Estudo revela que o apagamento mental não é falha de pensamento, mas um estado cerebral específico, com implicações para saúde mental e consciência.
Em um dia comum, os pensamentos saltam de um tema a outro — listas de compras, prazos, músicas repetitivas. Mas, em certos momentos, eles cessam completamente, ficando com a mente em branco.
Essas pausas são conhecidas como «mente em branco«. Apesar de serem reconhecidas no dia a dia, também foram, muitas vezes, vistas como lapsos de memória.
Um novo estudo conduzido por Thomas Andrillon e colegas propõe algo diferente. A mente em branco pode ser um estado consciente distinto e quantificável.
-
Por mais de 400 anos, marinheiros relataram cruzar um oceano que brilhava no escuro como neve, sem ondas e sem reflexos, apenas um brilho uniforme se estendendo até o horizonte, e em 2019 um satélite registrou o fenômeno cobrindo mais de 100.000 km² por mais de 40 noites seguidas ao sul de Java, mas os cientistas ainda não sabem exatamente o que desencadeia o processo
-
Japão vira referência com processo genial que recicla 100 toneladas de plástico por dia usando técnica que remove contaminantes, sensores ópticos que separam PP e PE em segundos e linhas industriais que transformam toneladas de resíduos em paletes reutilizáveis.
-
China criou máquina ‘impossível’ que muda a agricultura ao combinar drones, tratores autônomos com navegação centimétrica, sensores e inteligência artificial
-
A cidade flutuante movida a 2 reatores nucleares que abandona o vapor, usa campos eletromagnéticos para lançar aeronaves ao céu e inaugura uma nova era dos porta-aviões de guerra
Um vazio dentro da consciência
Normalmente, a mente é comparada a um rio em constante fluxo de pensamentos — lembranças, planejamentos, reflexões. Sempre se acreditou que algo estivesse circulando nesse fluxo. Porém, esse novo estudo sugere que, às vezes, o rio simplesmente seca.
Pesquisadores tratavam a mente em branco como parte da divagação mental, aqueles momentos de distração em que os pensamentos se desviam da tarefa atual. Mas Andrillon e seus colegas propõem que o branqueamento mental é algo separado.
Na divagação, há pensamentos presentes, mesmo que desconectados. No branqueamento, não há pensamento algum.
Pessoas relatam sentir-se mais sonolentas e lentas durante o branqueamento. Também são mais propensas a cometer erros. Estima-se que passamos entre 5% e 20% do tempo acordados nesse estado, percebendo ou não.
Esses episódios aparecem mais durante tarefas repetitivas, após noites mal dormidas ou após exercícios físicos intensos. As pistas são sutis: lapsos de atenção, esquecimento de informações e silenciamento repentino do monólogo interno.
Diversos tipos de apagamento mental
Segundo o estudo, existem vários tipos de branqueamento mental. Algumas pessoas entram nesse estado deliberadamente, como ocorre durante práticas de meditação.
Outras chegam lá involuntariamente. Em alguns casos, a pessoa percebe a mente em branco no momento em que acontece. Em outros, apenas ao lembrar depois.
Esses brancos tendem a ser mais frequentes quando estamos cansados, sonolentos ou após esforço físico.
Em testes laboratoriais, foram associados a comportamentos mais lentos e reações mais demoradas. Mudanças fisiológicas também acompanham: a frequência cardíaca diminui e as pupilas se contraem.
Antoine Lutz, do Centro de Pesquisa em Neurociência de Lyon, destacou que o objetivo é entender melhor como o branqueamento mental se relaciona com outras experiências semelhantes, como estados meditativos.
O que acontece no cérebro durante o branco
Para estudar o fenômeno, os cientistas usaram exames como EEG e fMRI. Eles observaram um aumento de ondas lentas no cérebro, parecido com o início do sono, mesmo com os participantes acordados e responsivos. Isso foi descrito como «sono local» — uma espécie de desligamento parcial do cérebro enquanto o restante permanece desperto.
Pouco antes de a mente ficar em branco, foram registradas mudanças: batimentos cardíacos diminuem, pupilas se contraem e a percepção do ambiente se torna difusa.
Quando os participantes eram instruídos a esvaziar suas mentes, áreas relacionadas à fala, memória e planejamento motor, como a área de Broca e o hipocampo, mostravam desativação.
Além disso, os cientistas notaram uma conectividade mais uniforme entre as regiões cerebrais, diferente do padrão comum, que é mais especializado. Essa comunicação igualitária pode estar ligada a níveis reduzidos de vigilância.
Curiosamente, nem todos os brancos ocorrem da mesma forma. Em alguns casos, picos de atividade neural nas regiões posteriores do cérebro precederam o apagamento. Isso indica que uma sobrecarga de pensamento rápido também pode levar ao estado de branco.
Os pesquisadores sugerem que a excitação cerebral — ou o nível de prontidão fisiológica — pode ser a chave para entender os diferentes caminhos que levam ao branqueamento mental. Quando a excitação é muito alta, há esgotamento. Quando é muito baixa, há sonolência. Em ambos os casos, a mente se aquieta.
Reflexões filosóficas sobre o vazio
O estudo também discute o branqueamento mental sob uma perspectiva filosófica. Pode um estado sem conteúdo ainda ser uma experiência consciente?
Muitas tradições meditativas dizem que sim. Praticantes descrevem a «consciência pura» como a ausência de pensamento, mas com forte presença consciente.
Os pesquisadores traçam paralelos entre o branqueamento mental e esses estados meditativos, embora ressaltem diferenças: a meditação é, em geral, deliberada, enquanto o branqueamento é muitas vezes involuntário.
Apesar dessas diferenças, a comparação é instigante. Ao contrastar diferentes formas de consciência, os cientistas buscam identificar as características que distinguem estados sem conteúdo daqueles carregados de pensamentos.
Thomas Andrillon, autor principal do estudo, enfatiza que a pesquisa é importante para desafiar a noção de que a mente acordada está sempre pensando. Ele também destaca como o branqueamento mental revela as diferenças individuais nas experiências subjetivas.
Estudo publicado em 24 de abril na revista Trends in Cognitive Sciences.
Seja o primeiro a reagir!