Em área montanhosa, no Japão, agricultor brasileiro enfrenta geadas, animais selvagens e falta de mão de obra, mas mantém produção de couve, maçã, uva e hortaliças bonita, alinhada e capaz de garantir renda estável na roça
Um vídeo gravado na região de montanha de Yamanashi mostra que, no Japão, agricultor brasileiro ainda consegue viver da roça com muito trabalho, técnica e teimosia boa. Entre fileiras de couve impecável, pés de maçã carregados e parreiras de uva, Nelson recebe a visita de amigos, explica o manejo e surpreende pela organização da propriedade, sempre com as montanhas e o Monte Fuji no horizonte.
Longe do Brasil onde cresceu fugindo do serviço pesado na lavoura, ele hoje se declara apaixonado pela roça. Com planejamento, manejo cuidadoso e muita disciplina, esse produtor mostra que, mesmo lidando com frio intenso, geadas, pássaros, insetos e até risco de urso, no Japão, agricultor brasileiro consegue manter um padrão de produção caprichado e constante, que enche os olhos de quem visita a propriedade.
Da infância no Brasil à paixão renovada pela roça
Nelson conta que, na infância, ajudava a mãe a plantar couve e cebolinha no Brasil, mas naquela época não queria saber de roça.
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Ao longo da vida, o caminho o levou para o outro lado do mundo. Agora, já adulto e estabelecido no Japão, agricultor brasileiro se reencontra com a agricultura e assume sem rodeios que hoje é mais fácil se separar da esposa do que da roça.
Essa virada de relação com a terra aparece em cada canteiro. Ele fala de carinho pelos clientes e pelo que planta como o verdadeiro segredo da lavoura, mais do que qualquer produto milagroso.
O resultado está nas entrelinhas do vídeo: alinhamento perfeito das linhas, folhas limpas, solo protegido e uma roça que mistura experiência brasileira com adaptação às condições japonesas.
Couve caprichada, maçã, uva e hortaliças em área de montanha
A propriedade onde vive no Japão, agricultor brasileiro fica cercada de montanhas, com vista para o Monte Fuji em dias de céu limpo. Entre os cultivos, destacam-se couve, maçã, uva e uma diversidade de hortaliças que se adaptam ao terreno inclinado e ao clima mais frio.
A couve é o cartão de visita. Os visitantes se impressionam com o verde intenso e a ausência de pragas aparentes. Em épocas de maior demanda, Nelson já chegou a tirar em torno de 500 pacotes de couve por dia, chegando a mais de 1.200 pacotes em três dias de colheita, abastecendo centrais de distribuição que enviam para mercados inclusive fora do estado.
A organização da colheita e o controle de qualidade garantem que a couve saia bonita e padronizada, mesmo com o trabalho intenso.
Na parte das frutas, os pomares de maçã chamam atenção pela carga e pelo visual, enquanto as parreiras de uva já tiveram a safra principal colhida. Algumas variedades são deixadas para amadurecer mais no frio, ficando ainda mais doces depois de pegar geada, prática conhecida na região.
Geadas, animais selvagens e falta de mão de obra
Se por um lado o cenário de montanha é bonito, por outro traz desafios diários. As geadas chegam cedo, com temperaturas baixas, e podem queimar plantas inteiras em poucas noites.
No Japão, agricultor brasileiro precisa interpretar o clima e correr contra o tempo para colher antes do frio extremo, especialmente em culturas mais sensíveis como pimentas e algumas hortaliças.
Nelson relata que perdeu dezenas de caixas de pimenta peruana e habanero porque a geada veio no meio da semana, quando os diaristas não estavam disponíveis, já que só apareciam para colher sábado e domingo. Sem mão de obra suficiente, a produção ficou no pé, o frio “cozinhou” os frutos e o prejuízo foi inevitável.
Além do clima, há a pressão constante de animais. Veados e outros bichos de maior porte deixam pegadas grandes nas áreas de brócolis, derrubam plantas e podem destruir um canteiro em pouco tempo.
Para tentar conter as invasões, ele instalou fios e fitas em volta da área e pensa em investir em cerca elétrica, mas o custo é alto e precisa ser diluído em vários pontos da fazenda.
À noite, o risco aumenta com a presença de ursos nas montanhas. Nelson conta que já viu urso em trilhas na região e que, durante a safra, costuma deixar o motor do carro ligado, faróis acesos e som alto ao amanhecer e no fim de tarde, porque o barulho ajuda a afastar os animais. Trabalhar no campo, ali, significa também conviver com a possibilidade real de encontrar um urso na beira da lavoura.
Manejo fino contra pássaros, insetos e mato

Os desafios não param na geada e nos bichos grandes. Pássaros também atacam a couve a partir do fim de novembro. Um deles, conhecido localmente como chodori, costuma chegar em bandos e “pelar” os canteiros se não houver proteção. A solução é instalar ferros e linhas com fitas penduradas para assustar as aves nos períodos mais críticos.
No chão, a estratégia é usar lona para segurar o mato. A escolha da cor não é ao acaso. A lona branca ajuda a reduzir o calor excessivo e evita que as folhas encostem em um plástico quente, o que poderia queimar as plantas.
Já a lona preta é usada em culturas como cebola, alho ou alface plantados em épocas mais frias, justamente porque ajuda a aquecer o solo e acelerar o crescimento. É um exemplo de como, no Japão, agricultor brasileiro adapta técnicas simples para tirar o máximo de cada metro de terra.
Até os insetos ganham atenção especial. Vespas grandes, que muitos confundem com marimbondos, aparecem em áreas de chuchu e outras plantas para polinizar, mas exigem cuidado pelo tamanho e pela ferroada dolorida. O equilíbrio entre aproveitar a polinização e evitar acidentes faz parte do dia a dia.
Organização da colheita e equipamentos feitos em casa
Para dar conta da rotina, no Japão, agricultor brasileiro aposta tanto em disciplina quanto em soluções práticas. Um exemplo é o carrinho de alumínio usado para transportar caixas de hortaliças na colheita.
Leve e fácil de manobrar entre as linhas, o equipamento foi pensado para reduzir esforço e ganhar eficiência, permitindo que ele colha mais em menos tempo.
A colheita de couve é fracionada conforme os pedidos, com dias específicos em que o volume é maior e outros em que a saída diminui, principalmente fora do pico.
Mesmo assim, a meta é manter a qualidade visual e o frescor em cada pacote, porque esse é o diferencial que segura os clientes nas centrais de distribuição e nos mercados atendidos pela produção da região.
Roça caprichada, renda estável e orgulho do que faz

No fim das contas, a propriedade de Nelson mostra que no Japão, agricultor brasileiro pode sim construir uma vida com renda estável na roça, desde que aceite os desafios do clima, dos animais e da falta de mão de obra e responda a tudo isso com organização e muito trabalho.
A roça caprichada, alinhada e bem cuidada é o cartão de visitas de um produtor que transformou a própria relação com a agricultura.
Ele mesmo resume o plano de vida de forma simples. Enquanto tiver saúde, quer continuar indo cedo para a lavoura, ajustando canteiros, colhendo e aprendendo a lidar com uma natureza tão bonita quanto exigente.
Entre montanhas, vista para o Monte Fuji e linhas de couve impecáveis, o que segura Nelson no campo é a combinação de amor pela roça e orgulho do próprio trabalho.E você, deixaria a cidade para viver como esse produtor e encarar uma rotina em que, no Japão, agricultor brasileiro depende da montanha, do clima e da própria coragem para seguir na roça?
Grande Nelson! Que alegria ver a sua história alcançando os lugares mais distantes! Um abraço da equipe Helião Raiz!
Texto muito e ótimo de ler, que maravilha!
Parabéns ao casal. Sr Nelson, fica com a Esposa e com a roça. É bem provável que atrás de um bom homem, exista uma grande esposa! Parabéns!
Linda, matéria parabéns!
O Nelson e a Esther são exemplos de disciplina e dedicação em tudo o que faz.