Economista Celso Furtado alerta que o crescimento brasileiro perde força social quando a renda de quem está na base segue comprimida, o salário mínimo permanece sem acompanhar a expansão da economia e milhões continuam distantes do consumo, da estabilidade e da participação real nos ganhos que o país produz ano após ano.
Economista Celso Furtado apontam que o centro do impasse brasileiro não está apenas em crescer, mas em crescer sem distribuir de forma minimamente equilibrada os benefícios do próprio avanço econômico. Quando a economia se expande e a maior parte da população continua com renda apertada, o desenvolvimento deixa de ser compartilhado e passa a funcionar como um processo concentrado.
Essa leitura ganha peso ao observar que grande parte dos trabalhadores permanece entre dois e três salários mínimos ou menos, mesmo depois de longos períodos de crescimento. O resultado é um país que produz mais, mas não incorpora a maioria aos frutos desse movimento, mantendo consumo limitado, mobilidade social travada e desigualdade persistente.
O crescimento que aparece nos números, mas não no cotidiano
A crítica feita por economistas parte de uma contradição direta: o Brasil cresceu de forma expressiva ao longo de décadas e, de maneira mais acentuada, também nos últimos 20 anos, mas esse avanço não se traduziu em melhora compatível para quem vive do trabalho. O ponto central não é negar a existência de crescimento, e sim mostrar que o crescimento, sozinho, não garante desenvolvimento equilibrado.
-
Programa Pé-de-Meia do governo Lula evita que 1 em cada 4 jovens abandone o ensino médio, derruba a evasão entre alunos vulneráveis e revela que o incentivo financeiro já está mudando o destino de milhares de estudantes pelo Brasil
-
Nestlé coloca R$ 2 bilhões na mesa e inaugura nova fábrica colossal no Brasil em cidade de apenas 4 mil moradores, com tecnologia Indústria 4.0, robôs e IA, dobrando a produção de sachês pet e mirando exportações para Chile, México e Colômbia.
-
Escala 6×1, adeus? Rede de supermercados testa nova jornada com duas folgas semanais, aprovação de mais de 90% e impacto direto para mais de 5 mil funcionários
-
Catarinense deixa carreira consolidada na saúde, segue sonho antigo e constrói cervejaria artesanal que nasceu após viagem marcante à Europa em Santa Catarina
Quando o salário mínimo fica estacionado e a base salarial continua comprimida, a economia pode até se mover, mas a vida prática de milhões segue travada. Isso ajuda a explicar por que o país expande produção, atividade e riqueza, mas não consegue fazer com que essa dinâmica seja sentida de forma ampla no bolso da população. Sem renda circulando na base, o crescimento perde profundidade social.
O peso de manter 2/3 da população com renda muito baixa

A observação de que cerca de 2/3 da população recebe entre dois, três salários mínimos ou menos ajuda a dimensionar o problema. Isso significa que uma parcela enorme do país participa pouco dos benefícios do crescimento, consome menos do que poderia, adia decisões básicas da vida material e permanece distante de uma condição mais estável. Não se trata de um detalhe estatístico, mas de um bloqueio estrutural.
Nessa lógica, o desenvolvimento fica torto. Em vez de formar uma sociedade mais homogênea, com ampliação gradual do bem-estar e redução de distâncias, o país preserva um desenho desigual em que poucos avançam mais rápido e muitos continuam limitados. O alerta dos economistas é simples e duro ao mesmo tempo: nenhum país se desenvolve de forma sólida quando a maioria fica fora dos ganhos gerados pela própria economia.
Por que salários baixos não resolvem o problema do desenvolvimento
A base dessa política salarial foi associada a uma visão que aposta na compressão dos custos de produção como caminho para exportar mais, conter pressões inflacionárias e facilitar ajustes econômicos. Na prática, isso significa jogar parte relevante do esforço de equilíbrio sobre os salários de quem está na base. É a forma mais fácil de sacrificar o povo quando se quer ajustar números sem reorganizar a estrutura do crescimento.
O problema é que essa saída, embora pareça funcional no curto prazo, cobra um preço alto no médio e no longo prazo. Quando a renda popular é mantida sob pressão, o país limita seu próprio mercado interno, restringe a capacidade de consumo da maioria e transforma o crescimento em um fenômeno mais estreito. Economistas insistem que reduzir salários não cria prosperidade compartilhada; apenas adia o enfrentamento da desigualdade e enfraquece a base do desenvolvimento.
O que os países mais desenvolvidos mostram nesse debate
A comparação apresentada no argumento é reveladora: em economias mais desenvolvidas, os salários tendem a subir junto com o crescimento, e os salários mais baixos precisam subir ainda mais para reduzir distâncias. É isso que ajuda a formar um perfil social menos desigual e mais integrado. O desenvolvimento, nesse modelo, não acontece apesar da melhora da base salarial, mas justamente com ela.
O exemplo da França ilustra esse raciocínio ao mostrar uma distância menor entre a remuneração de um professor universitário e o salário mínimo mais baixo. O ponto não está em idealizar outro país, mas em destacar uma proporção social mais equilibrada, em que o topo não se afasta de forma tão radical da base. Para os economistas, é nesse tipo de arranjo que a economia deixa de crescer para poucos e passa a construir um desenvolvimento com participação social real.
O Brasil que cresce sem transbordar renda
O retrato traçado por essa análise é o de um país que produz, avança e acumula, mas não consegue transformar esse movimento em melhora ampla para sua população. Quando o crescimento não transborda para os salários, ele não consolida uma sociedade mais forte, mais integrada e menos desigual. A economia sobe, mas a estrutura social continua emperrada.
É por isso que o debate sobre salários não pode ser tratado como um tema secundário. Ele está no centro da discussão sobre que tipo de país o Brasil quer ser: um país em que o crescimento se concentra e separa, ou um país em que a maioria participa dos benefícios gerados pelo próprio trabalho. Sem essa correção, o desenvolvimento segue incompleto e a desigualdade permanece como regra.
No fim, o alerta dos economistas vai direto ao ponto: crescimento sem melhora consistente da renda popular não basta para desenvolver o país de forma equilibrada. E, na sua visão, essa é uma das chaves para entender por que o Brasil avança tanto em certos números, mas tão pouco na vida concreta de grande parte da população.
Na sua opinião, o país erra ao tratar salários baixos como solução econômica, ou esse modelo já mostrou que aprofunda a desigualdade?
Seja o primeiro a reagir!