Viagem de 45 dias trouxe 96 toneladas de redes fantasmas e plásticos do Giro do Pacífico Norte até a Califórnia, segundo a Ocean Voyages Institute.
Missão do cargueiro à vela KWAI reforça desafios de coleta em mar aberto, logística de destinação e escala da poluição oceânica.
Depois de 45 dias em mar aberto, o veleiro cargueiro KWAI atracou na Califórnia levando 96 toneladas de lixo retiradas do Giro do Pacífico Norte, área associada ao Great Pacific Garbage Patch, segundo comunicado da Ocean Voyages Institute, ONG baseada em Sausalito, na região de San Francisco Bay.
A travessia, de acordo com a mesma nota, conectou Honolulu ao litoral californiano e passou por um trecho descrito pela organização como “oceano cheio de detritos”, ao longo de mais de 4.600 milhas, até o primeiro desembarque do navio no estado com esse tipo de carga.
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No porão e no convés, o material reunia principalmente redes de pesca abandonadas, chamadas de “ghost nets”, além de equipamentos de pesca à deriva e plásticos de consumo recolhidos diretamente no alto-mar, onde a coleta costuma ser limitada pela distância de portos e pela falta de infraestrutura contínua.
Embora o termo “maior lixão do mundo” seja popular, o fenômeno não corresponde a uma ilha compacta de resíduos, e sim a uma grande zona de convergência de correntes, onde objetos flutuantes se acumulam e circulam repetidamente, em densidade variável.
Estratégia de limpeza em mar aberto da Ocean Voyages Institute
A estratégia da Ocean Voyages Institute se baseia em missões com começo, meio e fim definidos, nas quais o navio parte abastecido e permanece semanas recolhendo detritos até alcançar um limite seguro de armazenamento, retornando então ao continente para descarregar e destinar o que foi retirado.
A organização descreve o KWAI como um “sailing cargo ship”, um cargueiro à vela usado nas operações da North Pacific Sub-Tropical Convergence Zone, e sustenta que a prioridade é remover objetos grandes antes que se fragmentem, especialmente redes e linhas que continuam capturando animais mesmo após o abandono.
Esse foco recai sobre um tipo de resíduo visto como altamente persistente, porque redes de nylon ou polipropileno podem vagar por longos períodos, acumulando plásticos, enroscando em embarcações e prendendo fauna, além de se degradarem em partes menores que se espalham com mais facilidade.
Ao relatar o retorno com 96 toneladas, a entidade também afirmou que o total acumulado de plástico removido por suas expedições ultrapassou 692.000 libras, número que reúne missões anteriores no mesmo sistema oceânico entre a Califórnia e o Havaí.
Números, rota e histórico das expedições no Pacífico
Na cobertura do desembarque, a revista Scuba Diving registrou que a embarcação percorreu 4.600 milhas náuticas entre Honolulu e San Francisco, com coleta feita no Giro do Pacífico Norte, e citou um total de 211.644 libras de resíduos retirados do oceano naquela viagem.
A publicação também atribuiu ao capitão Locky MacLean uma fala em primeira pessoa sobre a responsabilidade de conduzir a missão e o motivo do trabalho, mencionando a presença de tripulantes do Pacífico e a ideia de proteger os oceanos para as próximas gerações.
Além do balanço sobre a viagem de 2022, a organização sustenta que atingiu um marco anterior em 2020, quando anunciou ter realizado a “maior limpeza em oceano aberto da história” dentro de seu próprio escopo, com 340.000 libras recuperadas no Giro do Pacífico Norte.
Ainda em 2020, um press release da entidade informou que o KWAI voltou ao porto de Honolulu após uma expedição de 48 dias com 103 toneladas, equivalentes a 206.000 libras, formadas por redes de pesca e plásticos de consumo retirados da zona de convergência subtropical do Pacífico Norte.
Um ano antes, em junho de 2019, outro comunicado da Ocean Voyages Institute disse que a embarcação completou uma missão de 25 dias e chegou a Honolulu com mais de 40 toneladas de redes e plásticos, incluindo uma “ghost net” estimada em cinco toneladas.
Redes fantasmas e risco direto à fauna marinha

A própria organização associa parte dos resultados ao uso de tecnologia de rastreamento, com satélites e marcadores que ajudariam a localizar áreas de maior densidade de detritos, sob o argumento de que o oceano “organiza” parte do material e faz uma rede levar a outras na mesma região.
Na prática, redes abandonadas são apontadas como um problema imediato porque continuam operando como armadilhas, e a remoção de grandes peças inteiras tende a ser tratada como uma forma de reduzir riscos diretos à fauna, antes que o desgaste multiplique os fragmentos.
Esse tipo de missão também chama atenção pela dimensão concreta do resultado, já que toneladas de cordas, boias e malhas transformam um tema frequentemente associado a microplásticos quase invisíveis em um volume que pode ser pesado, fotografado, descarregado e encaminhado para triagem e destinação em terra.
Destinação do material e limites da reciclagem
Ao mesmo tempo, a etapa posterior impõe limitações, porque redes e apetrechos chegam contaminados, degradados e misturados, o que reduz a reciclagem convencional e exige parcerias e processos capazes de separar e tratar materiais de naturezas diferentes antes do descarte final.
Entre o esforço de limpar o estoque já acumulado no giro e a necessidade de conter a entrada contínua de lixo por rios e zonas costeiras, expedições como a do KWAI se posicionam no extremo mais difícil da logística, operando longe de infraestrutura e dependentes de tempo, combustível e segurança a bordo.
Se uma embarcação consegue cruzar o Pacífico e desembarcar com 96 toneladas recolhidas em mar aberto, qual combinação de tecnologia, financiamento e destino em terra poderia tornar esse tipo de missão mais frequente, sem perder eficiência nem segurança?
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