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Com traumatismo craniano de até 8 milímetros no osso temporal, dois canais perfurados na articulação da mandíbula e prótese feita possivelmente com crina de cavalo há 2,5 mil anos, múmia da cultura Pazyryk encontrada no Planalto de Ukok revela cirurgia inédita na Idade do Ferro

Escrito por Ruth Rodrigues
Publicado el 20/02/2026 a las 17:11
Actualizado el 20/02/2026 a las 17:13
Descoberta de múmia na Sibéria mostra prótese na boca instalada após grave trauma há 2,5 mil anos e revela avanço médico inesperado.
Descoberta de múmia na Sibéria mostra prótese na boca instalada após grave trauma há 2,5 mil anos e revela avanço médico inesperado. Foto: NSU
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Descoberta de múmia na Sibéria mostra prótese na boca instalada após grave trauma há 2,5 mil anos e revela avanço médico inesperado.

Uma múmia encontrada na Sibéria revelou que uma jovem da Idade do Ferro sobreviveu a um traumatismo craniano devastador graças à instalação de uma prótese na boca há cerca de 2,5 mil anos.

A descoberta foi feita por pesquisadores da Universidade Estadual de Novosibirsk após exames de alta tecnologia realizados recentemente na Rússia.

O caso ocorreu no sul do território que hoje pertence à Rússia, onde povos nômades desenvolveram técnicas médicas surpreendentes para a época, possivelmente para salvar a vida de integrantes valorizados da comunidade.

Logo nos primeiros exames, os cientistas identificaram sinais claros de uma intervenção cirúrgica complexa.

Assim, o que inicialmente parecia apenas mais um achado arqueológico se transformou em uma das evidências médicas mais impressionantes já registradas na região.

Múmia na Sibéria passou por cirurgia inédita

A análise detalhada da múmia na Sibéria foi conduzida com o auxílio de tomografia computadorizada de alta resolução. O exame permitiu reconstruir digitalmente o crânio da jovem sem danificar o material arqueológico.

De acordo com Vladimir Kanygin, chefe do laboratório responsável pelo estudo, a tecnologia funcionou como uma verdadeira “máquina do tempo”.

Isso porque possibilitou remover virtualmente camadas preservadas e visualizar estruturas internas com extrema precisão.

Foram utilizadas centenas de imagens sequenciais, que permitiram criar um modelo tridimensional exato do crânio. Dessa forma, a equipe conseguiu identificar lesões e marcas cirúrgicas impossíveis de observar a olho nu.

O trauma que quase matou a jovem

Os exames revelaram uma depressão entre 6 e 8 milímetros no osso temporal direito. Segundo os pesquisadores, o ferimento é compatível com um impacto extremamente forte, possivelmente causado por uma queda de cavalo.

O trauma destruiu a articulação temporomandibular — estrutura que conecta a mandíbula ao crânio. Sem tratamento, a jovem provavelmente não conseguiria falar nem se alimentar, o que poderia levá-la à morte em pouco tempo.

Entretanto, o que chamou a atenção foi a presença de dois pequenos canais perfurados nos ossos da articulação. Esses canais indicavam uma tentativa clara de reconstrução da área lesionada.

A surpreendente prótese na boca identificada na múmia da Sibéria

Dentro desses canais, os especialistas encontraram vestígios de material orgânico elástico. A hipótese mais aceita é que tenha sido utilizada crina de cavalo ou tendão animal como forma de ligadura.

Na prática, tratava-se de uma espécie de prótese na boca, criada para estabilizar a mandíbula danificada. O material mantinha as superfícies ósseas unidas, permitindo movimento parcial da articulação.

Segundo o radiologista Andrey Letyagin, da Academia Russa de Ciências, a articulação voltou a funcionar, embora a paciente provavelmente sentisse dor intensa ao mastigar do lado afetado.

Além disso, o crescimento ósseo ao redor das perfurações confirmou que o procedimento foi realizado enquanto a jovem ainda estava viva. Houve cicatrização, o que prova que ela sobreviveu por meses ou até anos após a cirurgia.

Evidências de adaptação após a cirurgia

Outro detalhe reforça essa conclusão. Os molares do lado esquerdo da mandíbula apresentam desgaste acentuado, muito superior ao do lado lesionado.

Isso indica que a jovem passou a mastigar exclusivamente de um lado, compensando a limitação causada pelo trauma. Portanto, ela não apenas sobreviveu ao procedimento, como conseguiu adaptar sua rotina alimentar.

Até o momento, segundo levantamento dos autores do estudo, não há registros semelhantes na literatura científica disponível. Ou seja, pode ser o primeiro caso documentado de uma intervenção desse tipo naquele período.

Onde a múmia na Sibéria foi encontrada?

A jovem foi descoberta no sítio arqueológico Verkh-Kaldzhin-2, localizado no Planalto de Ukok, na República de Altai. A região é conhecida por túmulos congelados que preservam tecidos orgânicos com impressionante integridade.

O local pertence à cultura Pazyryk, grupo aparentado aos citas que floresceu entre os séculos VI e III a.C. Esses povos já eram reconhecidos por técnicas avançadas de mumificação e por realizarem trepanações — perfurações cirúrgicas no crânio.

A arqueóloga Natalia Polosmak explicou que um fragmento de pele mumificada no crânio dificultava análises tradicionais. No entanto, a oportunidade de realizar tomografia abriu caminho para novas descobertas.

O que a múmia da Sibéria revela sobre a medicina antiga

A presença da prótese na boca indica conhecimento anatômico detalhado e domínio técnico surpreendente para a Idade do Ferro. Não se tratava apenas de um procedimento improvisado, mas de uma tentativa estruturada de reconstrução funcional.

Especialistas acreditam que a experiência adquirida com práticas de mumificação pode ter contribuído para o desenvolvimento dessas habilidades cirúrgicas. Afinal, a dissecação exigia compreensão precisa da anatomia humana.

Além do aspecto técnico, a descoberta também revela valores sociais importantes. A decisão de realizar uma cirurgia complexa sugere que a vida da jovem tinha grande importância dentro de sua comunidade.

Foto: NSU

A análise dessa múmia na Sibéria amplia o entendimento sobre os conhecimentos médicos de povos nômades da Antiguidade. Durante muito tempo, acreditou-se que técnicas cirúrgicas sofisticadas eram exclusivas de civilizações urbanas mais estruturadas.

No entanto, as evidências mostram que sociedades consideradas periféricas também dominavam práticas avançadas. Assim, a descoberta desafia conceitos históricos e reforça a necessidade de revisitar interpretações sobre a medicina antiga.

Enquanto isso, os pesquisadores continuam estudando o material em busca de novas informações. Cada detalhe analisado ajuda a reconstruir não apenas a história da jovem, mas também a trajetória da ciência médica ao longo dos séculos.

Afinal, essa múmia, preservada no gelo da Sibéria, prova que a busca por salvar vidas é uma prática que atravessa milênios — e que a criatividade humana sempre encontrou caminhos, inclusive com uma engenhosa prótese na boca.

Fonte: Revista Galileu

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Ruth Rodrigues

Formada em Ciências Biológicas pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), atua como redatora e divulgadora científica.

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