Na China de Xi Jinping, o modelo chinês mistura discurso contra assistencialismo, jornadas 996, Estado forte na economia e gasto social baixo; levou centenas de milhões à classe média desde os anos 1980, mas aprofundou desigualdade, encareceu a família e acelerou o envelhecimento da população trabalhadora urbana no século XXI, conforme reportagem do Brasil Paralelo
Em 10 de dezembro de 2021, em uma conferência do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping defendeu que países que apostaram em benefícios sociais elevados caíram na armadilha da renda média e ficaram presos em baixo crescimento. Ao criticar o que chamou de “assistencialismo latino americano”, o presidente descreveu de forma indireta o Brasil e apresentou o modelo chinês como caminho de disciplina fiscal, foco em produtividade e rejeição a políticas de transferência de renda vistas como populistas.
Desde a abertura econômica dos anos 1980, o país combinou partido único, centralização política e economia cada vez mais de mercado. O resultado foi um crescimento acelerado, impulsionado por maior força de trabalho do mundo, salários baixos e atração maciça de fábricas estrangeiras, ao mesmo tempo em que o Estado manteve gasto social reduzido e aceitou custos humanos relevantes para sustentar o ritmo de industrialização e urbanização em larga escala.
Discurso contra o assistencialismo e armadilha da renda média
No discurso de 2021, Xi Jinping argumentou que “benefícios sociais aumentados não podem ser reduzidos” e que isso criaria grupos dependentes, pouco produtivos e politicamente difíceis de enfrentar.
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Essa leitura sustenta a ideia de que o modelo chinês evita o assistencialismo permanente, privilegiando investimento em indústria, infraestrutura e capacidade exportadora.
A mensagem é clara: a estabilidade do regime depende mais de crescimento contínuo do que de benefícios universais.
Na prática, isso significou manter salários relativamente baixos por décadas, adiar a expansão plena de bem-estar social e usar a poupança das famílias para financiar bancos e empresas estatais.
Ao mesmo tempo, o governo defende a meta de “prosperidade comum”, mas com ênfase em disciplina e trabalho intenso, não em ampliação de transferências de renda.
Partido comunista, economia de mercado e Estado empresário

Um dos pilares do modelo chinês é o Estado empresário.
O governo é dono de centenas de milhares de empresas estatais e mantém participação acionária em um grande número de companhias privadas, garantindo influência direta sobre setores estratégicos, crédito e decisões de investimento.
O partido não só governa, como também participa do comando de conglomerados industriais e financeiros, organizando fusões, financiando projetos externos e administrando a desvalorização da moeda para favorecer exportações.
Ao mesmo tempo, a economia opera com lógica de mercado: empresas competem por produtividade, exportações e tecnologia, cidades disputam investimentos e talentos, e o ambiente de negócios se molda a metas definidas pelo partido.
Essa combinação produz um sistema em que o governo é forte na direção macroeconômica, mas fraco na proteção de direitos trabalhistas e na oferta de benefícios sociais amplos, deixando a base de segurança dos cidadãos mais dependente de emprego e poupança privada do que de redes públicas de proteção.
Shenzhen, “tempo é dinheiro” e cultura 996
A cidade de Shenzhen sintetiza o modelo chinês de crescimento acelerado.
Em poucas décadas, passou de vila de pescadores a polo tecnológico que concentra gigantes como Tencent e Huawei e responde por centenas de bilhões de dólares em exportações anuais, com forte peso de eletrônicos.
Em um de seus cruzamentos, o slogan “tempo é dinheiro, eficiência é vida” resume a lógica que guiou a transformação.
No plano concreto, essa lógica se traduziu em jornadas conhecidas como cultura 996: trabalhar das 9 horas da manhã às 9 da noite, seis dias por semana, especialmente em empresas de tecnologia e setores competitivos.
Mesmo após decisões judiciais reconhecerem a ilegalidade da prática sem compensação adequada, a fiscalização limitada e a pressão por produtividade mantêm rotinas exaustivas em muitos ambientes corporativos chineses, reforçando uma cultura de sacrifício pessoal em nome do crescimento e da estabilidade do emprego.
Casos extremos de trabalho e limites da fiscalização
O modelo chinês também ficou marcado por casos extremos em cadeias globais de produção.
Fábricas ligadas a grandes marcas internacionais registraram episódios de jornadas tão longas e metas tão rígidas que resultaram em protestos, denúncias e até séries de suicídios de funcionários em 2010, gerando forte repercussão internacional e medidas emergenciais de prevenção.
Anos depois, outros casos apontaram exposição de trabalhadores a solventes tóxicos e relatos de trabalho infantil em fornecedores industriais, indicando que a combinação de custos baixos, metas agressivas e fiscalização irregular produz riscos constantes à saúde e à dignidade da força de trabalho.
Embora algumas práticas tenham sido formalmente condenadas pelo Judiciário e por autoridades trabalhistas, a competição entre empresas e cidades mantém uma pressão estrutural por mais horas, mais produtividade e menos custo por trabalhador.
Hukou, gasto social baixo e desigualdade territorial
Outro elemento central do modelo chinês é o sistema de registro residencial conhecido como hukou, que funciona como um “passaporte interno”.
O acesso a saúde, educação, previdência e moradia subsidiada depende do local oficial de nascimento.
Migrantes do campo para grandes cidades industriais frequentemente mantêm direitos sociais reduzidos em relação aos moradores originais.
Em 2016, a China gastava uma parcela do PIB em programas sociais bem menor que a de países desenvolvidos e significativamente abaixo da brasileira, aliviando a pressão sobre orçamentos públicos, mas forçando famílias a poupar mais e assumir diretamente o custo de emergências de saúde e educação.
Esse arranjo permitiu canalizar grande parte da poupança doméstica para bancos e investimentos produtivos, ao preço de um abismo visível entre metrópoles costeiras ricas e regiões interiores menos desenvolvidas, e entre trabalhadores com hukou local e migrantes com cobertura parcial de direitos.
Trabalho intenso, classe média e população envelhecendo
O modelo chinês levou o país a se tornar mais rico, em média, do que o Brasil, com uma parcela significativa da população entrando em faixas de renda associadas à classe média urbana.
Isso se deu graças à combinação de força de trabalho numerosa, salários historicamente baixos, infraestrutura eficiente e ambiente regulatório mais flexível para empresas industriais e de serviços intensivos em mão de obra.
Mas o custo social foi elevado.
Trabalhadores chineses acumulam, em média, centenas de horas a mais de trabalho por ano em comparação com brasileiros.
Ao mesmo tempo, o encarecimento do custo de vida nas grandes cidades, a pressão por desempenho e a falta de redes amplas de proteção social contribuíram para queda acentuada da taxa de natalidade.
Projeções apontam que a China tende a se tornar um dos países mais envelhecidos do mundo até 2050, o que coloca em xeque a sustentabilidade de longo prazo de um modelo baseado em abundância de jovens trabalhadores baratos.
Por que o modelo chinês não encaixa facilmente no Brasil
Diante do fraco crescimento brasileiro nas últimas décadas, é comum que parte do debate nacional se pergunte se bastaria importar o modelo chinês para destravar a economia.
A comparação direta, porém, ignora diferenças culturais, institucionais e legais profundas.
O Brasil possui legislação trabalhista mais protetiva, nível mais alto de benefícios sociais e uma sociedade que historicamente reage a tentativas de aumento de jornada ou redução rápida de direitos.
Além disso, fatores que ajudaram a China a atrair fábricas, como impostos corporativos mais baixos, infraestrutura logística superior e energia mais barata, não se replicam automaticamente por decreto.
Copiar apenas a parte dura do modelo chinês, como jornadas extensas e gasto social reduzido, sem reproduzir as condições de competitividade e investimento, significaria impor custos sociais sem garantir o mesmo ganho de produtividade e de renda, gerando resistência política e provável instabilidade.
No limite, a experiência chinesa mostra um país que uniu partido comunista, economia de mercado e trabalho intenso para acelerar riqueza material, mas aceitou desigualdades relevantes, forte controle estatal e envelhecimento rápido da população como efeitos colaterais.
A questão para o Brasil é menos se o modelo chinês funciona lá e mais quais elementos, se algum, podem ser adaptados sem romper com a cultura de direitos sociais e com o arcabouço constitucional brasileiro.
Você acha que o modelo chinês valeria o custo social se fosse aplicado no Brasil em troca de mais crescimento econômico ou o preço em direitos e qualidade de vida seria alto demais?
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