Enquanto corre para obter licença bancária, o Nubank deixa de ser só instituição de pagamento, passa a pagar mais tributos, assumir compulsório e serviços essenciais gratuitos, seguir regras rígidas de capital e governança, mas continua totalmente digital, sem precisar abrir agência física para atender clientes em todo o Brasil hoje.
Na virada de novembro, após o Banco Central e o Conselho Monetário Nacional aprovarem novas regras que restringem o uso de “banco” e “bank”, e depois de anúncios feitos na quarta-feira, 3, e reações da Febraban na quinta-feira, 4, o Nubank decidiu acelerar a transição para banco de verdade, assumindo mais custos e obrigações em troca de status regulatório completo perante os clientes.
Na sequência, a própria Febraban intensificou as críticas ao modelo do roxinho, questionando impostos, juros e perfil de crédito, enquanto especialistas em tributação, governança e compliance apontaram que a mudança pode deixar o Nubank ainda mais parecido com os grandes bancos tradicionais, mas sem abrir agência física e mantendo a operação 100% digital no Brasil.
Por que o Nubank precisa virar banco de verdade agora
Hoje, do ponto de vista regulatório, o Nubank não é banco, apesar de ser percebido assim por boa parte dos clientes.
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Ele atua com licença de instituição de pagamento e de Sociedade de Crédito, Financiamento e Investimento (SCFI), o que limita a atuação na intermediação financeira clássica.
Na prática, o Nubank pode fazer Pix, emitir cartões, manter contas de pagamento e emprestar dinheiro, mas não pode captar depósitos do público e emprestar esses mesmos recursos como um banco tradicional, usando diretamente os saldos de correntistas e poupadores.
Quando quer oferecer crédito, o Nubank precisa recorrer ao capital dos acionistas, ao próprio caixa ou a estruturas de mercado como SCD e SEP, o que torna a operação mais complexa.
No final de novembro, o Banco Central publicou, em conjunto com o Conselho Monetário Nacional, uma resolução que regulamenta a nomenclatura e a forma de apresentação das instituições autorizadas.
A regra diz que instituições de pagamento não podem usar “banco” ou “bank” no nome empresarial, na marca, no nome fantasia ou no domínio de internet se não tiverem autorização para atuar como banco.
Essas instituições terão até um ano para se adequar, apresentando em até 120 dias um plano com os procedimentos e o prazo de adaptação.
Na prática, o Nubank ficou diante de duas saídas: ou mudava marca, discurso e forma de se apresentar ao público, ou abraçava de vez a licença bancária.
Ao anunciar na quarta-feira, 3, que está trabalhando para obter a licença, o Nubank escolheu o caminho de se tornar banco de verdade, com todas as obrigações associadas.
O que muda nos impostos: CSLL, IR e PIS/COFINS
O principal impacto imediato para o Nubank está na tributação. A Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL) é o ponto central dessa virada.
Hoje, fintechs como o Nubank pagam cerca de 9% de CSLL, enquanto bancos pagam 20%, o que representa um aumento de 11 pontos percentuais na alíquota para o roxinho.
A tributarista Emanuelle Lemos lembra que um banco incumbente como Itaú ou Caixa pode chegar a 45% de carga tributária total sobre o lucro, somando cerca de 15% de IRPJ básico, 10% de adicional de IR e 20% de CSLL.
Já as fintechs são tratadas como pessoa jurídica comum, com carga bem menor. Ao virar banco, o Nubank passa a jogar com a mesma régua tributária dos grandes bancos, reduzindo a diferença fiscal que gerava incômodo nos concorrentes tradicionais.
No PIS/COFINS, o Nubank também perde flexibilidade. Como fintech, ele pode optar por:
- 3,65% no regime cumulativo, ou
- 9,25% no regime não cumulativo, que permite tomar créditos sobre operações.
Entre os bancos, essa escolha não existe. O PIS/COFINS é obrigatoriamente recolhido no regime cumulativo, com alíquota de 4,65%, o que tende a aumentar a conta de tributos do Nubank quando ele estiver oficialmente enquadrado como banco.
Por outro lado, o Nubank já tem acesso a ferramentas típicas das instituições bancárias, como os Juros sobre Capital Próprio (JCP). Se um banco tem R$ 100 milhões de lucro e distribui R$ 20 milhões via JCP, o lucro tributável cai para R$ 80 milhões.
O Nubank já pode usar JCP hoje e continuará podendo após a licença bancária, ainda que fintechs, em geral, prefiram reinvestir lucros em vez de remunerar acionistas com esse instrumento.
Capital mínimo, Basileia e estrutura de governança mais pesada
Do lado prudencial, virar banco significa viver sob as mesmas regras de capital e risco que os grandes bancos, com exigência de Patrimônio de Referência (PR) compatível com o risco das operações e aderência aos padrões do Acordo de Basileia.
Na regra antiga de referência, um banco comercial simples precisava de R$ 17,5 milhões de capital inicial, enquanto um banco múltiplo, com mais carteiras, precisava somar capitais, chegando a algo entre R$ 25 milhões e R$ 30 milhões.
Em 2025, o Banco Central atualizou o modelo por meio da Resolução Conjunta nº 14, passando a exigir capital baseado no tipo e no volume das operações.
Hoje, o simples uso da palavra “Banco” na marca já adiciona cerca de R$ 30 milhões à exigência de capital, além de parcelas extras para cada atividade relevante, como R$ 7 milhões para concessão de crédito e R$ 5 milhões para intermediação financeira, entre outras.
Na avaliação de especialistas, não deve faltar capital ao Nubank para cumprir essas exigências, já que a instituição vem se consolidando com base de mais de 100 milhões de clientes e porte comparável ao de bancões em volume de operações.
O desafio está menos em levantar capital e mais em estruturar controles, comitês, auditorias e camadas de governança compatíveis com o status de banco.
Segundo o advogado Fernando Moreira, o sistema bancário é muito mais pesado e caro em termos de governança e compliance, exigindo processos de diligência, documentação e auditoria contínua.
Ainda assim, o Nubank parte de um patamar mais avançado do que fintechs menores, que teriam de construir essa estrutura praticamente do zero.
Serviços essenciais gratuitos que o Nubank terá de oferecer
Ao obter a licença, o Nubank passará a ser obrigado a seguir a Resolução nº 3.919/2010 do Conselho Monetário Nacional (CMN), que define o Pacote de Serviços Essenciais.
Isso significa que o Nubank, como banco, não poderá cobrar tarifas por uma série de serviços básicos para pessoas físicas, entre eles:
- Fornecimento de cartão de débito
- 4 saques por mês em guichê ou terminal de autoatendimento
- 2 transferências por mês entre contas na própria instituição
- 2 extratos mensais com movimentação dos últimos 30 dias
- Consultas ilimitadas pela internet
- Fornecimento de até 10 folhas de cheque por mês, se houver oferta de conta com cheques
- Compensação de cheques
Para o cliente, isso tende a deixar mais claro o que é gratuito e o que pode ser tarifado no Nubank, alinhando o roxinho às mesmas obrigações mínimas dos grandes bancos.
Para o Nubank, é mais uma camada de conformidade regulatória, mas que reforça a imagem de serviços básicos sem tarifas para o usuário comum.
Compulsório, crédito e o destino do dinheiro dos clientes
Outro ponto central é o recolhimento compulsório, mecanismo pelo qual bancos são obrigados a depositar parte dos recursos captados em contas de sua titularidade no Banco Central.
Esse dinheiro fica imobilizado e serve para controlar a liquidez do sistema, limitando o quanto pode ser usado em empréstimos.
Hoje, a Nu Financeira S.A., que já é instituição financeira, está sujeita às regras de compulsório aplicáveis às operações que realiza.
Já a Nu Pagamentos S.A., responsável pela conta de pagamentos, não recolhe compulsório sobre os recursos mantidos nessas contas, já que instituições de pagamento não podem usar esses saldos para operações próprias.
Ao se consolidar como banco, o Nubank tende a conviver mais diretamente com o compulsório, ao mesmo tempo em que ganha a possibilidade de atuar na intermediação financeira clássica. Isso significa que o
Nubank poderá captar depósitos de forma mais ampla e emprestar esses recursos, desde que cumpra as exigências de capital, risco e alocação definidas pelo Banco Central.
Além disso, o Nubank, como banco, terá de:
- Aplicar parte das captações em finalidades específicas, como crédito imobiliário e microcrédito
- Enviar relatórios periódicos ao Banco Central, detalhando operações, balanços e riscos
- Manter sistemas de gestão de risco mais robustos, cobrindo crédito, liquidez, mercado e risco operacional
Na prática, o cliente deve perceber mais ofertas de crédito estruturado e, potencialmente, maior diversidade de produtos, enquanto, nos bastidores, o Nubank passa a seguir a mesma arquitetura regulatória dos bancos tradicionais.
Nubank continua sem agência física e 100% digital
Uma dúvida comum é se, ao virar banco, o Nubank terá de abrir agência física. A resposta é não. As exigências do Banco Central são centradas em capital, governança, risco e transparência, não na existência de agências.
Isso significa que o Nubank pode continuar operando 100% digital, sem uma única porta de rua, desde que cumpra todos os requisitos prudenciais.
O aplicativo permanece como principal canal de relacionamento, o cartão roxo segue como símbolo da marca e o atendimento continua centralizado em canais online.
Para o cliente, a experiência de uso do Nubank não deve mudar de forma brusca no dia a dia.
A grande transformação acontece no plano regulatório e contábil, com mais obrigações para o Nubank e mais camadas de proteção e regras claras em torno da relação com o cliente.
Febraban, críticas e disputa sobre impostos do roxinho
A transição do Nubank para banco acontece em meio a um clima de tensão com a Febraban, entidade que representa os grandes bancos.
Em uma postagem, o CEO do Nubank, David Vélez, afirmou que o roxinho é “campeão de inclusão financeira” e “campeão de pagador de impostos”, indicando que a instituição paga mais imposto que os bancões e aumenta a concorrência no sistema.
A Febraban reagiu afirmando que a publicação é “totalmente enviesada” e que há fatos que precisam ser encarados.
Na nota, a entidade destacou que 97,7% da carteira de pessoa física do Nubank está nas linhas mais caras do mercado, sendo 64,8% em cartão de crédito e 32,8% em crédito pessoal não consignado, com zero exposição em financiamento imobiliário, veículos e agronegócio.
A Febraban também afirmou que, apesar de o Nubank ter maior retorno sobre o patrimônio (ROE), a proporção entre impostos devidos e lucro é a menor quando comparada a quatro grandes bancos de varejo, o que criaria uma grande vantagem competitiva.
Além disso, a entidade apontou altas taxas de juros, elevada inadimplência e forte impacto no endividamento dos clientes do roxinho.
Em outra frente, a Febraban considerou “acertada” a decisão do Banco Central de proteger o uso da palavra “banco” apenas para quem possui licença bancária, argumentando que isso reforça a segurança, a transparência e a credibilidade do sistema financeiro e evita ambiguidades para o consumidor.
Por que poucas fintechs devem seguir o caminho do Nubank
Na avaliação de Fernando Moreira, a decisão do Banco Central aumenta a transparência para o consumidor, mas também eleva a barreira de entrada para fintechs que queiram se transformar em bancos.
Segundo o especialista, quase nenhuma fintech além do Nubank deve correr atrás de licença bancária no curto prazo, justamente porque o modelo bancário exige uma estrutura pesada de governança, controles, auditoria e diligência. Isso muda a forma de fazer parcerias, estruturar produtos e gerir riscos, com custos fixos relevantes.
Enquanto muitas fintechs podem preferir ajustar marca e discurso para se afastar da palavra “banco”, o
Nubank opta por assumir o rótulo, confiando que o impacto de mais imposto, mais capital e mais supervisão será compensado por mais credibilidade, mais competitividade e mais clareza para o cliente.
O que muda na prática para o cliente do Nubank
Para quem já usa o roxinho no dia a dia, o efeito imediato da licença bancária será mais invisível do que espetacular. O app continua o mesmo, o cartão permanece roxo e os serviços seguem concentrados no celular.
O que muda é que o Nubank passa a operar como banco plenamente regulado, com mais obrigações de capital, risco, relatórios e transparência, além de ter de obedecer ao pacote de serviços essenciais gratuitos e conviver mais intensamente com o recolhimento compulsório.
Na outra ponta, abre-se espaço para novos tipos de crédito, maior diversificação da carteira e, potencialmente, ajustes em tarifas e juros ao longo do tempo.
Em resumo, o Nubank vira banco de verdade, paga mais imposto, assume regras mais duras do Banco Central e continua 100% digital, sem agência física, o que pode mudar o equilíbrio de forças entre fintechs e bancões e reconfigurar o relacionamento do roxinho com milhões de brasileiros.
E você, acredita que o Nubank virar banco vai trazer mais vantagens ou mais riscos para a sua vida como cliente do roxinho?
sim mim ligaran do banco
Não!!!
Sou cliente da nubank desde que começou. Fiquei três anos com o mesmo limite no cartão de crédito,sendo que não estava negativada, mas sempre com fé que um dia eles aumentariam o meu limite. Quando eu comecei a saber usar o cartão,e como usar a conta, começaram a aumentar o meu limite. Hoje eu tenho um limite muito bom. Nunca tive problema com o BC.o melhor BC digital que existe.