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O cientista que largou o cargo concursado na USP, se mudou com um bebê de seis meses para uma cidade na linha de frente do desmatamento e hoje comanda fazendas de gado que recuperam o solo, engordam o boi em metade do tempo e provam que a pecuária amazônica pode reduzir desmatamento e emissões

Escrito por Ana Alice
Publicado el 23/02/2026 a las 03:43
Actualizado el 23/02/2026 a las 13:50
Veterinário deixa a USP e testa pecuária regenerativa para recuperar pastos, reduzir metano e conter o desmatamento amazônico. (Imagem: Reprodução/BBC)
Veterinário deixa a USP e testa pecuária regenerativa para recuperar pastos, reduzir metano e conter o desmatamento amazônico. (Imagem: Reprodução/BBC)
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Ao sair da USP e atuar na fronteira amazônica, um veterinário passou a testar um modelo de pecuária com recuperação de pastos, árvores e manejo intensivo, buscando elevar produtividade em áreas já abertas e reduzir pressão por novas derrubadas.

O veterinário Luís Fernando Laranja Fonseca deixou um cargo de professor e pesquisador na Universidade de São Paulo (USP) e se mudou para o norte de Mato Grosso com a intenção de atuar, no campo, sobre um tema que o preocupava na vida acadêmica: a relação entre a abertura de áreas para pecuária e o avanço do desmatamento na Amazônia.

A decisão foi tomada em 2002, quando ele tinha 35 anos, e o levou a Alta Floresta, município situado em uma área marcada por décadas de expansão agropecuária.

Na época, Fonseca se instalou na região com a esposa e o primeiro filho, então com seis meses.

Anos depois, ele descreveu aquele período como uma mudança brusca de rota profissional e pessoal.

“Minha leitura era de que precisaríamos desenvolver negócios que estivessem associados à conservação florestal. Se não conseguíssemos gerar bons negócios que valorizassem a floresta em pé, seria difícil reduzir drasticamente o desmatamento”, disse.

A permanência na Amazônia durou seis anos.

Nesse intervalo, nasceu o segundo filho e Fonseca passou a trabalhar diretamente com comunidades na extração e comercialização de castanha-do-pará, atividade que deu origem ao seu primeiro empreendimento na região, a Ouro Verde.

(Imagem: Reprodução/BBC)
(Imagem: Reprodução/BBC)

Negócios de impacto e investimentos na Amazônia

Embora o negócio da castanha tenha encontrado viabilidade, Fonseca afirma que passou a enxergar limitações quando comparava o alcance da iniciativa com o ritmo de perda de floresta observado na região.

A partir dessa leitura, ele decidiu direcionar esforços para um modelo que, segundo relata, poderia ampliar o volume de recursos destinado a projetos com metas socioambientais.

Foi nesse contexto que ele fundou a Kaeté Investimentos, gestora voltada à mobilização de fundos para negócios de impacto na Amazônia.

Mais tarde, em 2019, estruturou a Caaporã, uma holding que, de acordo com informações do próprio grupo, administra cerca de 20 mil hectares distribuídos em seis fazendas nos estados de Mato Grosso, Tocantins e Bahia.

De volta ao estado de São Paulo, Fonseca também ocupou a coordenação do Programa de Agricultura e Meio Ambiente da WWF-Brasil.

Hoje, mantém uma rotina de trabalho entre o escritório da holding em Piracicaba (SP) e as propriedades rurais.

Nascido em São Borja (RS), ele é doutor em Reprodução Animal e realizou pós-doutorado na University of Kentucky, nos Estados Unidos.

Expansão de pastagens e desmatamento na Amazônia

A expansão de pastagens aparece em levantamentos técnicos como um dos principais vetores do desmatamento na Amazônia.

Dados do MapBiomas indicam que a área dedicada à pastagem foi o uso do solo que mais avançou no bioma entre 1985 e 2023, com crescimento de mais de 363%, passando de aproximadamente 12,7 milhões de hectares para 59 milhões de hectares no período.

Ao relatar o que viu no norte de Mato Grosso, Fonseca diz que a paisagem estava marcada pela predominância da pecuária extensiva, com animais em grandes áreas de pasto e menor nível de investimento em manejo e tecnologia.

Em pastagens degradadas, o capim tende a oferecer menos nutrientes, o que pode prolongar o tempo necessário para o gado ganhar peso.

Nesse cenário, especialistas em uso da terra costumam apontar que baixa produtividade pode elevar a demanda por área para sustentar a produção.

Fonseca argumenta que, se o setor consegue produzir mais em áreas já abertas, a atividade pode reduzir a pressão para converter novas áreas de vegetação nativa.

Recuperação de pastos degradados e integração com árvores

Nas fazendas administradas pela Caaporã, a estratégia relatada por Fonseca começa pela recuperação de pastagens degradadas, áreas que já foram abertas e perderam parte da fertilidade.

O manejo inclui correções no solo e mudanças no desenho do pasto, com diversificação de plantas e inclusão de árvores.

https://www.youtube.com/watch?v=J0Zda1-Kpck

Segundo ele, o sistema combina capins com leguminosas, como o amendoim forrageiro.

Por terem capacidade de fixar nitrogênio no solo, essas plantas podem reduzir a necessidade de fertilizantes nitrogenados, como a ureia, cuja produção e uso também se associam a emissões.

Fonseca também menciona a adoção de árvores exóticas, como eucalipto, e nativas, como o paricá, em arranjos que criam sombra e alteram as condições microclimáticas do pasto.

A presença de sombra, afirma o empresário, contribui para reduzir o estresse térmico dos animais em períodos de calor, com reflexos no ganho de peso.

Com mudanças no manejo e na alimentação, ele diz que o objetivo é encurtar o ciclo produtivo: enquanto sistemas tradicionais podem levar cerca de quatro anos para atingir o peso de abate, o modelo aplicado nas fazendas do grupo busca chegar a aproximadamente dois anos.

A relação com emissões, de acordo com Fonseca, está ligada ao tempo de vida do animal.

“Se você tem um boi que engorda com quatro anos, ele fica quatro anos literalmente arrotando metano”, afirmou, ao explicar a lógica do projeto.

Metano na pecuária e emissões de gases de efeito estufa

A pecuária ocupa espaço central no debate climático no Brasil por causa do metano liberado na digestão de ruminantes.

Dados do SEEG indicam que a agropecuária respondeu por cerca de três quartos das emissões nacionais de metano em 2023, e que a maior parte desse volume foi atribuída à pecuária.

Com base nisso, Fonseca defende que elevar produtividade em áreas já abertas pode reduzir a necessidade de expansão de pastagens.

Ele também afirma que, se o modelo se disseminar, áreas de baixa produtividade poderiam ser redirecionadas para restauração florestal, em linha com compromissos brasileiros ligados à recuperação de vegetação nativa no âmbito do Acordo de Paris.

Sobre a pegada por quilo de carne, o empresário apresenta estimativas do próprio método.

Segundo ele, um sistema tradicional pode emitir cerca de 35 kg de CO2 equivalente por quilo de carcaça, enquanto a produção nas fazendas administradas pela Caaporã ficaria em torno de 20 kg, o que ele aponta como uma redução superior a 40%.

Esses números, diz Fonseca, são calculados internamente a partir das características do manejo e do tempo de abate.

O trabalho é observado por pesquisadores há cerca de duas décadas, segundo relatos citados no texto original.

André Pereira de Carvalho, do Centro de Estudos em Sustentabilidade da FGV, enquadra a iniciativa no campo da agricultura regenerativa, ao considerar que a produção de alimento pode caminhar junto de serviços ambientais.

Na avaliação dele, além de emissões, entram na conta impactos sobre água e biodiversidade.

Silvia Ferraz Nogueira De Tommaso, professora do doutorado profissional em Gestão de Negócios da FIA Business School, afirma que o tema envolve um equilíbrio entre peso econômico e impactos ambientais.

Para ela, discutir a redução de danos sem ignorar o papel do setor na renda e no emprego é parte do desafio, especialmente em regiões onde a atividade organiza a economia local.

Rastreabilidade da carne, créditos de carbono e mercado interno

A migração para sistemas mais intensivos e tecnificados enfrenta barreiras práticas, segundo Fonseca.

Ele cita a necessidade de conhecimento técnico, o custo de recuperar pastagens degradadas e a resistência de parte dos produtores em alterar rotinas consolidadas.

Na visão dele, linhas de crédito voltadas a práticas sustentáveis poderiam ajudar, mas o acesso, afirma, costuma ser burocrático.

Do ponto de vista comercial, Fonseca diz que a carne produzida com práticas de menor impacto ainda não recebe, de forma sistemática, um prêmio de preço no mercado.

Diante disso, ele afirma estudar a possibilidade de complementar receitas com créditos de carbono.

A empresa, segundo relata, desenvolve uma metodologia ligada ao mercado voluntário, com certificação.

Frigoríficos também têm mencionado o tema.

A Minerva Foods informa que compra parte da produção da Caaporã e diz buscar promover práticas de pecuária regenerativa entre fornecedores, associando esse tipo de manejo a uma estratégia de redução de emissões.

A discussão sobre rastreabilidade da cadeia bovina ganhou visibilidade durante a COP30, conferência do clima realizada em Belém (PA) entre 10 e 21 de novembro de 2025, segundo a organização do evento.

Nesse ambiente, iniciativas de transparência voltadas ao consumidor foram citadas como tentativas de aproximar dados de origem e desempenho socioambiental dos produtos vendidos no país.

O aplicativo Do Pasto ao Prato se apresenta como uma ferramenta para identificar a origem da carne bovina disponível no mercado brasileiro e descreve a iniciativa como uma parceria internacional.

No material divulgado pelo projeto e em reportagens que trataram do tema, a rastreabilidade aparece como um ponto sensível, sobretudo no mercado interno, onde a cobrança tende a ser menor do que em alguns mercados importadores.

Ao olhar para os próximos anos, Fonseca afirma que trabalha com a premissa de que a demanda por carne seguirá existindo e cita projeções de organismos internacionais, como OCDE e FAO, para sustentar esse cenário.

Ele também declara ceticismo sobre uma substituição ampla por carne cultivada em laboratório no curto prazo, citando custo e adaptação do consumidor como fatores de incerteza.

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Gilberto
Gilberto
25/02/2026 13:23

👏👏👏👏👏

Pablo Teixeira
Pablo Teixeira
24/02/2026 14:31

As vezes dá certo deixar uma fazenda no nome de um laranja……

Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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