma está associada à presença de bactérias fixadoras de nitrogênio.

Após uma década de pesquisa, a evidência do mecanismo foi tratada como um marco, por apontar um cereal com capacidade de obter nitrogênio do ar em níveis relevantes para o crescimento.

O ponto crítico: quem tem direito sobre uma planta preservada por indígenas

Quase imediatamente após o avanço científico, surgiu a pergunta sobre direitos. O tema foi enquadrado por algumas pessoas como um possível caso de biopirataria, isto é, apropriação indevida de biodiversidade para pesquisa ou desenvolvimento de produtos comerciais.

A discussão é sensível porque a biodiversidade não é separada das pessoas que a preservam. No caso do Olotón, foi dito que no México um acordo foi negociado entre uma empresa e uma comunidade local para garantir consentimento prévio informado para a pesquisa e estabelecer compartilhamento de benefícios potenciais.

O arranjo descrito inclui uma regra objetiva: a cada semente vendida, metade do valor dos direitos autorais seria destinada à comunidade. Ao mesmo tempo, há ressalvas: algumas pessoas seguem cautelosas, principalmente porque o acordo permanece confidencial. A gosma que pode cortar químicos também abriu um debate sobre quem lucra com a inovação.

Por que o acordo ainda não rendeu dinheiro e o que falta para virar lavoura de escala

Apesar da promessa, o relato deixa claro que ainda não houve lucro, e isso importa por um motivo simples: agricultores não vão cultivar em larga escala se a planta não conseguir competir com o milho produzido industrialmente.

Por isso, pesquisadores estão cruzando o Olotón com outras variedades para transferir propriedades únicas. Nesse processo, foi citado que já conseguiram reduzir quase pela metade o tempo necessário para o crescimento e avançaram na fixação de nitrogênio. O estágio atual apontado fala em cerca de 40% do nitrogênio do ar fixado a partir de bactérias locais presentes em campos dos Estados Unidos, mostrando que o objetivo é reproduzir parte do fenômeno fora do contexto original.

Ainda assim, o caminho é longo. Foi indicado que podem faltar três ou quatro gerações para chegar a um milho híbrido estabilizado. A gosma original de Totontepec é o modelo, mas a indústria exige previsibilidade genética e desempenho consistente.

O efeito dominó: milho, arroz e a ambição de levar a lógica a outros cereais

O projeto não se limita ao milho. O cenário discutido inclui milho fixador de nitrogênio e arroz fixador de nitrogênio, com a pergunta natural sobre o próximo alvo: trigo, painço e cevada, todos citados como cereais relevantes na dieta global.

A lógica é direta: em um mundo ideal, todas as culturas fixariam seu próprio nitrogênio, reduzindo a necessidade de fertilizante. Isso mexe com custo, acesso no Sul global, produtividade e impactos ambientais associados ao excesso de químicos.

Em Totontepec, Oaxaca, no sul do México, um milho Olotón de até 6 metros colocou a gosma viscosa das raízes aéreas no centro de uma disputa científica e política: a mucilagem abriga bactérias fixadoras de nitrogênio, pode permitir absorção de até 80% do nitrogênio do ar e reduzir fertilizante, mas a comercialização depende de cruzamentos, gerações de estabilização e de um acordo confidencial que divide royalties com indígenas.

Você acha que a gosma do milho Olotón vai virar solução global contra fertilizantes químicos, ou vai ficar restrita por tempo demais às montanhas de Oaxaca?

Inscreva-se
Notificar de
guest
4 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Feedbacks
Visualizar todos comentários
Carlos
Carlos
29/01/2026 00:19

Quando eu era menino vagamente lembro de ter visto uns pés de milho com essa característica em alguma residência com esse tipo de raízes no caule. Mas o plantio desse milho em larga escala é ótimo para o meio ambiente e para a economia global. Mas não falaram da produção por ha e quantas espigas da por pé. Caso a produção seja menos que as variedades plantadas atualmente não resolve nada para a segurança alimentar mundial.

Jose maria de liz
Jose maria de liz
24/01/2026 20:48

Eu conheci um milho com essas características um milho criolo que meu pai plantava so que perdemos as sementes ele tinha somente 8 carreiras de grãos tenho procurado por guardiões de sementes mas até o momento sem susseço

Thalissa
Thalissa
24/01/2026 19:12

Onde comprar a semente

Tags
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
4
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x