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Montes enigmáticos e tubos brancos surgem do solo a beira de uma longa estrada desértica – são pessoas morando abaixo do chão, em uma cidade única, para fugir do calor extremo; conheça

Publicado el 27/12/2025 a las 09:30
Actualizado el 27/12/2025 a las 09:36
Cidade, Mineração, Subsolo, Casas subterrâneas
Imagem: Ilustração artística
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No deserto australiano, moradores de Coober Pedy vivem em casas subterrâneas escavadas na rocha, aproveitando estabilidade térmica, custos mais baixos, proteção climática e um modo de vida moldado por mineração, calor extremo e soluções adaptativas singulares

Na longa estrada rumo ao centro da Austrália, a 848 km ao norte de Adelaide, surgem montes enigmáticos que anunciam Coober Pedy, cidade mineradora onde viver abaixo da terra se tornou resposta prática ao calor extremo e à economia local.

Antes mesmo de avistar a cidade, o viajante encontra pirâmides de areia clara espalhadas pelo terreno árido, resultado direto de décadas de mineração intensa de opala.

O entorno é dominado por poeira rosa-salmão e vegetação rala, criando um cenário desolado que reforça a sensação de isolamento no coração do outback australiano.

Entre esses montes, tubos brancos emergem do solo, funcionando como poços de ventilação que denunciam a presença de casas subterrâneas invisíveis à primeira vista.

Esses elementos marcam a aproximação de Coober Pedy, um assentamento com cerca de 2,5 mil habitantes moldado por condições climáticas extremas e pela exploração mineral.

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Cidade com casas subterrâneas construída sob a rocha

Grande parte dos pequenos picos da região corresponde a resíduos de solo removidos durante a extração de opala ao longo de várias gerações.

Esses resíduos também indicam outra característica fundamental do local, já que muitas moradias foram escavadas diretamente nas rochas da região.

Cerca de 60% da população vive em casas subterrâneas abertas no arenito e no siltito ricos em ferro, materiais abundantes no subsolo local.

Em vários pontos, os únicos indícios de habitação são os poços de ventilação e montes de terra acumulados junto às entradas escavadas.

Durante o inverno, esse modo de vida pode parecer apenas excêntrico para observadores externos pouco familiarizados com o cotidiano da cidade.

Calor extremo como fator decisivo

No verão, porém, Coober Pedy dispensa explicações, pois as temperaturas chegam a 52°C, tornando a vida na superfície quase insuportável.

O calor é tão intenso que pássaros caem do céu e aparelhos eletrônicos precisam ser guardados dentro de refrigeradores para funcionar.

O nome Coober Pedy significa homem branco em um buraco, tradução livre de uma expressão aborígene australiana que descreve a adaptação local.

Nos últimos anos, esse costume revelou-se ainda mais relevante diante de ondas de calor cada vez mais intensas em várias regiões.

Enquanto incêndios florestais devastam áreas extensas e temperaturas recordes desafiam a sobrevivência, a experiência local chama atenção.

Antecedentes históricos

Coober Pedy não é o primeiro nem o maior assentamento subterrâneo já habitado por seres humanos ao longo da história.

Pessoas buscam abrigo sob a terra há milhares de anos para enfrentar ambientes hostis e climas extremos em diferentes continentes.

Há registros de ancestrais humanos deixando ferramentas em cavernas na África do Sul há dois milhões de anos.

Neandertais também criaram estruturas complexas com estalagmites em uma gruta francesa durante a idade do gelo, há 176 mil anos.

Até chimpanzés foram observados usando cavernas para se refrescar durante períodos de calor extremo no sudeste do Senegal.

Capadócia como paralelo

Outro exemplo notável é a Capadócia, região do centro da Turquia conhecida por sua geologia peculiar e construções esculpidas em rochas vulcânicas.

O planalto árido abriga cumes e chaminés naturais transformados em casas, criando uma paisagem frequentemente comparada a um conto de fadas.

A parte mais impressionante, porém, encontra-se sob a superfície, escondida em uma vasta rede de cidades subterrâneas antigas.

Segundo a crença popular, a descoberta moderna começou com o desaparecimento de galinhas em uma residência local.

Em 1963, um morador derrubou uma parede e revelou um túnel que levava a corredores extensos e salas ocultas.

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A cidade de Derinkuyu

Essa passagem era uma das entradas de Derinkuyu, uma cidade subterrânea construída provavelmente perto do século 8° a.C.

Derinkuyu integra um conjunto de centenas de moradias escavadas em cavernas na região, usadas de forma contínua por milênios.

A estrutura possuía poços de ventilação, abastecimento de água, estábulos, igrejas e armazéns interligados por corredores profundos.

Em caso de invasão, a cidade podia abrigar até 20 mil pessoas de forma relativamente segura.

Assim como em Coober Pedy, o objetivo principal era lidar com um clima continental severo e instável.

Controle térmico natural

Na superfície da Capadócia, as temperaturas variam de abaixo de zero no inverno a mais de 30 °C no verão.

No subsolo, entretanto, a temperatura permanece estável em torno de 13 °C ao longo de todo o ano.

Essa estabilidade transformou as cavernas em exemplos eficientes de refrigeração passiva sem consumo direto de energia.

Atualmente, antigas galerias armazenam milhares de toneladas de batatas, limões e repolhos sem necessidade de refrigeração artificial.

A procura por esse tipo de espaço cresceu tanto que novas cavernas continuam sendo escavadas na região.

Chegada ao centro urbano

Na estrada final para Coober Pedy, o viajante alcança o centro da cidade, aparentemente semelhante a outros assentamentos do deserto australiano.

As ruas são cobertas por poeira rosada, e há restaurantes, bares, supermercados e postos de gasolina em funcionamento regular.

No alto de uma colina, uma escultura metálica representa a única árvore da cidade, observando silenciosamente o entorno árido.

À primeira vista, a superfície parece vazia, com casas espaçadas e pouca movimentação aparente durante o dia.

Essa impressão se desfaz ao compreender que grande parte da vida cotidiana acontece abaixo do solo.

Vida escondida sob os pés

Algumas casas aparentam normalidade externa, mas revelam passagens subterrâneas que se aprofundam gradualmente no terreno.

A transição lembra atravessar um guarda-roupa para um espaço inesperado, como na obra As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis.

Outras entradas são mais evidentes, como no camping Riba’s, onde tendas ficam instaladas em nichos subterrâneos profundos.

O acesso ocorre por um túnel escuro que conduz a áreas protegidas do calor extremo da superfície.

Em Cooper Pedy, as casas precisam ficar a pelo menos quatro metros de profundidade para evitar desabamentos estruturais.

Conforto térmico constante

Sob a rocha, a temperatura se mantém em torno de 23 °C, independentemente das condições externas ao longo do ano.

Moradores da superfície enfrentam verões escaldantes e noites de inverno com temperaturas que caem até 2-3 °C.

Já as residências subterrâneas preservam uma temperatrua estável e confortável durante as 24 horas do dia.

Além do conforto, há vantagens econômicas significativas associadas a esse modelo habitacional singular.

A cidade gera toda a eletricidade que consome, com 70% proveniente de fontes eólica e solar.

Economia e custos de vida

Mesmo assim, o uso de ar-condicionado na superfície é caro e, muitas vezes, inviável para os moradores locais.

Jason Wright, administrador do camping Riba’s, afirma que viver acima do solo exige gastos elevados com aquecimento e refrigeração.

Segundo ele, as temperaturas frequentemente ultrapassam 50°C durante o verão, tornando o consumo energético excessivo.

Em contraste, casas subterrâneas costumam ter preços relativamente baixos no mercado imobiliário local.

Em um leilão recente, casas de três quartos foram vendidas por cerca de 40 mil dólares australianos.

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Diferença de valores

Esse valor equivale a aproximadamente R$ 126 mil, mesmo considerando que muitas propriedades exigiam reformas significativas.

Ainda assim, a diferença é grande quando comparada à cidade grande mais próxima, Adelaide.

Na capital regional, o preço médio das residências chega a 700 mil dólares australianos, cerca de R$ 2,25 milhões.

Além do custo, as casas subterrâneas oferecem benefícios adicionais pouco comuns em áreas urbanas tradicionais.

Entre eles está a ausência quase total de insetos no interior das moradias escavadas.

Silêncio e proteção nas casas subterrâneas

Segundo Wright, as moscas abandonam as pessoas ao chegarem à porta, evitando o ambiente escuro e frio interno.

Também não há poluição sonora nem luminosa, criando um espaço silencioso e protegido do excesso de estímulos externos.

Curiosamente, o estilo de vida subterrâneo pode oferecer alguma proteção durante terremotos ocasionais na região.

Wright relata que os tremores produzem apenas um ruído vibrante que atravessa o subsolo sem causar abalos significativos.

Ele menciona dois eventos sísmicos desde sua mudança, sem ter sentido impactos diretos em sua casa.

Limites estruturais

Apesar disso, o nível de segurança depende do tamanho, da profundidade e da complexidade da construção subterrânea.

A possibilidade de aplicar esse modelo em outros locais levanta questionamentos sobre viabilidade e adaptação climática.

Existem razões específicas que explicam por que Coober Pedy se tornou particularmente adequada a esse tipo de moradia.

A principal delas é a natureza das rochas locais, descritas como extremamente moles e fáceis de escavar.

Barry Lewis afirma que o material pode ser raspado até com canivete ou unha.

Escavação facilitada

Nas décadas de 1960 e 70, moradores ampliaram casas usando pás, picaretas e explosivos, como nas minas de opala.

Muitos aproveitaram poços abandonados como ponto de partida, reduzindo o esforço inicial de escavação.

Atualmente, equipamentos industriais são usados para abrir novos túneis de forma mais rápida e segura.

Wright explica que máquinas modernas retiram cerca de seis metros cúbicos de rocha por hora.

Assim, uma casa subterrânea pode ser construída em menos de um mês de trabalho contínuo.

Ganhos inesperados

Ainda é possível cavar manualmente, e alguns moradores ampliam suas casas por conta própria quando precisam de espaço.

Como se trata de uma área de mineração ativa, reformas podem resultar em descobertas valiosas inesperadas.

Um homem encontrou uma grande gema ao instalar um chuveiro em sua casa subterrânea.

Durante a ampliação de um hotel local, foram descobertas opalas avaliadas em 1,5 milhão de dólares australianos.

Esses achados reforçam a relação direta entre habitação e atividade mineradora na cidade.

Arquitetura singular

O arenito local é estruturalmente estável e dispensa suportes adicionais, permitindo salões amplos com pé-direito elevado.

É possível criar ambientes de qualquer formato sem adicionar materiais estruturais extras ao espaço escavado.

Por isso, algumas casas subterrâneas se transformaram em residências de luxo sofisticadas.

Existem piscinas subterrâneas, salões de jogos, grandes banheiros e salas de estar de alto padrão.

Um morador descreveu sua casa como um castelo, com 50 mil tijolos aparentes e portas em arco.

Vida reservada

Wright afirma que existem subterrâneos surpreendentes, embora os moradores sejam conhecidos por sua discrição.

Segundo ele, só é possível conhecer essas casas ao ser convidado para jantar, reflexo de um estilo de vida reservado.

Apesar das vantagens, os benefícios não se repetem com facilidade em outras regiões do mundo.

A maioria das moradias escavadas habitadas está localizada em áreas secas e áridas.

Ambientes úmidos apresentam desafios adicionais significativos para construções subterrâneas duráveis.

Umidade como obstáculo

Exemplos históricos incluem Mesa Verde, no Colorado, habitada por mais de 700 anos pelo povo ancestral pueblo.

Há também Petra, na Jordânia, com templos e palácios escavados no arenito rosa em ambiente desértico.

Uma das últimas aldeias escavadas ainda habitadas é Kandovan, no Irã, com apenas 11 mm de chuva mensal no verão.

Em regiões mais úmidas, o risco de infiltração e mofo torna a construção subterrânea muito mais complexa.

O metrô de Londres ilustra bem esse desafio histórico enfrentado desde o século 19.

Desafios modernos

Para impermeabilizar túneis antigos, foram usadas camadas de tijolos e betume em grandes quantidades.

Mesmo com métodos modernos, ainda ocorre mofo preto em galerias subterrâneas da cidade.

Problemas semelhantes afetam porões e estacionamentos em áreas com alta incidência de chuvas em todo o mundo.

A falta de ventilação favorece a condensação da umidade gerada por atividades domésticas e respiração humana.

Outro fator é a proximidade com o lençol freático, aumentando a presença de água subterrânea.

Comparações entre locais onde pessoas moram em casas subterrâneas

As cavernas de Hazan, em Israel, mostram como a umidade pode dobrar rapidamente em sistemas subterrâneos fechados.

A apenas 66 metros da entrada, a temperatura cai, mas a umidade sobe para o dobro dos 40% iniciais.

Em Coober Pedy, construída sobre 50 metros de arenito poroso, o ambiente permanece extremamente seco.

Poços de ventilação simples permitem a saída da umidade e garantem oxigenação adequada.

Apesar disso, desabamentos ocasionais ocorrem, geralmente associados a locais mal escolhidos.

Lewis perdeu sua casa subterrânea após um colapso, mas afirma que sente falta da vida abaixo da terra.

Para Wright, viver no subterrâneo é uma solução simples diante do calor intenso, e pode inspirar outros lugares no futuro.

Com informações de G1.

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Romário Pereira de Carvalho

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