Fire Point lidera a fabricação de mísseis de longo alcance em fábricas secretas da Ucrânia, mudando o equilíbrio do conflito.
Em meio à guerra contra a Rússia, a Ucrânia intensificou a produção de mísseis de longo alcance em fábricas secretas, espalhadas e ocultas para escapar de ataques inimigos. A estratégia, liderada por empresas nacionais como a Fire Point, ganhou força ao longo de 2024 e 2025, enquanto o país busca reduzir a dependência de apoio externo.
A produção acontece em locais altamente sigilosos, com rígidas regras de segurança, justamente porque esses mísseis se tornaram um dos pilares da defesa ucraniana e da sua capacidade de atingir alvos estratégicos muito além da linha de frente.
Logo no início do conflito, a Ucrânia dependia fortemente de estoques herdados da era soviética e do envio de armas ocidentais.
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No entanto, com o prolongamento da guerra e as incertezas geopolíticas, o país passou a acelerar o desenvolvimento interno de armamentos, priorizando autonomia, velocidade de produção e adaptação ao campo de batalha.
Fábricas ocultas e produção sob sigilo absoluto
O nível de sigilo em torno dessas fábricas impressiona. Visitantes são conduzidos vendados, obrigados a desligar celulares e impedidos de registrar qualquer detalhe estrutural dos prédios.
Dentro das instalações, câmeras não podem captar pilares, janelas ou rostos de trabalhadores. O objetivo é claro: proteger a cadeia produtiva de ataques russos, que já atingiram duas unidades ligadas à Fire Point.
Apesar das perdas, a empresa manteve a produção ativa. Essa dispersão industrial se tornou uma estratégia de sobrevivência.
Em vez de grandes plantas centralizadas, a Ucrânia aposta em unidades menores e móveis, dificultando a neutralização completa da capacidade produtiva.
Mísseis de longo alcance entram no centro da estratégia militar
Segundo o presidente Volodymyr Zelensky, mais de 50% das armas utilizadas atualmente na linha de frente já são fabricadas no próprio país.
Quase todo o arsenal de mísseis de longo alcance ucranianos agora é nacional, um marco relevante em meio ao conflito.
Esses armamentos permitem ataques profundos no território inimigo, atingindo refinarias, depósitos de munição e fábricas militares russas.
Trata-se de um tipo de capacidade que países ocidentais demonstraram relutância em fornecer diretamente, o que forçou a Ucrânia a desenvolver suas próprias soluções.
Fire Point e o míssil Flamingo
No centro dessa transformação está a Fire Point, uma startup que sequer existia antes da invasão russa em 2022. Hoje, a empresa produz cerca de 200 drones por dia e desenvolveu o míssil de cruzeiro Flamingo, já utilizado em combate.
A diretora técnica da companhia, Iryna Terekh, explica que o Flamingo passou por mudanças simbólicas e práticas. Inicialmente rosa, o míssil agora é pintado de preto. Segundo ela, a razão é simples: “porque come petróleo russo”.
O armamento lembra o foguete alemão V1 da Segunda Guerra Mundial, com um grande motor a jato montado sobre um tubo do comprimento de um ônibus.
O alcance estimado do Flamingo chega a 3 mil quilômetros, colocando-o na mesma categoria de armas como o Tomahawk americano, que os Estados Unidos se recusaram a fornecer à Ucrânia durante o governo Donald Trump.
Ataques profundos e impacto econômico
Os ataques com mísseis e drones de longo alcance têm um objetivo estratégico claro: enfraquecer a economia de guerra da Rússia.
O comandante das Forças Armadas da Ucrânia, Oleksandr Syrskyi, afirma que essas ações já causaram prejuízos superiores a US$ 21,5 bilhões à economia russa apenas neste ano.
Ruslan, oficial das Forças de Operações Especiais, resume a lógica da ofensiva: “Reduzir as capacidades militares do inimigo e o seu potencial econômico”. Segundo ele, centenas de ataques atingiram refinarias, depósitos e fábricas dentro do território russo.
Limitações, adaptação e inteligência tática
Mesmo com os avanços, a Ucrânia reconhece que não consegue igualar a escala industrial russa. Moscou lança, em média, cerca de 200 drones Shahed por dia, enquanto a resposta ucraniana chega à metade desse número.
Além disso, ataques russos com mísseis de longo alcance continuam afetando a infraestrutura civil, causando apagões e dificuldades para milhões de pessoas.
Ainda assim, a aposta ucraniana é lutar com inteligência. “Estamos tentando lutar com tática”, afirma Terekh.
O designer-chefe da Fire Point, Denys Shtilerman, reforça que não existe uma “arma milagrosa”. Para ele, “o que muda o jogo é a nossa vontade de vencer”.
Autossuficiência e o futuro do apoio internacional
A busca por independência também passa pela escolha de fornecedores. A Fire Point decidiu priorizar componentes produzidos dentro da Ucrânia e evitar peças da China e dos Estados Unidos.
Segundo Terekh, a instabilidade política americana cria riscos para a continuidade dos programas militares.
Até o fim do governo Joe Biden, os Estados Unidos haviam enviado quase US$ 70 bilhões em apoio militar à Ucrânia.
Esse fluxo foi interrompido posteriormente, transferindo maior responsabilidade à Europa e ampliando as incertezas sobre garantias de segurança futuras.
Para Terekh, fabricar seus próprios mísseis é mais do que uma necessidade militar. “É a única maneira de realmente fornecer garantias de segurança”, afirma.
Segundo ela, a experiência ucraniana serve como um alerta duro para o restante da Europa sobre a importância da preparação em tempos de guerra.

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